Lágrima (Portugueses no mundo)
2010/03/07 23:34
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Tendo em conta que no seu programa se integrava o Fórum Ibérico de Barcelona sobre o tema do Mercado Ibérico da Energia, tive a oportunidade de acompanhar a recente visita do Presidente da República Portuguesa à Comunidade Autónoma da Catalunha e a Andorra. A visita foi focada no aprofundamento das relações económicas e políticas com aqueles territórios, mas nela foi dada uma particular atenção às comunidades portuguesas.
Todas as Comunidades Portuguesas que fazem de Portugal uma nação rede e global são comunidades especiais e as que o Presidente da República agora visitou não fogem á regra.
Em Barcelona encontrámos uma comunidade vibrante, jovem, empreendedora, inovadora e criativa. Em Andorra os portugueses são hoje uma parte estruturante da economia local, actuando em todos os sectores e liderando alguns deles. É difícil percorrer estes trajectos de Portugal no mundo sem uma lágrima sempre pronta a soltar-se de orgulho e de emoção.
Difícil é também a vida dos portugueses da diáspora. Também às suas vidas e às suas comunidades chegou a crise que assola o mundo. Para as autoridades e os povos que os acolhem, os portugueses são contudo vistos como parte da solução para a crise, pela sua fibra e pelo seu empenho. Afinal foi para vencer a adversidade que deixaram a sua terra e largaram a aventura e é esse sentido de missão e de determinação que perpassa da sua vontade e do reviver forte da tradição e da defesa dos valores, da cultura e da identidade nacional que vão fazendo por todo o globo.
Dos muitos momentos desta viagem marcante, pelo tempo e pelo destino, sublinho três que me impressionaram particularmente. O brilho no olhar dos jovens que se juntaram numa recepção de fim de tarde em Barcelona para contar os seus projectos e a forma como a grande cidade os desafiava, o coro de centenas de crianças portuguesas cantando o hino nacional no Auditório do Centro de Congressos de Andorra e a voz una da comunidade portuguesa juntando-se no mesmo espaço aos fados sentidos de Joana Amendoeira.
Foram momentos em que a lágrima de que vos falei esteve mais perto de rolar, lembrando-me que por estar ali não podia partilhar outros momentos de identidade e querer como o Congresso das Açordas de Portel ou o Concerto de Duarte em Évora (outra revelação do fado de nova geração que irrompe por todo o País). Mas foram sobretudo momentos em que ficou mais forte que nunca o contraste entre a nossa grandeza passada e presente como povo cosmopolita e de cidadãos do mundo, da mudança e da descoberta e a mesquinha vozearia que por estes dias vai entorpecendo as vontades e minando a vitalidade da sociedade portuguesa. E foi a revolta deste contraste que soltando a lágrima em tempo a conteve.
Sim, os povos e os Homens não devem ter medo de chorar. Mas este é um tempo em que chorar pode limpar a Alma mas não chega para vencer o desafio.
Este é um tempo de agir. Um tempo de saltar fronteiras com a coragem de partir ou de ficar. De ser mundo e de o ousar mudar. Como os portugueses de Barcelona e de Andorra. Como cada um de nós.
Todas as Comunidades Portuguesas que fazem de Portugal uma nação rede e global são comunidades especiais e as que o Presidente da República agora visitou não fogem á regra.
Em Barcelona encontrámos uma comunidade vibrante, jovem, empreendedora, inovadora e criativa. Em Andorra os portugueses são hoje uma parte estruturante da economia local, actuando em todos os sectores e liderando alguns deles. É difícil percorrer estes trajectos de Portugal no mundo sem uma lágrima sempre pronta a soltar-se de orgulho e de emoção.
Difícil é também a vida dos portugueses da diáspora. Também às suas vidas e às suas comunidades chegou a crise que assola o mundo. Para as autoridades e os povos que os acolhem, os portugueses são contudo vistos como parte da solução para a crise, pela sua fibra e pelo seu empenho. Afinal foi para vencer a adversidade que deixaram a sua terra e largaram a aventura e é esse sentido de missão e de determinação que perpassa da sua vontade e do reviver forte da tradição e da defesa dos valores, da cultura e da identidade nacional que vão fazendo por todo o globo.
Dos muitos momentos desta viagem marcante, pelo tempo e pelo destino, sublinho três que me impressionaram particularmente. O brilho no olhar dos jovens que se juntaram numa recepção de fim de tarde em Barcelona para contar os seus projectos e a forma como a grande cidade os desafiava, o coro de centenas de crianças portuguesas cantando o hino nacional no Auditório do Centro de Congressos de Andorra e a voz una da comunidade portuguesa juntando-se no mesmo espaço aos fados sentidos de Joana Amendoeira.
Foram momentos em que a lágrima de que vos falei esteve mais perto de rolar, lembrando-me que por estar ali não podia partilhar outros momentos de identidade e querer como o Congresso das Açordas de Portel ou o Concerto de Duarte em Évora (outra revelação do fado de nova geração que irrompe por todo o País). Mas foram sobretudo momentos em que ficou mais forte que nunca o contraste entre a nossa grandeza passada e presente como povo cosmopolita e de cidadãos do mundo, da mudança e da descoberta e a mesquinha vozearia que por estes dias vai entorpecendo as vontades e minando a vitalidade da sociedade portuguesa. E foi a revolta deste contraste que soltando a lágrima em tempo a conteve.
Sim, os povos e os Homens não devem ter medo de chorar. Mas este é um tempo em que chorar pode limpar a Alma mas não chega para vencer o desafio.
Este é um tempo de agir. Um tempo de saltar fronteiras com a coragem de partir ou de ficar. De ser mundo e de o ousar mudar. Como os portugueses de Barcelona e de Andorra. Como cada um de nós.
Comentários
"Actores Políticos"
2010/03/01 23:31
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Desde há muito usada na linguagem sociológica e de comunicação e alinhada com outras expressões similares como actores sociais, económicos ou outros, a expressão “actores políticos” tem vindo a ganhar nos últimos tempos, por todo o mundo democrático e também em Portugal, um significado cada vez mais literal e menos figurativo.
A competição dos órgãos de comunicação social generalistas de televisão ou imprensa escrita pela conquista do grande público que lhe garante viabilidade económica é hoje desesperada. Num tempo em que cada vez mais gente se torna autónoma da comunicação de massas e assume a escolha da informação por medida e de acordo com as suas necessidades e gostos, prender a atenção das grandes audiências é um desafio em que parece valer tudo, até mesmo “tirar olhos”, ou seja, manchar reputações por dá cá aquela capa ou aquela caixa.
Uma primeira etapa deste combate travou-se no plano das chamadas novelas da vida real, de que o “Big Brother” terá sido o mais marcante exemplo. A questão é sempre a mesma. Quando se quebra uma barreira torna-se difícil resistir à pressão para ir cada vez mais longe e para além da linha de fronteira do que parecia razoável e aceitável no ponto de partida. Cada passo dado é primeiro uma novidade badalada e popular e depois, rapidamente, um “dejá vu” desinteressante e descartável clamando por alternativa
No momento em que escrevo esta crónica muitos dos “actores políticos” em Portugal estão expostos perante a opinião pública em inquéritos e inquirições infindas e por vezes burlescas, mais focadas no espectáculo do que na prova ou na obtenção da verdade. O Canal Parlamento é um sucesso de audiências e quem sabe, se assegurar alguns direitos de “exclusividade”, um dos maiores activos mediáticos sob gestão pública, suscitando em breve vorazes apetites de privatização.
A promoção exaustiva da exposição dos actores políticos é uma alternativa barata à investigação séria, à encenação ficcional e ao entretenimento distanciado da casa do poder, fundamental para deixar espaço ao exercício focado desse poder e permitir o seu escrutínio fundamentado.
Este súbito convocar dos políticos para serem actores de tempos mortos e dos “prime time” das televisões generalistas e dos jornais de grande circulação não é uma particularidade portuguesa. Um pouco por todo o mundo este fenómeno está a acontecer. Desde as fúrias de Gordon Brown às intimidades de Berlusconi e às patacoadas de Nicolas Fréche, passando pelos negócios do casal presidencial argentino ou aos problemas conjugais do Primeiro-ministro irlandês, tudo está nos guiões da actualidade, animando um jornalismo “voyeur” que por enquanto é barato, eficaz e cola milhões aos televisores ou às capas que fazem notícia.
Mas como tudo o que vive no território mediático esta moda vai passar depressa, deixando destroços fundos na credibilidade da democracia e seguindo para outros palcos. Na próxima ronda outros serão os actores. Não tenho dotes de adivinhação mas a história faz-me suspeitar que quem toca agora à porta dos actores de circunstância, verá mais cedo ou mais tarde a sua porta ser tocada para receber convocatória. Espero que esta suspeita não se confirme. O espectáculo deve ser trabalho de actores profissionais, que os temos, bons e desaproveitados.
A competição dos órgãos de comunicação social generalistas de televisão ou imprensa escrita pela conquista do grande público que lhe garante viabilidade económica é hoje desesperada. Num tempo em que cada vez mais gente se torna autónoma da comunicação de massas e assume a escolha da informação por medida e de acordo com as suas necessidades e gostos, prender a atenção das grandes audiências é um desafio em que parece valer tudo, até mesmo “tirar olhos”, ou seja, manchar reputações por dá cá aquela capa ou aquela caixa.
Uma primeira etapa deste combate travou-se no plano das chamadas novelas da vida real, de que o “Big Brother” terá sido o mais marcante exemplo. A questão é sempre a mesma. Quando se quebra uma barreira torna-se difícil resistir à pressão para ir cada vez mais longe e para além da linha de fronteira do que parecia razoável e aceitável no ponto de partida. Cada passo dado é primeiro uma novidade badalada e popular e depois, rapidamente, um “dejá vu” desinteressante e descartável clamando por alternativa
No momento em que escrevo esta crónica muitos dos “actores políticos” em Portugal estão expostos perante a opinião pública em inquéritos e inquirições infindas e por vezes burlescas, mais focadas no espectáculo do que na prova ou na obtenção da verdade. O Canal Parlamento é um sucesso de audiências e quem sabe, se assegurar alguns direitos de “exclusividade”, um dos maiores activos mediáticos sob gestão pública, suscitando em breve vorazes apetites de privatização.
A promoção exaustiva da exposição dos actores políticos é uma alternativa barata à investigação séria, à encenação ficcional e ao entretenimento distanciado da casa do poder, fundamental para deixar espaço ao exercício focado desse poder e permitir o seu escrutínio fundamentado.
Este súbito convocar dos políticos para serem actores de tempos mortos e dos “prime time” das televisões generalistas e dos jornais de grande circulação não é uma particularidade portuguesa. Um pouco por todo o mundo este fenómeno está a acontecer. Desde as fúrias de Gordon Brown às intimidades de Berlusconi e às patacoadas de Nicolas Fréche, passando pelos negócios do casal presidencial argentino ou aos problemas conjugais do Primeiro-ministro irlandês, tudo está nos guiões da actualidade, animando um jornalismo “voyeur” que por enquanto é barato, eficaz e cola milhões aos televisores ou às capas que fazem notícia.
Mas como tudo o que vive no território mediático esta moda vai passar depressa, deixando destroços fundos na credibilidade da democracia e seguindo para outros palcos. Na próxima ronda outros serão os actores. Não tenho dotes de adivinhação mas a história faz-me suspeitar que quem toca agora à porta dos actores de circunstância, verá mais cedo ou mais tarde a sua porta ser tocada para receber convocatória. Espero que esta suspeita não se confirme. O espectáculo deve ser trabalho de actores profissionais, que os temos, bons e desaproveitados.
Mística
2010/02/21 17:52
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Temos vindo a sobreviver a um dos invernos mais cinzentos de que tenho memória. Os dias andam tristes e as vidas amolecidas. É nestes tempos que mais falta nos faz o aconchego da mística, do sentido das coisas, da linha do tempo e da espiritualidade saudável.
Nos interregnos da caminhada, quando mesmo entre a multidão me sinto mais só, gosto de me refugiar entre um amontoado de livros um por uma razão ou outra ficaram guardados na minha memória, para sentir o pulsar das inquietações múltiplas, dos sentimentos cruzados, das dialécticas e dos debates que vão tecendo a malha dos tempos.
Foi nesse exercício que reencontrei um interessante livro de Jean Vernette publicado em 2002 (ano de falecimento do autor) numa obra que no seu título original em francês afirmava “o Século XXI ou será místico ou não será” e que a Editorial Notícias publicou em 2003, na colecção Sinal dos Tempos, com o título “Só a Religião salvará o século XXI”. Se a memória não me atraiçoa, inspirado por este livro já publiquei no DS uma crónica há alguns anos, versando o “regresso do sagrado” que nele se antevia.
Agora que o século começa a desenhar de forma mais clara os seus contornos, clivagens, conflitos e consensos, as ideias do teólogo francês parecem ganhar ainda mais actualidade e mesmo algum sentido premonitório, levando-me de novo a discorrer sobre o seu livro ainda que agora sob um ângulo diverso.
Prova da acuidade previsional do texto (publicado em 2002 e eventualmente escrito no final do século passado ou no alvor do século actual) de Vernette é este extracto extraordinário – “ A falência dos grandes sistemas ideológicos, a insatisfação ligada ao materialismo do quotidiano, um certo vazio político incapaz de fornecer razões para agir e esperar, a ausência de consenso sobre as grandes questões éticas, cavaram uma abertura no coração do homem do século XXI”.
Esta “abertura” é um desafio e uma oportunidade. Convoca cada um de nós para uma mais profunda procura interior e para uma busca permanente do sentido filosófico para a vida, ao mesmo tempo que exige das comunidades respostas capazes de garantia a sua solidez económica, social e ambiental, mas também de saciar as interrogações sobre a existência e promover a felicidade entre os que as integram.
Sem descurar a vida académica e mantendo sempre viva a curiosidade científica e a participação nas redes e nas expedições que buscam o saber, estou hoje motivado e mobilizado para uma missão política estimulante e muito exigente. Uma missão em se pode ser feliz, mas em que resta pouco tempo para estudar a felicidade (ou qualquer outro tema que não esse estimulante mundo da energia e da inovação).
A economia da felicidade é no entanto o tema de largo espectro com que procuro balizar as minhas actividades científicas e académicas e também sempre que possível as acções de cidadania e de partilha com os outros. Decidi escolher esse caminho e deixá-lo bem claro ao dedicar a lição de sapiência que tive a honra de proferir na sessão solene de abertura do ano lectivo de 2008/2009 na minha universidade (Universidade de Évora) ao tema da “Gestão da Felicidade”. É essa a mística que me conduz. É com ela que quero dar sentido à vida e sobreviver ao século e ao cinzentismo que o vai tolhendo.
Nos interregnos da caminhada, quando mesmo entre a multidão me sinto mais só, gosto de me refugiar entre um amontoado de livros um por uma razão ou outra ficaram guardados na minha memória, para sentir o pulsar das inquietações múltiplas, dos sentimentos cruzados, das dialécticas e dos debates que vão tecendo a malha dos tempos.
Foi nesse exercício que reencontrei um interessante livro de Jean Vernette publicado em 2002 (ano de falecimento do autor) numa obra que no seu título original em francês afirmava “o Século XXI ou será místico ou não será” e que a Editorial Notícias publicou em 2003, na colecção Sinal dos Tempos, com o título “Só a Religião salvará o século XXI”. Se a memória não me atraiçoa, inspirado por este livro já publiquei no DS uma crónica há alguns anos, versando o “regresso do sagrado” que nele se antevia.
Agora que o século começa a desenhar de forma mais clara os seus contornos, clivagens, conflitos e consensos, as ideias do teólogo francês parecem ganhar ainda mais actualidade e mesmo algum sentido premonitório, levando-me de novo a discorrer sobre o seu livro ainda que agora sob um ângulo diverso.
Prova da acuidade previsional do texto (publicado em 2002 e eventualmente escrito no final do século passado ou no alvor do século actual) de Vernette é este extracto extraordinário – “ A falência dos grandes sistemas ideológicos, a insatisfação ligada ao materialismo do quotidiano, um certo vazio político incapaz de fornecer razões para agir e esperar, a ausência de consenso sobre as grandes questões éticas, cavaram uma abertura no coração do homem do século XXI”.
Esta “abertura” é um desafio e uma oportunidade. Convoca cada um de nós para uma mais profunda procura interior e para uma busca permanente do sentido filosófico para a vida, ao mesmo tempo que exige das comunidades respostas capazes de garantia a sua solidez económica, social e ambiental, mas também de saciar as interrogações sobre a existência e promover a felicidade entre os que as integram.
Sem descurar a vida académica e mantendo sempre viva a curiosidade científica e a participação nas redes e nas expedições que buscam o saber, estou hoje motivado e mobilizado para uma missão política estimulante e muito exigente. Uma missão em se pode ser feliz, mas em que resta pouco tempo para estudar a felicidade (ou qualquer outro tema que não esse estimulante mundo da energia e da inovação).
A economia da felicidade é no entanto o tema de largo espectro com que procuro balizar as minhas actividades científicas e académicas e também sempre que possível as acções de cidadania e de partilha com os outros. Decidi escolher esse caminho e deixá-lo bem claro ao dedicar a lição de sapiência que tive a honra de proferir na sessão solene de abertura do ano lectivo de 2008/2009 na minha universidade (Universidade de Évora) ao tema da “Gestão da Felicidade”. É essa a mística que me conduz. É com ela que quero dar sentido à vida e sobreviver ao século e ao cinzentismo que o vai tolhendo.
A Europa em Jogo
2010/02/14 18:04
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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São difíceis os tempos para a União Europeia, atordoada com as mudanças institucionais decorrentes da adopção do Tratado de Lisboa ainda em assimilação, emergindo com dificuldade duma crise económica que não provocou mas em que tem sido o principal alvo, fragilizada pelas contingências de Copenhaga, atacada desalmadamente na credibilidade da sua moeda e vendo o flanco de Países mais expostos sujeitos à especulação internacional, seja no preconceituoso ataque aos PIGS (Portugal, Italy, Greece and Spain), seja na mais alargada ofensiva contra os STUPID (Spain, Turquey, UK, Portugal, Italy and Dubai) que os abutres da finança consideram contaminados pela febre helénica.
Em simultâneo com este ataque económico, a Europa tem visto também o seu poder esvair-se por omissão de coragem política, como o demonstra o resultado das eleições presidenciais na Ucrânia ou os sinais de reorientação estratégica da Turquia. Em contraponto a esta situação difícil, culminada com a humilhação da eventual ausência de Obama na cimeira UE/EUA de Madrid, ressurge com toda a sua pujança o eixo Franco-Alemão, já bem notório nos resultados do recente Conselho da Competitividade sobre mobilidade sustentável e no Conselho Europeu que respondeu à crise Grega e lançou a nova estratégia 2020.
O motor Franco-Alemão não traz más recordações ao processo de construção europeia. Sem ele não teria sido possível concretizar a moeda única ou o alargamento. No entanto, a actual orientação política dos dois Países, sem a influência temperada de grandes Homens de Estado como foram Mitterrand e Helmut Koln, com liderança efectiva das duas maiores famílias políticas europeias, exige mais atenção de todos aos movimentos do novo Eixo.
O salve-se quem puder que parece ter tomado conta de algumas chancelarias europeias significa a curto prazo o naufrágio colectivo. Agora mais do que nunca a solidariedade europeia é um jogo de ganho múltiplo. Estão a ser desenhadas as regras da pós-globalização e da sua adequação á economia sustentável e aos valores humanistas do modelo social e económico dominante na Europa vai resultar a sorte da UE no novo quadro geoestratégico.
Não sou grande adepto das teorias das conspirações dos mercados, mas a verdade é que as pressões económicas têm vindo a fragilizar sobretudo lideranças de países governados por Partidos da Internacional Socialista como a Grécia, a Espanha, Portugal ou a Inglaterra. Para a direita Neoliberal esta situação pode parecer uma retumbante vitória. Será contudo uma vitória de Pirro. No neo liberalismo selvático a UE será sempre uma fotocópia de má qualidade. Só num contexto de economia social de mercado, sustentável e com valores humanistas a Europa poderá competir e ambicionar liderar.
É isto que se joga hoje na definição em curso da UE2020, cuja dimensão estratégica forte e mobilizadora parece ensombrada e secundarizada pelos debates financeiros de curtíssimo prazo. As nuvens de fumo não escurecem a Europa por acaso. São mecanismos para nos inebriar enquanto as regras do futuro se desenham. Temos que resistir. Temos que lutar. Temos que vencer. A Europa está em jogo e com ela o nosso futuro comum.
Em simultâneo com este ataque económico, a Europa tem visto também o seu poder esvair-se por omissão de coragem política, como o demonstra o resultado das eleições presidenciais na Ucrânia ou os sinais de reorientação estratégica da Turquia. Em contraponto a esta situação difícil, culminada com a humilhação da eventual ausência de Obama na cimeira UE/EUA de Madrid, ressurge com toda a sua pujança o eixo Franco-Alemão, já bem notório nos resultados do recente Conselho da Competitividade sobre mobilidade sustentável e no Conselho Europeu que respondeu à crise Grega e lançou a nova estratégia 2020.
O motor Franco-Alemão não traz más recordações ao processo de construção europeia. Sem ele não teria sido possível concretizar a moeda única ou o alargamento. No entanto, a actual orientação política dos dois Países, sem a influência temperada de grandes Homens de Estado como foram Mitterrand e Helmut Koln, com liderança efectiva das duas maiores famílias políticas europeias, exige mais atenção de todos aos movimentos do novo Eixo.
O salve-se quem puder que parece ter tomado conta de algumas chancelarias europeias significa a curto prazo o naufrágio colectivo. Agora mais do que nunca a solidariedade europeia é um jogo de ganho múltiplo. Estão a ser desenhadas as regras da pós-globalização e da sua adequação á economia sustentável e aos valores humanistas do modelo social e económico dominante na Europa vai resultar a sorte da UE no novo quadro geoestratégico.
Não sou grande adepto das teorias das conspirações dos mercados, mas a verdade é que as pressões económicas têm vindo a fragilizar sobretudo lideranças de países governados por Partidos da Internacional Socialista como a Grécia, a Espanha, Portugal ou a Inglaterra. Para a direita Neoliberal esta situação pode parecer uma retumbante vitória. Será contudo uma vitória de Pirro. No neo liberalismo selvático a UE será sempre uma fotocópia de má qualidade. Só num contexto de economia social de mercado, sustentável e com valores humanistas a Europa poderá competir e ambicionar liderar.
É isto que se joga hoje na definição em curso da UE2020, cuja dimensão estratégica forte e mobilizadora parece ensombrada e secundarizada pelos debates financeiros de curtíssimo prazo. As nuvens de fumo não escurecem a Europa por acaso. São mecanismos para nos inebriar enquanto as regras do futuro se desenham. Temos que resistir. Temos que lutar. Temos que vencer. A Europa está em jogo e com ela o nosso futuro comum.
A "Carta para a Russia"
2010/02/13 00:15
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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A ideia desta crónica nasceu em mais uma espera de aeroporto, quando de repente no meio dum tempo de vazio surgiu entre a equipa que me acompanhava a dúvida sobre uma carta de mera formalidade mas que deveria dar seguimento a uma negociação em curso. Já teria seguido a "carta para a Rússia"? A verdade é que sobre o tema já muitas palavras directas, mensagens e telefonemas tinham sido trocados. Tudo estava combinado, mas faltava a carta, ou pelo menos podia faltar. E sem a carta …!
Na última década a forma como comunicamos mudou de forma assombrosa. Os telefonemas e as mensagens por telefone ou por computador são a única forma de sincronizar quem decide ou quem executa com as dinâmicas de mudança e de gerar interacções criativas que levam a que as coisas aconteçam. E se isto é assim na esfera profissional, mais é ainda na esfera pessoal. Vivemos um tempo de conexões em que a oportunidade tende a transcender e a sobrepor tudo o resto. Continua a ser importante levar a “Carta a Garcia” embora sejam cada vez mais virtuais as cartas que se jogam e enviam e seja também cada vez mais difícil saber quem é Garcia.
Esta fluidez de processos transforma todos os modelos de avaliação e verificação. Os arquivos da história do presente e do futuro são miríades de ocorrências que se poderão correlacionar das mais diversas e múltiplas formas. A história e a forma como ela se foi consolidando nunca foi linear, mas agora mais do que múltipla tornou-se mutável, despegada da lógica ou da evidência, fruto de sucessões de casos e de acasos, de bolas e de carambolas, de sortes e de sortilégios.
A "carta para a Rússia" era uma formalidade não necessáriamente dirigida aquele País e uso-a neste texto como uma mera alegoria. Nas relações internacionais, nas relações comerciais ou nas relações pessoais as cartas que hoje se escrevem são cada vez mais miolos de pão deixados no caminho, para um dia se poder regressar ao passado, se entretanto como no conto infantil os pássaros não se saciarem com eles.
No fundo são miolos de pão deixados a pensar que o trigo ainda é trigo e que os pássaros ainda se alimentam do fruto das sementes e que vão continuar a pejar os caminhos, mesmo quando sabemos que pouco valem face ao banquete da comunicação instantânea.
Terminado em Bruxelas, enquanto se escrevem as cartas do futuro da economia europeia, enviarei este texto para o DS por “mail” como sempre o faço. Claro que o podia mandar por carta, mas não sabendo se a carta já seguiu para a Rússia, temo que alguém se lembre, por vontade ou descuido, de desencaminhar esta para a terra dos “Czars”, e que indo ela parar ao Pravda, sendo em português, ficasse para sempre perdida no arquivo morto.
Seria uma carta que não encontraria Garcia e que deixaria os meus leitores à espera da crónica sem saber que foi á espera dum avião que surgiu a ideia de a escrever. Uma carta algo surpreendente acredito, escrita para fazer pensar … ou talvez não, que isto das cartas está fora de moda. Ainda se fosse uma escuta!
Na última década a forma como comunicamos mudou de forma assombrosa. Os telefonemas e as mensagens por telefone ou por computador são a única forma de sincronizar quem decide ou quem executa com as dinâmicas de mudança e de gerar interacções criativas que levam a que as coisas aconteçam. E se isto é assim na esfera profissional, mais é ainda na esfera pessoal. Vivemos um tempo de conexões em que a oportunidade tende a transcender e a sobrepor tudo o resto. Continua a ser importante levar a “Carta a Garcia” embora sejam cada vez mais virtuais as cartas que se jogam e enviam e seja também cada vez mais difícil saber quem é Garcia.
Esta fluidez de processos transforma todos os modelos de avaliação e verificação. Os arquivos da história do presente e do futuro são miríades de ocorrências que se poderão correlacionar das mais diversas e múltiplas formas. A história e a forma como ela se foi consolidando nunca foi linear, mas agora mais do que múltipla tornou-se mutável, despegada da lógica ou da evidência, fruto de sucessões de casos e de acasos, de bolas e de carambolas, de sortes e de sortilégios.
A "carta para a Rússia" era uma formalidade não necessáriamente dirigida aquele País e uso-a neste texto como uma mera alegoria. Nas relações internacionais, nas relações comerciais ou nas relações pessoais as cartas que hoje se escrevem são cada vez mais miolos de pão deixados no caminho, para um dia se poder regressar ao passado, se entretanto como no conto infantil os pássaros não se saciarem com eles.
No fundo são miolos de pão deixados a pensar que o trigo ainda é trigo e que os pássaros ainda se alimentam do fruto das sementes e que vão continuar a pejar os caminhos, mesmo quando sabemos que pouco valem face ao banquete da comunicação instantânea.
Terminado em Bruxelas, enquanto se escrevem as cartas do futuro da economia europeia, enviarei este texto para o DS por “mail” como sempre o faço. Claro que o podia mandar por carta, mas não sabendo se a carta já seguiu para a Rússia, temo que alguém se lembre, por vontade ou descuido, de desencaminhar esta para a terra dos “Czars”, e que indo ela parar ao Pravda, sendo em português, ficasse para sempre perdida no arquivo morto.
Seria uma carta que não encontraria Garcia e que deixaria os meus leitores à espera da crónica sem saber que foi á espera dum avião que surgiu a ideia de a escrever. Uma carta algo surpreendente acredito, escrita para fazer pensar … ou talvez não, que isto das cartas está fora de moda. Ainda se fosse uma escuta!
"Esquerda de Jardim"
2010/02/05 22:11
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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As inoportunas alterações à lei das Finanças Regionais impostas por Alberto João Jardim à República em contexto de grande exposição global da economia portuguesa tiveram a estranha cobertura da velha esquerda traduzida nos votos favoráveis do PCP, dos Verdes e do Bloco, que se somaram aos mais expectáveis votos do PSD e do PP.
Com as suas opções de voto na matéria em apreciação, PCP, Verdes e BE tornaram-se em termo práticos a “Esquerda de Jardim”.
Se dúvidas existissem sobre a teoria do inimigo principal que tolhe o raciocínio do PCP, dos Verdes e do Bloco de Esquerda, o seu incompreensível voto nesta matéria esclareceu mais uma vez que a sua prioridade é competir entre eles no esforço de dificultar a governação da esquerda moderna, preferindo ver o poder acolhido à direita, do que vê-lo entregue a protagonistas com sensibilidade social e valores progressistas.
Muitos alegam que face ao elevado deficit orçamental, o acréscimo provocado por esta lei é irrisório. No entanto, mais do que o valor, há dois sinais implícitos na legislação aprovada que são preocupantes e para os quais o apoio da velha esquerda é incompreensível. O primeiro sinal reside na injustiça relativa nela implícita. O segundo sinal radica na descredibilização internacional das instituições portuguesas num momento crítico nos mercados financeiros.
Face a um orçamento de grande contenção, que implica o congelamento dos salários na função pública e cortes inevitáveis em programas impulsionadores da economia real, que justificação tem a Esquerda de Jardim para embarcar na lei aprovada, em vez de propor por exemplo a imputação dum valor igual ao reforço de politicas sociais com impacto em todo o território nacional?
E estando Portugal sobre um feroz ataque dos especuladores internacionais, que interesse tem a Esquerda de Jardim em fragilizar as instituições e disseminar a mensagem de que o governo português pode não ter suporte político para assumir os compromissos de convergência necessários para afastar a pressão, com consequências que em última análise prejudicam sobretudo as famílias endividadas e as empresas financeiramente mais vulneráveis?
Entre o momento em que escrevo este texto, muito em cima do acontecimento, e o momento em que daqui a uma semana ele será publicado no Diário do Sul mediará um tempo em que se poderá aquilatar melhor as consequências políticas e económicas deste episódio.
Por agora, a intransigência do governo perante a irresponsabilidade da maioria de circunstância parece ter acalmado os mercados e controlado parcialmente o dano. Governo, Conselho de Estado e Presidência alinharam num sentido comum de defesa do interesse geral e de preservação da nossa economia. Será que esse relevante alinhamento será suficiente para contrapor as dinâmicas de luta pela liderança dentro do PSD e entre este e o PP no quadro da direita, curiosamente desenvolvidas sob uma banda sonora animada pela Esquerda de Jardim?
Mais do que uma certeza ou uma convicção, tenho o profundo desejo que assim seja, porque como diz o povo quando a onda furiosa bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Sobretudo o mexilhão mais pequeno e que supostamente a Esquerda de Jardim representa. Ou deveria representar.
Com as suas opções de voto na matéria em apreciação, PCP, Verdes e BE tornaram-se em termo práticos a “Esquerda de Jardim”.
Se dúvidas existissem sobre a teoria do inimigo principal que tolhe o raciocínio do PCP, dos Verdes e do Bloco de Esquerda, o seu incompreensível voto nesta matéria esclareceu mais uma vez que a sua prioridade é competir entre eles no esforço de dificultar a governação da esquerda moderna, preferindo ver o poder acolhido à direita, do que vê-lo entregue a protagonistas com sensibilidade social e valores progressistas.
Muitos alegam que face ao elevado deficit orçamental, o acréscimo provocado por esta lei é irrisório. No entanto, mais do que o valor, há dois sinais implícitos na legislação aprovada que são preocupantes e para os quais o apoio da velha esquerda é incompreensível. O primeiro sinal reside na injustiça relativa nela implícita. O segundo sinal radica na descredibilização internacional das instituições portuguesas num momento crítico nos mercados financeiros.
Face a um orçamento de grande contenção, que implica o congelamento dos salários na função pública e cortes inevitáveis em programas impulsionadores da economia real, que justificação tem a Esquerda de Jardim para embarcar na lei aprovada, em vez de propor por exemplo a imputação dum valor igual ao reforço de politicas sociais com impacto em todo o território nacional?
E estando Portugal sobre um feroz ataque dos especuladores internacionais, que interesse tem a Esquerda de Jardim em fragilizar as instituições e disseminar a mensagem de que o governo português pode não ter suporte político para assumir os compromissos de convergência necessários para afastar a pressão, com consequências que em última análise prejudicam sobretudo as famílias endividadas e as empresas financeiramente mais vulneráveis?
Entre o momento em que escrevo este texto, muito em cima do acontecimento, e o momento em que daqui a uma semana ele será publicado no Diário do Sul mediará um tempo em que se poderá aquilatar melhor as consequências políticas e económicas deste episódio.
Por agora, a intransigência do governo perante a irresponsabilidade da maioria de circunstância parece ter acalmado os mercados e controlado parcialmente o dano. Governo, Conselho de Estado e Presidência alinharam num sentido comum de defesa do interesse geral e de preservação da nossa economia. Será que esse relevante alinhamento será suficiente para contrapor as dinâmicas de luta pela liderança dentro do PSD e entre este e o PP no quadro da direita, curiosamente desenvolvidas sob uma banda sonora animada pela Esquerda de Jardim?
Mais do que uma certeza ou uma convicção, tenho o profundo desejo que assim seja, porque como diz o povo quando a onda furiosa bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Sobretudo o mexilhão mais pequeno e que supostamente a Esquerda de Jardim representa. Ou deveria representar.
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