Engarrafar o Sol

“O Alentejo não tem sombra” é uma ideia que marca com traço forte a caracterização da nossa terra que perpassa pela poesia, pelo cante e pelas tradições populares. A progressiva transformação de parte do coberto vegetal da região, com o regadio, com a recuperação do montado, com o abandono das campanhas cerealíferas forçadas e com as novas culturas e usos do solo, tem vindo a tornar mais aprazível e multifacetado o nosso território, sem que os riscos de desertificação progressiva estejam afastados e sem que continuemos a ter, e ainda bem, um sol intenso que nos traz luz, energia e calor.

Uma das histórias pitorescas em que o nosso Alentejo é fértil, conta que nalgumas das suas terras (Santiago do Escoural, terra das minhas origens, é uma delas) os seus habitantes teriam um dia tentado engarrafar o sol. Histórias como esta ou como a da plantação de sardinhas e da sementeira de escudos ou de esparguete, fazem parte das pequenas picardias e rivalidades entre comunidades. A verdade é que nalguns locais turísticos do globo, sobretudo aqueles que têm mais simbologia espiritual, há quem venda com aparente sucesso sol em prosaicas garrafas.

Pasmem os brincalhões! Graças à evolução tecnológica o Alentejo vai mesmo poder engarrafar o sol, se bem que muito do que já hoje se engarrafa, um pouco por todo o mundo, tenha muito sol incluído no processo que lhe deu origem.  

Sines foi anunciado como a base de um novo cluster de produção de hidrogénio verde a partir da energia solar. Se tiver sucesso, e tem todas as condições para o ter, constituiráo ponto de arranque para que o sol do Alentejo, para além de todos os aproveitamentos já hoje possíveis na produção descentralizada de eletricidade e no aquecimento, se possa também transformar num combustível limpo, fácil de distribuir, armazenar e utilizar na sua forma líquida ou gasosa, nas mais diversas atividades.

Os painéis solares vão passar a fazer cada vez mais parte da nossa paisagem. Importa que essa transformação seja feita com respeito pelos ecossistemas naturais, valorizando-os e evitando impactos negativos. A tecnologia e a lucidez de escolha terão aqui um papel fundamental.

Mas engarrafar o sol tem outro significado para Portugal e para o Alentejo. A descarbonização acelerada com que nos comprometemos exige a incorporação de muita eletricidade limpa e barata. Se a conseguirmos produzir no nosso território tornar-nos-emos mais atrativos como destino económicoresidencial e turístico sustentável.  Engarrafar o sol é criar condições para um futuro melhor.
Comentários

Pelo Alentejo, todos!

Os oito deputados eleitos nas listas do PS para a Assembleia da República em representação do território Alentejano, designadamente Luís Testa e Ricardo Pinheiro por Portalegre, Capoulas Santos e Norberto Patinho por Évora, Pedro do Carmo e Telma Guerreiro pelo Baixo Alentejo e Clarisse Campos e Sofia Araújo pelo Alentejo Litoral decidiram estabelecer um mecanismo de cooperação regular no seio do Grupo Parlamentar do PS.
Com esta iniciativa que aplaudo com entusiasmo, os parlamentares socialistas alentejanos aumentam a capacidade de defender no âmbito do Grupo Parlamentar e no âmbito da Assembleia da República os interesses da Região e dos seus territórios, dando assim uma resposta construtiva e inteligente à reconhecida sub-representação do Alentejo no atual sistema eleitoral e à fragmentação sub-regional que tem agravado esta distorção de raiz demográfica ao longo dos anos.
Trabalhar em conjunto e ter uma estratégia integrada em nada diminui a diversidade e as características e prioridades especificas de cada círculo eleitoral. Pelo contrário, reforça o peso das prioridades conjuntas e permite dar esse mesmo peso a prioridades próprias de cada um dos Alentejos (Norte, Central, Baixo e Litoral) que constituem a Região.
A diversidade é uma das grandes mais valias do Alentejo. Quando no final do século passado tive a honra de presidir ao Conselho de Gestão do Programa Integrado de Desenvolvimento do Alentejo (Proalentejo), uma experiência não continuada de regionalização desconcentrada que ainda hoje responde por muitas das marcas positivas de afirmação económica e social da Região, assumi sempre que a força do território emergia não da submissão de umas partes às prioridades de outras, mas antes do aproveitamento das vantagens comparativas e dos recursos de cada uma delas, potenciados por uma articulação estratégica que aumenta a capacidade política, a atratividade económica e a massa crítica social.
Foi assim que projetos estruturantes nasceram de forma disseminada, mas explorando as sinergias entre eles e incentivando a cooperação estratégica entre centros de conhecimento, estruturas de serviços e associações organizações da sociedade civil. Em 1999, na sequência do resultado do referendo ao processo de regionalização administrativa, a experiência foi interrompida, mas deixou boas sementes. Esta iniciativa dos deputados socialistas do Alentejo  é um bom sinal disso mesmo.

Comentários

O Canto do Cisne

Num momento de grande turbulência no mundo e alguma indefinição na União Europeia, o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu preparam-se para lançar em 9 de maio do corrente ano e até 2022, uma Conferência sobre o Futuro da Europa, dando sequência a uma proposta inicial do Presidente Francês Emmanuel Macron e aos “diálogos com os cidadãos” que ocorreram nos últimos meses, um pouco por toda a União.

A nova iniciativa ainda está a ser desenhada com um envolvimento forte do Parlamento Europeu, mas para estar à altura dos tempos e das exigências das pessoas, tem que ser muito mais ambiciosa e efetiva do que as iniciativas que a precederam, designadamente que o debate suscitado pela Comissão Juncker, através do lançamento por ocasião dos 60 anos do Tratado de Roma do livro branco sobre o futuro da Europa.  

Propõe-se agora uma metodologia diferente. Partir dos cidadãos para a tomada de decisão. O modelo prevê a criação de ágoras de cidadania, abertas, temáticas e múltiplas, prevendo pelo menos dois espaços de debate dedicados a jovens até aos 25 anos e um plenário institucional que envolve deputados nacionais e europeus, representantes do Conselho, da Comissão, do Comité das Regiões, do Comité Económico e Social e dos parceiros sociais.

Debater de forma aberta e participada o papel da Europa no mundo e o seu futuro, é uma iniciativa oportuna e necessária, se não funcionar como uma cortina de fumo para encobrir a falta de vontade ou de capacidade para agir de forma concreta no plano do combate às desigualdades, da resposta às alterações climáticas ou da transição digital ao serviço dos cidadãos e da sua qualidade de vida.

A Conferência sobre o Futuro da Europa será tanto mais eficaz na sua missão de recuperar o orgulho e sentimento de pertença dos europeus a um futuro comum e partilhado, quanto mais depressa for aprovado um plano de financiamento plurianual2021/2027 ambicioso, for garantida a promoção da coesão e da convergência dos territórios for aplicado com denodo o pacto ecológico europeu. 

O compromisso dos cidadãos através da participação ativa é apenas um dos termos da equação. O outro tem que ser a capacidade institucional e política de avançar no projeto europeu.

Vamos debater a Europa para fazer acontecer e para monitorizar e influenciar as decisões. Só assim a Conferência sobre o Futuro da Europa não será o canto do cisne, que os seus inimigos anseiam por ouvir.
Comentários

Senadores

A constituição portuguesa não prevê a existência de um Senado, embora a ideia de uma segunda câmara para reequilibrar as distorções de representação territorial mereça reflexão.  Sobre esse tema tenho escrito noutras oportunidades, mas não é sobre esse perfil de senador que se debruça este texto.
No nosso País, o epíteto de “senador” é normalmente atribuído a políticos experientes, que a partir de determinada fase da sua vida se tornam mentores das gerações mais novas, assegurando uma transição informada e uma passagem de testemunho natural na prossecução do interesse comum.
Um senador que cumpre este papel e merece ser reconhecido como tal, abre caminho para quem é mais novo, fomenta a renovação, mas não reduz o seu empenho nem o seu compromisso com as ideias e os projetos que constituíram a sua matriz de intervençãoe fazem parte da sua identidade política. Ao mesmo tempo que reconhece que a experiência é um valor precioso, percebe que novos tempos e novos desafios exigem soluções novas, muitas delas precisando de ser testadas em exercício e sem preconceitos ou amarras nostálgicas.
aceleração brutal na transição de contexto político que decorre da globalização da informação, das mensagens e das tendências, tende a gerar uma vertigem política e social que embacia a perspetiva do que é essencial, e do que vai ficando gravado na história e na memória, depois da passagem de cada onda.
Recordo com saudade e gratidão os senadores que me marcaram, felizmente muitos deles ainda vivos. Olho com admiração e muita esperança a geração que me antecede. Dela sairão a grande vaga de senadores desta década. Senadores que acredito, estarão à altura do desafio, como eu espero estar à altura da minha missão de transmissão responsável do testemunho quando a ela for chamado.
Ser senador vai ser progressivamente mais difícil e mais importante, não apenas no exercício de funções públicas como também nos desempenhos empresariais e de dinamização das instituições de solidariedade social e de mobilização da sociedade civil nas suas múltiplas dimensões. 
Nalgumas sociedades os senadores são designados de “mais velhos” pelo facto da experiência se acumular com o passar dos anos. Mas não é só a experiência que faz o senador. É a atitude e o compromisso desprendidocom que a torna um património útil para a sociedade em que se insere e para aqueles que com ele partilham sonhos e projetos de futuro.

Comentários

A História de uma metáfora fora do Sítio

Os dias de plenário no Parlamento Europeu em Estrasburgo são normalmente um puzzle complexo de pequenas reuniões e grandes debates, trocas diversas de pontos de vista, percursos acelerados entre salas e espaços de trabalho, alternância de idiomas multiplicidade de temas em apreciação. 
Na passada semana, numa reunião já tardia do Grupo dos Socialistas e Democratas que integro, apercebi-me que todas as delegações nacionais estavam a proferir palavas de despedida aos colegas ingleses. Inscrevi-me. Para surpresa minha a palavra foi-me dada quase de imediato
O cansaço e a não preparação prévia levaram-me pelosatalhos da metáfora. Lembrei que Portugal e Inglaterra eram os mais velhos aliados formais do mundo, recordei que o Reino Unido era como uma jangada de pedra ( e citei o Nobel Saramago como autor da imagem, ainda que para outros fins) amarrada à Europa e era nossa obrigação não quebrar as amarras dos valores partilhados, reforcei as inconstâncias da geopolítica citando o conhecido slogan “há mar e mar e há ir e voltar” e terminei melancólico,sublinhando que “é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos divide”.      
Os meus colegas britânicos aplaudiram porque devem ter concluído que só podia estar a dizer coisas positivas. Muitos de outras nacionalidades fizeram o mesmo. Os portugueses sorriam ou pelo discurso ou pela sua tradução escutada com curiosidade numa das 22 línguas oficiais. Olhei então para as cabines de interpretação.  Percebi que tinha acabado de fazer tudo o que não se deve fazer numa intervenção para ser multiplicada por todas as línguas da União. Foi uma metáfora fora de sítio. Talvez por isso, em autodefesa, gravei-a na minha memória de tal forma que hoje me apeteceu partilhá-la como fragmento de memória recente. Uma memória que vale pelo efeito que tiver nas vossas memórias. É neste terreno quetodas as metáforas se lavram.  
Comentários

Jesus Comendador

Amanhã ao fim da tarde em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e Grão-Mestre da Ordem do Infante D. Henrique, irá condecorar com a referida ordem, Treinador de Futebol Jorge Jesus “pelo prestígio que o seu trabalho como treinador lhe granjeou, bem como a Portugal”. 
É uma decisão acertada. Sempre tive simpatia por Jorge Jesus enquanto cidadão e profissional. Ainda jovem, cruzei-me com ele quando jogou no Juventude de Évora e eu espraiava o meu pouco talento e muita vontade no vizinho Campo Estrela, campo do rival Lusitano Ginásio Clube.
Segui depois a sua carreira, que para meu desgosto teve um fracasso relativo na passagem pelo meu clube do coração, o grandioso Sporting Clube de Portugal. A sua ingratidão à maioria dos adeptos sportinguistas que sempre estiveram ao seu lado, mesmo nos momentos complexos de Alcochete, foi para mim, que nas coisas da bola não reivindico nenhuma racionalidade na minha análise, o ponto mais baixo da sua extraordinária carreira.
Nos dias seguintes ao anúncio de Marcelo confrontei-me com várias pessoas que questionavam a atribuição da comenda, normalmente devido às dúvidas levantadas pelo meio através do qual Jesus granjeou prestígio próprio e para o seu País. 
São pessoas que consideram o Futebol Profissional uma atividade menor, corrompida, destituída de arte e cultura, enxertada na sociedade como um “ópio” dos tempos modernos. É um pouco isso e também o seu contrário, como quase tudo o que mexe com interesses financeiros brutais e globais.
Temos a perceção de que a atribuição de condecorações de Estado se banalizou excessivamente. Quando por vezes me assalta essa sensação,  sobretudo por altura do 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tenho por hábito ler as notas biográficas dos distinguidos e na grande generalidade tenho encontrado bons motivos de distinção e mérito, com focos e visibilidades distintas e perfis que naturalmente devem constituir uma amostra e apenas isso, do povo que nos orgulhamos de ser.
Recentemente debateu-se a hipótese de retirar comendas a personalidades que por atos posteriores demonstraram não estar à altura da distinção recebida. Esse deve ser o procedimento se se descobrirem factos não conhecidos à data atribuição e que a invalidariam se conhecidos. Já quanto a factos posteriores, talvez baste a anotação de que o ilustre dignatário não foi digno do reconhecimento.   
Mas quanto ao novel comendador Jorge Jesus, a propagação do prestígio da arte e da técnica de dirigir uma equipa de futebol, com tudo aquilo que isso envolve, associada a uma afirmação plena da cidadania e da honra de ser português e fazer parte da sua“escola” futebolística, justifica bem a distinção, mesmo que a sua estrela não volte a subir tão alto como este ano subiu. E oxalá suba.  
Comentários
Ver artigos anteriores...