"Vida Inacabada"
2010/07/31 23:43
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Por estas alturas de estio costumo partilhar com os leitores crónicas mais intimistas, nascidas duma análise menos epidérmica da realidade e fruto do reencontro com nós próprios que os períodos de férias tendem a proporcionar. É nesta “categoria” mais pessoal que este texto se enquadra.
O ano que agora termina (seguindo um calendário político e académico) não foi para mim um ano fácil, como aliás também não o foi para a generalidade dos portugueses. Revejo-o como se tivesse sido um pedaço mais escarpado da escalada da vida e sinto-me gratificado por saber que estou agora num patamar mais sólido do meu crescimento pessoal.
Mas ao fazer esta avaliação, absolutamente subjectiva, e ao perceber como as dificuldades nos ajudam a crescer e como os passos lentos são bem mais difíceis do que a corrida desenfreada, destapo a questão chave do sentido da vida, da necessidade de avançar, da caminhada que todos fazemos numa espiral imparável na procura da realização, da imortalidade dos pequenos gestos e dos grandes afectos e da assinatura mais ou menos ténue que ambicionamos deixar como prova de que vivemos.
Tempo de Verão é também tempo de leituras. O título desta crónica reproduz a versão portuguesa do título duma monumental biografia de John.F.Kennedy escrita por Robert Dallek em 2003 e publicada em Portugal pela Bertrand em 2004.
Oferecida por um amigo há já alguns anos, a biografia de Kennedy foi permanecendo imaculada na minha estante dos livros a ler, “defendendo-se” com o peso das suas 500 páginas em letra miudinha.
Mas este final de Julho a dita biografia não escapou à leitura e valeu a pena, não apenas pelo extraordinário acervo de informação histórica que contém, mas sobretudo por mostrar como o carácter, o risco, a capacidade de vencer a adversidade e as limitações próprias, fizeram de John F. Kennedy um mito e uma referência, deixando cobertos pelo pó do anonimato milhares de outros jovens americanos, tão promissores, preparados e afortunados como ele. Um mito muito reforçado pela forma trágica da sua morte e pela consciência plena da vida inacabada que viveu.
O que constato porém, ao ir aprendendo com o que observo e experimento, é que todas as vidas com projecto estão condenadas a ser vidas inacabadas. Há uns anos, prova de imaturidade, costumava dizer que a vida já me tinha dado muito mais do que eu esperava dela e que portanto as contas estavam saldadas entre nós.
Pura ilusão. A vida não é uma simples conta de somar nem tão pouco uma cómoda operação de diminuir. Quanto mais a vida nos dá mais de nós exige. É uma espiral permanente para ser saboreada e sofrida até à última gota, e embora por vezes seja pareça mais tentador parar do que enfrentar os esticões e as feridas da luta, são esses esticões e essas feridas que nos dão força e ânimo para fazer da existência uma caminho com sentido.
O exemplo de Kennedy é apenas a maior hipérbole desta intuição simples que escolhi para partilhar convosco numa crónica em registo estival, mas ainda assim não recomendável para consciências excessivamente adormecidas ou acomodadas. Mas essas consciências certamente não a leram até ao fim. Para eles esta é apenas uma crónica inacabada.
O ano que agora termina (seguindo um calendário político e académico) não foi para mim um ano fácil, como aliás também não o foi para a generalidade dos portugueses. Revejo-o como se tivesse sido um pedaço mais escarpado da escalada da vida e sinto-me gratificado por saber que estou agora num patamar mais sólido do meu crescimento pessoal.
Mas ao fazer esta avaliação, absolutamente subjectiva, e ao perceber como as dificuldades nos ajudam a crescer e como os passos lentos são bem mais difíceis do que a corrida desenfreada, destapo a questão chave do sentido da vida, da necessidade de avançar, da caminhada que todos fazemos numa espiral imparável na procura da realização, da imortalidade dos pequenos gestos e dos grandes afectos e da assinatura mais ou menos ténue que ambicionamos deixar como prova de que vivemos.
Tempo de Verão é também tempo de leituras. O título desta crónica reproduz a versão portuguesa do título duma monumental biografia de John.F.Kennedy escrita por Robert Dallek em 2003 e publicada em Portugal pela Bertrand em 2004.
Oferecida por um amigo há já alguns anos, a biografia de Kennedy foi permanecendo imaculada na minha estante dos livros a ler, “defendendo-se” com o peso das suas 500 páginas em letra miudinha.
Mas este final de Julho a dita biografia não escapou à leitura e valeu a pena, não apenas pelo extraordinário acervo de informação histórica que contém, mas sobretudo por mostrar como o carácter, o risco, a capacidade de vencer a adversidade e as limitações próprias, fizeram de John F. Kennedy um mito e uma referência, deixando cobertos pelo pó do anonimato milhares de outros jovens americanos, tão promissores, preparados e afortunados como ele. Um mito muito reforçado pela forma trágica da sua morte e pela consciência plena da vida inacabada que viveu.
O que constato porém, ao ir aprendendo com o que observo e experimento, é que todas as vidas com projecto estão condenadas a ser vidas inacabadas. Há uns anos, prova de imaturidade, costumava dizer que a vida já me tinha dado muito mais do que eu esperava dela e que portanto as contas estavam saldadas entre nós.
Pura ilusão. A vida não é uma simples conta de somar nem tão pouco uma cómoda operação de diminuir. Quanto mais a vida nos dá mais de nós exige. É uma espiral permanente para ser saboreada e sofrida até à última gota, e embora por vezes seja pareça mais tentador parar do que enfrentar os esticões e as feridas da luta, são esses esticões e essas feridas que nos dão força e ânimo para fazer da existência uma caminho com sentido.
O exemplo de Kennedy é apenas a maior hipérbole desta intuição simples que escolhi para partilhar convosco numa crónica em registo estival, mas ainda assim não recomendável para consciências excessivamente adormecidas ou acomodadas. Mas essas consciências certamente não a leram até ao fim. Para eles esta é apenas uma crónica inacabada.
Comentários
Razão não Atendível
2010/07/21 23:40
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Os factos que levaram o PSD a abrir uma discussão absolutamente extemporânea sobre a revisão constitucional são compreensíveis mas não atendíveis, quando os avaliamos no quadro dos problemas económicos e sociais que o País enfrenta.
Num tempo de recomeço da época futebolística é atractivo e tentador usar a metáfora desportiva para explicar melhor o que na minha perspectiva está a suceder. É esse instrumento retórico que vou usar para o tentar fazer.
O PSD teme enfrentar os desafios da governação neste cenário de grande dificuldade e por isso faz tudo o que está ao seu alcance para não chutar à baliza com medo que isso acabe num golo a seu favor. Em alternativa tenta que se sucedam os “cantos” junto á baliza do adversário na pura expectativa de que um auto - golo lhe entregue em mãos a vitória sem qualquer compromisso.
Esta táctica de jogo é politicamente legítima mas muito prejudicial para o interesse nacional. O País precisa mais do que nunca de estabilidade na governação.
Estabilidade não significa imobilidade. Confrontar o governo em funções com alternativas e aspirar a governar em vez dele é próprio da natureza dum partido de poder como é o PSD. Já rondar a baliza sem intenção de marcar e tentar chegar á vitória por desnorte da defesa alheia é a pior forma de gerar condições de mudança sustentável, pois mesmo que ela suceda não é ancorada num modelo programático estruturado e maduro de governação do País.
De qualquer forma não é irrelevante a forma como o PSD tem vindo a ganhar “cantos” e mais “cantos” pela esquerda e pela direita. Já aqui escrevi em texto anterior que a clarificação das diferenças entre um grande Partido como o PS que procura preservar os princípios fundamentais do Estado Social num quadro de grande dificuldade económica e outro grande Partido como o PSD que afirma a prioridade da visão neoliberal da predominância do interesse dos mercados sobre a equidade social e económica, é algo de positivo e saudável para a democracia portuguesa.
Essa clarificação é positiva e devolve a responsabilidade da escolha a cada um de nós. Nenhum eleitor pode agora alegar que não vota, vota em branco ou vota em Partidos de Protesto porque os dois Partidos de poder são iguais e não se diferenciam.
É no entanto mais estimulante que a diferenciação se faça em torno de programas alternativos de acção e não de tentativas encenadas de captura ideológica duma Constituição que deve ser por natureza uma plataforma de consenso estruturante da democracia portuguesa.
No entanto, afirmar um programa alternativo de acção, constitui uma forma de chutar á baliza! E se a bola entrar? Golo dá vitória e a vitória dá governo em terreno muito empapado pela crise global. É com medo desta eventualidade que o PSD prefere jogar noutro terreno. Mas esta é verdadeiramente uma razão não atendível.
Num tempo de recomeço da época futebolística é atractivo e tentador usar a metáfora desportiva para explicar melhor o que na minha perspectiva está a suceder. É esse instrumento retórico que vou usar para o tentar fazer.
O PSD teme enfrentar os desafios da governação neste cenário de grande dificuldade e por isso faz tudo o que está ao seu alcance para não chutar à baliza com medo que isso acabe num golo a seu favor. Em alternativa tenta que se sucedam os “cantos” junto á baliza do adversário na pura expectativa de que um auto - golo lhe entregue em mãos a vitória sem qualquer compromisso.
Esta táctica de jogo é politicamente legítima mas muito prejudicial para o interesse nacional. O País precisa mais do que nunca de estabilidade na governação.
Estabilidade não significa imobilidade. Confrontar o governo em funções com alternativas e aspirar a governar em vez dele é próprio da natureza dum partido de poder como é o PSD. Já rondar a baliza sem intenção de marcar e tentar chegar á vitória por desnorte da defesa alheia é a pior forma de gerar condições de mudança sustentável, pois mesmo que ela suceda não é ancorada num modelo programático estruturado e maduro de governação do País.
De qualquer forma não é irrelevante a forma como o PSD tem vindo a ganhar “cantos” e mais “cantos” pela esquerda e pela direita. Já aqui escrevi em texto anterior que a clarificação das diferenças entre um grande Partido como o PS que procura preservar os princípios fundamentais do Estado Social num quadro de grande dificuldade económica e outro grande Partido como o PSD que afirma a prioridade da visão neoliberal da predominância do interesse dos mercados sobre a equidade social e económica, é algo de positivo e saudável para a democracia portuguesa.
Essa clarificação é positiva e devolve a responsabilidade da escolha a cada um de nós. Nenhum eleitor pode agora alegar que não vota, vota em branco ou vota em Partidos de Protesto porque os dois Partidos de poder são iguais e não se diferenciam.
É no entanto mais estimulante que a diferenciação se faça em torno de programas alternativos de acção e não de tentativas encenadas de captura ideológica duma Constituição que deve ser por natureza uma plataforma de consenso estruturante da democracia portuguesa.
No entanto, afirmar um programa alternativo de acção, constitui uma forma de chutar á baliza! E se a bola entrar? Golo dá vitória e a vitória dá governo em terreno muito empapado pela crise global. É com medo desta eventualidade que o PSD prefere jogar noutro terreno. Mas esta é verdadeiramente uma razão não atendível.
Dupla Amarra (reflexões sobre a governação económica da UE)
2010/07/16 11:22
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A União Europeia, para fazer face aos ataques económicos e financeiros de que tem sido alvo e aproveitando as novas regras do Tratado de Lisboa está a desenvolver um processo de coordenação política que constitui um embrião dum governo económico europeu, visto por muitos como indispensável para consolidar a União em geral e a Zona Euro em particular.
De acordo com uma recente comunicação da Comissão Europeia, e na sequência das decisões do Conselho Europeu da Primavera, os Estados Membros vão passar a ter que apresentar e validar entre eles no primeiro semestre de cada ano as linhas orientadoras da aplicação do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) no exercício orçamental seguinte e as medidas de concretização do seu Plano Nacional de Reformas (PNR) tendo em conta as metas estabelecidas para a promoção da ciência e da inovação, da educação, da política energética, do emprego e do combate á pobreza.
Esta amarração política entre os 27 Estados Membros da UE e em particular entre aqueles que integram a Zona Euro é uma excelente notícia e uma forma inteligente e solidária de ganhar dimensão e prevenir ataques futuros aos Países mais expostos.
Uma amarração política como aquela que foi definida tem no entanto que ser dupla para ser consistente. O compromisso comum pela chamada consolidação fiscal não deve deixar de ser complementado por um compromisso igualmente forte em torno da coesão e do crescimento económico.
No actual patamar do debate europeu, esta dupla amarra ainda não está assegurada, devido em larga medida á forte maioria de governos de direita e centro direita que prevalecem hoje no espaço da União e à atitude cautelosa e conservadora da Alemanha, em tudo o que possa pôr em causa o controlo férreo da política monetária em geral e da inflação em particular.
A fragilidade da amarra em torno duma política comum de crescimento é do meu ponto de vista um erro, tal como errado seria menosprezar o valor facial da amarra pela estabilidade macroeconómica agora conseguida.
A Europa sempre se desenvolveu por pequenos passos. Precisávamos agora duma dupla passada e só antevemos uma. É uma pena, mas só depende de nós, nas nossas escolhas e opções como cidadãos europeus, forçar o segundo passo.
Talvez seja normal que uma maioria conjuntural de direita consolide a amarra orçamental. Mais cedo ou mais tarde uma maioria conjuntural progressista terminará o trabalho consolidando a amarra do desenvolvimento e do crescimento e a Europa ficará mais forte e preparada para a competição global sem tréguas que caracteriza o actual quadro de globalização.
Mais forte para se afirmar no quadro global e mais forte para mudar algumas das regras de competição desregulada e sem parâmetros éticos e sociais sustentáveis que definem o actual contexto económico mundial.
Conseguimos gerar o embrião dum governo económico europeu. Lutemos agora para que ele venha também a ser o veículo de políticas com sensibilidade social e ambição inclusiva. Matar o embrião seria um retrocesso. Lutar pelo se desenvolvimento equilibrado é um combate político que vale a pena travar.
De acordo com uma recente comunicação da Comissão Europeia, e na sequência das decisões do Conselho Europeu da Primavera, os Estados Membros vão passar a ter que apresentar e validar entre eles no primeiro semestre de cada ano as linhas orientadoras da aplicação do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) no exercício orçamental seguinte e as medidas de concretização do seu Plano Nacional de Reformas (PNR) tendo em conta as metas estabelecidas para a promoção da ciência e da inovação, da educação, da política energética, do emprego e do combate á pobreza.
Esta amarração política entre os 27 Estados Membros da UE e em particular entre aqueles que integram a Zona Euro é uma excelente notícia e uma forma inteligente e solidária de ganhar dimensão e prevenir ataques futuros aos Países mais expostos.
Uma amarração política como aquela que foi definida tem no entanto que ser dupla para ser consistente. O compromisso comum pela chamada consolidação fiscal não deve deixar de ser complementado por um compromisso igualmente forte em torno da coesão e do crescimento económico.
No actual patamar do debate europeu, esta dupla amarra ainda não está assegurada, devido em larga medida á forte maioria de governos de direita e centro direita que prevalecem hoje no espaço da União e à atitude cautelosa e conservadora da Alemanha, em tudo o que possa pôr em causa o controlo férreo da política monetária em geral e da inflação em particular.
A fragilidade da amarra em torno duma política comum de crescimento é do meu ponto de vista um erro, tal como errado seria menosprezar o valor facial da amarra pela estabilidade macroeconómica agora conseguida.
A Europa sempre se desenvolveu por pequenos passos. Precisávamos agora duma dupla passada e só antevemos uma. É uma pena, mas só depende de nós, nas nossas escolhas e opções como cidadãos europeus, forçar o segundo passo.
Talvez seja normal que uma maioria conjuntural de direita consolide a amarra orçamental. Mais cedo ou mais tarde uma maioria conjuntural progressista terminará o trabalho consolidando a amarra do desenvolvimento e do crescimento e a Europa ficará mais forte e preparada para a competição global sem tréguas que caracteriza o actual quadro de globalização.
Mais forte para se afirmar no quadro global e mais forte para mudar algumas das regras de competição desregulada e sem parâmetros éticos e sociais sustentáveis que definem o actual contexto económico mundial.
Conseguimos gerar o embrião dum governo económico europeu. Lutemos agora para que ele venha também a ser o veículo de políticas com sensibilidade social e ambição inclusiva. Matar o embrião seria um retrocesso. Lutar pelo se desenvolvimento equilibrado é um combate político que vale a pena travar.
As Diferenças
2010/07/10 11:26
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José Sócrates e Pedro Passos Coelho são dois líderes determinados e com agendas fortes, um já testado e com boas provas dadas em cinco anos de governação corajosa numa época de enormes desafios e elevado grau de dificuldade e o outro ainda a dar os primeiros passos para se preparar para esse eventual exercício.
José Sócrates e Pedro Passos Coelho têm na determinação um traço de personalidade que os une. Mas esse será talvez o único traço de união entre os dois líderes políticos.
Não se deve confundir atitude com visão e perspectiva política. Nestes domínios os líderes dos dois maiores partidos nacionais são muito diferentes, como as últimas semanas têm demonstrado.
De facto nunca o PS foi tão posto á prova na determinação da matriz social dos seus princípios e das suas práticas, tendo em conta os ventos fortes que sopram da crise global e da pressão inaudita dos mercados financeiros, nem nunca o PSD assumiu tão claramente uma agenda liberal, socialmente descomprometida e totalmente alinhada com a pura racionalidade dos interesses desses mercados.
Não pretendo entrar neste texto na análise da matéria ideológica que suporta a perspectiva que enunciei. Pretendo apenas sublinhar e enfatizar a diferença e realçar este facto novo na política portuguesa que é termos um PS e um PSD que até cooperam em questões chave do interesse nacional, mas estão claramente e marcadamente separados na forma como olham a realidade, como avaliam a situação económica europeia e mundial e como se propõem actuar em função dessa análise.
Este é um facto novo, positivo, clarificador e saudável para a nossa democracia. Saber que de um lado um grande partido como o PS olha a realidade na perspectiva da salvaguarda do Estado regulador e age num quadro económico global hostil procurando encontrar vias de sustentabilidade para esse Estado com sensibilidade social e dinâmica empresarial e do outro lado, um outro grande partido como o PSD oferece aos eleitores a perspectiva dos mercados reguladores, da optimização conjuntural dos lucros, da sujeição da política às regras que melhor servem a economia de casino em que globalmente vivemos.
Como afirmou recentemente José Luís Zapatero, por estes dias está a ocorrer uma batalha política tremenda e que no final terá um de dois resultados. Ou teremos uma economia regulada pelos estados em nome do bem comum e do interesse geral ou teremos uma política regulada pelos mercados em nome da fluidez operacional e do interesse do sector financeiro.
O resultado deste combate político está longe de estar fechado. È um combate que tem que ser travado em todos os patamares. A boa notícia é que em Portugal ele pode ser travado com transparência, clareza e assertividade. Temos um grande partido de cada lado. Só precisamos escolher o lado de que queremos estar.
José Sócrates e Pedro Passos Coelho têm na determinação um traço de personalidade que os une. Mas esse será talvez o único traço de união entre os dois líderes políticos.
Não se deve confundir atitude com visão e perspectiva política. Nestes domínios os líderes dos dois maiores partidos nacionais são muito diferentes, como as últimas semanas têm demonstrado.
De facto nunca o PS foi tão posto á prova na determinação da matriz social dos seus princípios e das suas práticas, tendo em conta os ventos fortes que sopram da crise global e da pressão inaudita dos mercados financeiros, nem nunca o PSD assumiu tão claramente uma agenda liberal, socialmente descomprometida e totalmente alinhada com a pura racionalidade dos interesses desses mercados.
Não pretendo entrar neste texto na análise da matéria ideológica que suporta a perspectiva que enunciei. Pretendo apenas sublinhar e enfatizar a diferença e realçar este facto novo na política portuguesa que é termos um PS e um PSD que até cooperam em questões chave do interesse nacional, mas estão claramente e marcadamente separados na forma como olham a realidade, como avaliam a situação económica europeia e mundial e como se propõem actuar em função dessa análise.
Este é um facto novo, positivo, clarificador e saudável para a nossa democracia. Saber que de um lado um grande partido como o PS olha a realidade na perspectiva da salvaguarda do Estado regulador e age num quadro económico global hostil procurando encontrar vias de sustentabilidade para esse Estado com sensibilidade social e dinâmica empresarial e do outro lado, um outro grande partido como o PSD oferece aos eleitores a perspectiva dos mercados reguladores, da optimização conjuntural dos lucros, da sujeição da política às regras que melhor servem a economia de casino em que globalmente vivemos.
Como afirmou recentemente José Luís Zapatero, por estes dias está a ocorrer uma batalha política tremenda e que no final terá um de dois resultados. Ou teremos uma economia regulada pelos estados em nome do bem comum e do interesse geral ou teremos uma política regulada pelos mercados em nome da fluidez operacional e do interesse do sector financeiro.
O resultado deste combate político está longe de estar fechado. È um combate que tem que ser travado em todos os patamares. A boa notícia é que em Portugal ele pode ser travado com transparência, clareza e assertividade. Temos um grande partido de cada lado. Só precisamos escolher o lado de que queremos estar.
Chanceler Queiroz
2010/07/01 23:15
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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Quem joga a medo nem sempre perde, mas quando isso acontece a derrota é sempre mais amarga, sensaborona e despojada de glória. Foi assim que Portugal jogou o Mundial de Futebol na África do Sul e foi assim que dele foi afastado sem rasgo e com um travo frustrante de desalento burocrático e conformismo administrativo.
Mas a eliminação de Portugal são águas passadas. Somos o que somos. Uma das 16 melhores selecções do mundo e que poderia ser uma das quatro melhores se não fosse o velho fado das desconformidades de atitude que nos perdem na bola e em tantas outras coisas.
O que me preocupa agora não é que Portugal tenha jogado á Queiroz. Jogou, está jogado. O que me preocupa, e me leva a escrever esta crónica, é que a Alemanha (não a selecção de futebol daquele País, que até ao momento em que escrevo este texto jogou sempre no risco e até lhe viu sorrir a sorte no célebre golo anulado a Inglaterra com a bola meio metro dentro da linha de meta) esteja a jogar o jogo político e económico da globalização e da liderança da União Europeia com uma táctica á Queiroz, cheia de medos burocráticos e administrativos e coleccionando derrotas sobre derrotas na cena internacional, arrastando com ela o projecto europeu e o destino de mais de 500 milhões de cidadãos de 27 países, empenhados no aprofundamento duma comunidade de paz e desenvolvimento económico e social.
A Chanceler Alemã tem a mesma escola do Professor. Perante a crise grega jogou à defesa, perdeu as eleições internas e falhou o controlo do sistema financeiro europeu sujeitando-o a uma pressão inusitada.
Aparentemente empatou zero a zero na disputa pelo poder na Renânia – Vestefália, mas partiu mais frágil para o novo jogo, e embora tenha goleado uma vez por outra economias mais frágeis, expôs-se de tal forma que não passou a eliminatória da reunião do G20 e acabou a perder em casa com a rocambolesca história da eleição presidencial.
Tal como o insucesso de Queiroz me entristece, também as más escolhas alemãs não me alegram. Recordo-me bem do tempo das lideranças fortes do eixo franco-alemão em que o sucesso e a dinâmica germânica eram um elixir para toda a Europa.
O Euro é aliás um exemplo feliz duma jogada de ataque aberto que resultou em múltiplos golos e está na origem dos contra-ataques económicos cujas sequelas ainda vivemos, e que seriam normais no jogo jogado se não fosse o recuo excessivo da defesa financeira europeia a permitir sucessivamente ressaltos e tabelas favoráveis ao adversário.
Ver Obama liderar a recuperação da economia global em parceria com a China e o Brasil, por não dispor duma Europa disposta a jogar ao ataque e a ser parte da solução é um murro no estômago difícil de suportar.
Não há “Eduardo” que nos valha se ficarmos na retranca e à espera dos pontapés de grande penalidade. A “chanceler” devia desempatar já. Se o não fizer perde ela e perdemos todos, sem honra nem glória, burocrática e administrativamente, como perdeu Queiroz.
Mas a eliminação de Portugal são águas passadas. Somos o que somos. Uma das 16 melhores selecções do mundo e que poderia ser uma das quatro melhores se não fosse o velho fado das desconformidades de atitude que nos perdem na bola e em tantas outras coisas.
O que me preocupa agora não é que Portugal tenha jogado á Queiroz. Jogou, está jogado. O que me preocupa, e me leva a escrever esta crónica, é que a Alemanha (não a selecção de futebol daquele País, que até ao momento em que escrevo este texto jogou sempre no risco e até lhe viu sorrir a sorte no célebre golo anulado a Inglaterra com a bola meio metro dentro da linha de meta) esteja a jogar o jogo político e económico da globalização e da liderança da União Europeia com uma táctica á Queiroz, cheia de medos burocráticos e administrativos e coleccionando derrotas sobre derrotas na cena internacional, arrastando com ela o projecto europeu e o destino de mais de 500 milhões de cidadãos de 27 países, empenhados no aprofundamento duma comunidade de paz e desenvolvimento económico e social.
A Chanceler Alemã tem a mesma escola do Professor. Perante a crise grega jogou à defesa, perdeu as eleições internas e falhou o controlo do sistema financeiro europeu sujeitando-o a uma pressão inusitada.
Aparentemente empatou zero a zero na disputa pelo poder na Renânia – Vestefália, mas partiu mais frágil para o novo jogo, e embora tenha goleado uma vez por outra economias mais frágeis, expôs-se de tal forma que não passou a eliminatória da reunião do G20 e acabou a perder em casa com a rocambolesca história da eleição presidencial.
Tal como o insucesso de Queiroz me entristece, também as más escolhas alemãs não me alegram. Recordo-me bem do tempo das lideranças fortes do eixo franco-alemão em que o sucesso e a dinâmica germânica eram um elixir para toda a Europa.
O Euro é aliás um exemplo feliz duma jogada de ataque aberto que resultou em múltiplos golos e está na origem dos contra-ataques económicos cujas sequelas ainda vivemos, e que seriam normais no jogo jogado se não fosse o recuo excessivo da defesa financeira europeia a permitir sucessivamente ressaltos e tabelas favoráveis ao adversário.
Ver Obama liderar a recuperação da economia global em parceria com a China e o Brasil, por não dispor duma Europa disposta a jogar ao ataque e a ser parte da solução é um murro no estômago difícil de suportar.
Não há “Eduardo” que nos valha se ficarmos na retranca e à espera dos pontapés de grande penalidade. A “chanceler” devia desempatar já. Se o não fizer perde ela e perdemos todos, sem honra nem glória, burocrática e administrativamente, como perdeu Queiroz.
Noites Brancas (De Saramago a St.Petersburgo)
2010/06/27 13:08
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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Foi uma viagem marcante a que me levou recentemente até St.Petersbourg. Ao aterrar na monumental Cidade Russa fundada em 27 de Maio de 1703 por Pedro o Grande, o meu telemóvel estava inundado de mensagens que anunciavam a morte de José Saramago.
A viagem do aeroporto até ao hotel não pode deixar de ser uma retrospectiva cruzada entre a história duma maravilhosa cidade que já foi St.Peterbourg, Petrogrado e Leninegrado e a vida extraordinária dum personagem, que não me sendo pessoalmente simpática, marcou uma época da literatura portuguesa e exacerbou com maestria literária as contradições sociais, políticas, religiosas e até identitárias da condição de ser português.
St.Peterboug vivia por esses dias os dias mágicos em que o Sol permanece vivo noite dentro e nunca escurece verdadeiramente. Um tempo mágico designado por “noites brancas” em os milhões de habitantes recriam a história e recordam a magia da sua fundação espelhada nos reflexos do Rio Neva e nos muitos raios de luz sobre ele lançados pelos palácios, pontes e catedrais e pelos artefactos nele particularmente colocados para esta ocasião.
Numa das noites, misturado entre as gentes em magote junto à ponte da Santíssima Trindade, tendo o fabuloso Hermitage como cenário, vi como das profundezas da história emergia uma juventude rebelde, que não me surpreendeu pelo afã com que sublinhava o momento afogada em Vodka, Champanhe, Cerveja, mas me fez pensar pela aparente incapacidade de dizer qualquer palavra que não na língua materna e por um certo alheamento do belo e do clássico, trocado pelo sentido do imediato e do sensorial forte.
O convívio, pelo menos aparente, entre grandeza e decadência, desconstruindo o mito duma Rússia marcada sobretudo pela qualidade e disciplina da sua formação, trouxe-me de novo à memória Saramago, ele que na longínqua ilha do fogo extinto escreveu sobre quase tudo menos sobre o esmorecer da chama revolucionária da extinta URSS, hoje pairando pelas noites brancas como um fantasma que cruza o poder e a insegurança, o esplendor e o vazio, e aviva a incerteza forte sobre o papel da Rússia na nova ordem mundial.
A minha viagem a St.Peterbourg terminou como começou! Com uma aterragem e um lento activar do telemóvel, logo seguido dum assalto inusitado de mensagens.
Havia contudo desta vez uma diferença. Salvo algo de inesperado eu supunha qual a razão de tantos contactos. Durante o voo decorrera o Portugal – Coreia do Norte. Foram horas de ignorância sofrida. Receber agora tantas mensagens só podia significar que não fora um jogo normal … o que teria acontecido?
Paulatinamente fui percebendo a grande noticia … os golos iam chegando, um, dois, três, quatro, cinco, seis …sete! Portugal Sete – Coreia do Norte Zero.
Abracei quem estava ao meu lado, significando com esse abraço uma alegria partilhada com todos os portugueses. Aquele Portugal era o mundo inteiro. Como o Portugal de Saramago, por muito crítico que dele fosse o Nobel e por muito brancas que fossem as suas noites em Lanzarote.
A viagem do aeroporto até ao hotel não pode deixar de ser uma retrospectiva cruzada entre a história duma maravilhosa cidade que já foi St.Peterbourg, Petrogrado e Leninegrado e a vida extraordinária dum personagem, que não me sendo pessoalmente simpática, marcou uma época da literatura portuguesa e exacerbou com maestria literária as contradições sociais, políticas, religiosas e até identitárias da condição de ser português.
St.Peterboug vivia por esses dias os dias mágicos em que o Sol permanece vivo noite dentro e nunca escurece verdadeiramente. Um tempo mágico designado por “noites brancas” em os milhões de habitantes recriam a história e recordam a magia da sua fundação espelhada nos reflexos do Rio Neva e nos muitos raios de luz sobre ele lançados pelos palácios, pontes e catedrais e pelos artefactos nele particularmente colocados para esta ocasião.
Numa das noites, misturado entre as gentes em magote junto à ponte da Santíssima Trindade, tendo o fabuloso Hermitage como cenário, vi como das profundezas da história emergia uma juventude rebelde, que não me surpreendeu pelo afã com que sublinhava o momento afogada em Vodka, Champanhe, Cerveja, mas me fez pensar pela aparente incapacidade de dizer qualquer palavra que não na língua materna e por um certo alheamento do belo e do clássico, trocado pelo sentido do imediato e do sensorial forte.
O convívio, pelo menos aparente, entre grandeza e decadência, desconstruindo o mito duma Rússia marcada sobretudo pela qualidade e disciplina da sua formação, trouxe-me de novo à memória Saramago, ele que na longínqua ilha do fogo extinto escreveu sobre quase tudo menos sobre o esmorecer da chama revolucionária da extinta URSS, hoje pairando pelas noites brancas como um fantasma que cruza o poder e a insegurança, o esplendor e o vazio, e aviva a incerteza forte sobre o papel da Rússia na nova ordem mundial.
A minha viagem a St.Peterbourg terminou como começou! Com uma aterragem e um lento activar do telemóvel, logo seguido dum assalto inusitado de mensagens.
Havia contudo desta vez uma diferença. Salvo algo de inesperado eu supunha qual a razão de tantos contactos. Durante o voo decorrera o Portugal – Coreia do Norte. Foram horas de ignorância sofrida. Receber agora tantas mensagens só podia significar que não fora um jogo normal … o que teria acontecido?
Paulatinamente fui percebendo a grande noticia … os golos iam chegando, um, dois, três, quatro, cinco, seis …sete! Portugal Sete – Coreia do Norte Zero.
Abracei quem estava ao meu lado, significando com esse abraço uma alegria partilhada com todos os portugueses. Aquele Portugal era o mundo inteiro. Como o Portugal de Saramago, por muito crítico que dele fosse o Nobel e por muito brancas que fossem as suas noites em Lanzarote.