António Aleixo Revisitado

Entre as muitas e sábias quadras que o grande poeta popular algarvio António Aleixo nos deixou em legado, avulta uma que pela sua sageza me inspirou esta reflexão. Dizia o poeta que “a mentira para ser segura/e atingir profundidade/tem que trazer à mistura/qualquer coisa de verdade. 

“Este livro que vos deixo ...” recolha publicada das quadras de Aleixo é um manancial de sabedoria singela e pura e de conhecimento popular. A quadra citada no parágrafo anterior, na sua aparente simplicidade, traça a matriz de um dos mais perigosos fenómenos do nosso tempo, ou seja, da proliferação nas redes sociais e não só de notícias distorcidas ou falsas (fake news). Aleixo, se hoje vivo, escreveria certamente que “a falsa notícia para ser segura/ e atingir credibilidade/ tem que trazer à mistura/qualquer coisa de verdade.

A corrupção de certas fontes, sem se saber como distinguir o trigo do joio, tem vindo a introduzir fatores de perturbação descontrolada nos sistemas de decisão política, económica e social e a minar a credibilidade dos sistemas políticos e em particular dos sistemas políticos democráticos.

A dificuldade maior, mesmo para mim que tenho formação política e técnica na área da comunicação e da gestão da informação, é discernir com confiança o que é verdadeiro daquilo que é martelado por manipulação direta ou indireta.

Em Portugal vou-me socorrendo do histórico das fontes para endossar mais ou menos confiança naquilo que me é transmitido pelos veículos de comunicação, mas quando mais me afasto da minha zona de conforto, real ou aparente, mais me sinto inseguro quanto à veracidade daquilo que leio, sobretudo quando se trata de análises interpretativas de factos ou de seleção parcial dos mesmos para ancorar a notícia.

Lá fora é mais difícil. O acompanhamento nas redes sociais das eleições brasileiras, cuja segunda volta entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro decorre a 28 de outubro é um exemplo hiperbólico do que antes referi. Muitas das notícias propaladas pelascandidaturas, em particular pela candidatura de Bolsonaro pareceram-me mentiras totais, sem ponta de verdadeAinda assim, contudo, parecem terem sido credíveis para a maioria dos brasileiros que votaram na primeira volta.    

O mundo mudou. Precisamos de outro Aleixo para nos explicar em palavras simples o mundo novo. Ele, Aleixo, que nos instou a ter senso na novidade, ao escrever que “vós que lá do vosso império / prometeis um mundo novo/ calai-vos que pode o povo/ querer um mundo novo a sério”. Eu não prometo, mas quero. Um mundo decente. Confiável.   

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Amigos do Povo - A geringonça e o futuro.

Em recente entrevista à TVI o Primeiro-ministro António Costa caracterizou a relação política entre o PS enquanto Partido de Governo e os Partidos que asseguram a maioria parlamentar, dizendo que é uma relação em que “dá para ser amigos, não dá para casar”. 

Obviamente que pela sua natureza, esta apreciação metafórica prestou-se a múltiplas interpretações. Em democracia os representantes políticos devem servir quem os elegeu, respeitando a vontade da maioria. Por isso é normal que as maiorias políticas sejam constituídas por amigos ... mais propriamente por amigos do povo. Quanto a “casarem” entre eles, a questão é diferente.

Quando, a seguir às eleições legislativas de 2015, se começou a desenhar a possibilidade de formação de uma maioria alternativa à coligação pró austeridade e empobrecimento corporizada pela PAF de Passos Coelho e Paulo Portas, escrevi num diário de expansão nacional que o grande risco da “geringonça” era uma eventual perda de identidade dos parceiros envolvidos. Sabemos hoje, até pela dureza, frontalidade e transparência com que se   realizam as múltiplas negociações no quadro da maioria parlamentar, que essa identidade não se perdeu. 

Um casamento na sua interpretação literal não implica a perda de identidade dos cônjuges. Um casamento político em contrapartida tem um risco muito grande de diluição de identidades que não serve a vitalidade democrática. São as parcerias para fazer acontecer e não os “casamentos” para sobreviver que dão força à democracia. 

Em Portugal, relação entre os Partidos que formam a maioria parlamentar tem sidoassegurada pela perceção generalizada de que a governação tem sido boa para o país e para a maioria dos portugueses. A partilha do capital político conquistado estabelece laços fortes entre quem contribuiu para os conquistar, sem anular as diferenças de perspetiva e de prioridades dos envolvidos.

A obrigação de um partido democrático, é escolher em cada momento os parceiros políticos que lhe permitem ser amigo do povo, responder aos seus anseios, aplicar o seu programa e enriquecer a sua visão sem abandonar a sua matriz de valores e princípios. As parcerias políticas não são unívocas. Implicam cedência mútua até ao limite do compromisso primordial feito com o povo, ou seja, feito entre cada partido e o seu eleitorado.

Seja qual for o resultado das eleições que se aproximam não vejo razão para que o PS, BE, PCP e Verdes deixem de ser amigos pelo povo, nem impedimento que outros amigos, partidos ou movimentos, se juntem globalmente ou parcialmente à parceria para a tornar ainda mais capaz de servir Portugal. 
     
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A Rota do Digital

A Escola Superior de Educação de Santarém realizou um dia aberto sobre os desafios da literacia digital no qual procedeu também a um meritório lançamento de um curso especial de inclusão digital e profissional. No âmbito de desse oportuno evento desafiou-me a partilhar as minhas reflexões e sugestões sobre a rota do digital para o mercado de trabalho, que pela atualidade do tema, considero útil partilhar também em síntese com os meus leitores.

As rápidas transformações tecnológicas no domínio da gestão dos dados e da informação e no desenvolvimento de ferramentas que apoiam a realização das tarefas normalmente atribuídas aos humanos está a revolucionar o mercado de trabalho e vai exigir uma enorme lucidez para permitir que a sociedade se organize em função das pessoas e não em função do poder das minorias que controlam ou vierem a controlar os dados e as ferramentas digitais.    

A rota do Digital pressupõe um caminho par um novo lugar e alguém que o vai percorrer (Uma pessoa, uma empresa, uma instituição, um território, uma comunidade). Neste contexto, as ferramentas para fazer o caminho (as competências digitais) são essenciais. É por isso determinante promover estratégias inclusivas e ambiciosas de qualificação para que as pessoas se possam realizar profissionalmente e serem felizes na nova sociedade digital.

Nas estratégias a aplicar não nos podemos esquecer de que estamos a iniciar uma nova etapa da transformação digital. Chegou o tempo da automação e da inteligência artificial. Neste tempo precisamos de ser ainda mais assertivos na formação do maior número de pessoas possível, usando de forma eficaz todos os recursos nacionais e europeus disponíveis.

Mas se temos que garantir ferramentas para o caminho, também temos de preparar o caminhante para usar as ferramentas e não para ser usado por elas. Para isso é fundamental que cada um como indivíduo e as comunidades como um todo e saibam onde querem chegar.

Promover a literacia digital implica transpor os valores da sociedade analógica para a sociedade digital. Com as novas capacidades de captura, armazenamento e processamento de dados serão desenvolvidos algoritmos cada vez mais sofisticados. A fronteira entre a sociedade promissora homem/máquina e a servidão de uma sociedade máquina/homem decide-se na prevalência do ser sobre o ter.

O significado será a base de tudo. Os algoritmos serão o que nós formos. Na nossa cidadania se desenharão os tempos a haver.

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Venezuela a sangrar

Durante muitas décadas, beneficiando dos seus recursos naturais, em particular do petróleo, a Venezuela foi um Estado latino-americano relativamente próspero eatraiu para o seu território milhões de migrantes vindos dos países vizinhos, da Europa e de muitas outras paragens. 

Nos últimos tempos, uma profunda derrapagem democrática e institucional gerou uma enorme crise humanitária. Mais de 2,5 milhões de Venezuelanos foram obrigados a deixar o seu País assolados pela falta de emprego, de bens essenciais, de medicamentos e de segurança. Primeiro partiram os homens e as mulheres em idade ativa para tentar encontrar noutras paragens sustento para os que ficavam. Agora, segundo reportam as agências internacionais independentes, pelas várias rotas terrestres, marítimas e aéreas, fogem famílias inteiras e crianças e idosos sem com as raízes familiares arrancadas pela tormenta. 

Segundo os dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) mais de1,5 milhões de venezuelanos disseminaram-se nos últimos meses por toda a América do Sul, ficando mais de metade na Colômbia, mas com fortes contingentesa chegarem também ao Peru, Chile, Argentina, Brasil e Panamá entre muitos outros. Meio milhão fugiu para a América do Norte e quase 300 000 rumaram àEuropa, em particular a Espanha, Itália e Portugal.          

Na Assembleia Parlamentar União Europeia – América Latina (EUROLAT) realizada em Viena entre 17 e 20 de setembro, foi travado um acesso debatepolítico sobre a crise humanitária na Venezuela, introduzido tecnicamente por representantes da OIM e do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Uma tragédia com a dimensão daquela que está a suceder na Venezuela é sempre fruto dum estrondoso falhanço político. As causas e os contextos para que esse falhanço tenha ocorrido foram múltiplas e complexas. Num debate político é normal que as diversas causas sejam mais ou menos valorizadas em função da ideologia e da matriz de valores de quem analisa a situação. O que é inaceitável, e não pude deixar de partilhar este sentimento na intervenção que fiz no debate, é que se use o sofrimento atroz de mais de 2 milhões de pessoas para alimentar jogos de poder local ou regional, extremando a caracterização dos bons e dos maus e vice-versa, tal como é inaceitável que, noutro patamarse use a tragédia humanapara alimentar as rivalidades geoestratégicas das grandes potências.

tragédia humanitária na Venezuela (tal como muitas outras que vão ocorrendono mundo em que vivemos) convoca a ação política na sua forma mais nobre. A confrontação política é fundamental legítima, mas a ação prática não pode esperar mais. É preciso ajudar o povo da Venezuela.  
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Democracia Certificada

A qualidade da democracia nunca é suficiente. Numa sociedade em mudança permanente e acelerada, é necessário procurar sempre mais e melhores soluções para garantir bons níveis de qualidade democrática. É este o quadro de referência em que que devemos analisar a excelente notícia de que a qualidade da democracia em Portugal foi considerada a décima melhor do mundo, num ranking que avaliou 201 países e que foi coordenado no nosso país pelo Professor Tiago Fernandes da Universidade Nova de Lisboa e financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. 

Para uma democracia relativamente jovem como a portuguesa este resultado é ao mesmo tempo um orgulho, uma responsabilidade e uma motivação para fazer cada vez melhor. Os resultados relativos são importantes e é salutar que Portugal, que tem vindo a conseguir excelentes resultados em muitos estudos comparativos feitos à escala global, também se posicione bem na qualidade da democracia. 

No estudo comparativo do projeto V-Dem (Variedades em Democracia), Portugal é suplantado pelas democracias nórdicas, como a Noruega, Suécia, Dinamarca e a Finlândia, pela Suíça, tradicional referência da democracia participativa, pelas boas surpresas da Estónia e da Costa Rica e pelos países do novo mundo com inspiração na democracia britânica, como a Austrália e a Nova Zelândia, mas ao mesmo tempo suplanta 191 outros países.

Celebremos este bom resultado relativo, que nos coloca à frente de democracias como a inglesa ou a americana (O Brexit e Trump não são frutos do acaso) e que resulta também de uma melhoria dos resultados absolutos, quando infelizmente no mundo a democracia vai sofrendo uma forte erosão.

Mas não podemos descansar à sombra de um bom resultado. 10º na posição relativa global, somos apenas 38ª no item que avalia a participação. Melhorar esta posição relativa obriga-nos a ser mais exigentes connosco próprios e com as instituições e as práticas democráticas em Portugal.

Vai iniciar-se em breve um novo ciclo de eleições europeias, regionais e legislativas. Espero que os partidos e também os movimentos cívicos convirjam em campanhas menos baseadas em slogans e casos e mais focadas em ideias e debates alargados. Também o processo de descentralização de competências em curso tem sido demasiado restrito às interações institucionais. Pela sua natureza é um domínio em que a audição sistemática das pessoas e da sua vontade poderia mobilizar níveis estruturais mais fortes de participação.   

A “certificação” que o 10º lugar outorga é excelente, mas é conjuntural. Para se tornar estrutural temos todos uma palavra a dizer e uma participação ativa a concretizar.  
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Contas de Somar

A economia portuguesa continua a apresentar indicadores positivos em áreas tãoimportantes como o crescimento, o emprego e a confiança dos empresários e dos consumidores. 

Como contra factos é difícil esgrimir argumentos com sucesso, as forças políticas que se posicionam à direita e à esquerda do partido do governo têm sido confrontadas com a legítima necessidade de desenvolver narrativas que contestam os processos e não os resultados, como forma de suportar o seu discurso político.

Para os partidos à esquerda no hemiciclo parlamentar, designadamente para o Partido Comunista Português, o Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista “Os Verdes”, que como garantes da maioria parlamentar de Governo são também credores dos resultados obtidos, os sinais favoráveis na nossa economia e na nossa sociedade revelam-se favoráveis, apesar da União Europeia e das suas políticas restritivas no plano orçamental. Implícito ao seu discurso está o princípio de que sem essas restrições europeias Portugal poderia fazer ainda mais e melhor.  

Já para os partidos à direita, designadamente o Partido Social-Democrata (PSD/PPD) e o Partido Popular (CDS/PP) que apostaram no passado em ir para além das normas de rigor contratualizadas em Bruxelas, o País avança por causa dessas normas e apesar das tentações sociais e desenvolvimentistas do partido do governo e das forças que lhe garantem a maioria parlamentar. Para estes partidos,os resultados favoráveis obtidos pela governação poderiam ser ainda melhores se Portugal seguisse a cartilha da austeridade e do corte de direitos e garantias que as forças neoliberais em maioria nas instituições europeias não se cansam de recomendar. 

O povo português, que tem demonstrado ao longo de décadas de vivência democrática uma enorme sabedoria, há muito que compreendeu que as narrativas das forças à esquerda e à direita do PS se anulam mutuamente.

primeira síntese desta dicotomia é o reconhecimento geral de que Portugal e os portugueses vivem hoje em condições mais favoráveis do que no ciclo político anterior. Quanto às razões, o “apesar da Europa” glosado à esquerda  choca frontalmente com o “apesar do PS” glosado à direita. Esse choque deve-se a uma troca de sinal. Europa e PS não diminuem nada no combate por melhores de condições de vida em Portugal e para os portugueses. 

Não são uma conta de diminuir. Pelo contrário, são uma conta de somar. A pertença um espaço de paz, liberdade de expressão e cooperação associada a uma visão ambiciosa, credível e progressista de governação e participação ativa nos destinos desse espaço, têm sido o segredo dos bons resultados relativos conseguidos pelo país nos últimos três anos.  
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