“Salvar” o Brasil

O povo brasileiro escolheu por larga maioria um Presidente da República que representa um retrocesso na aplicação dos valores e princípios das sociedades abertas e um risco para a democracia brasileira.

O inicio formal das suas funções não foi marcado, como muitos previam, por um recuo no radicalismo das promessas de campanha. Pelo contrário, as primeiras medidas de Bolsonaro, designadamente a liberalização do porte de armas, a invasão permitida das terras dos povos indígenas, o enfraquecimento dos serviços de saúde para os mais pobres, a redução do salário mínimo e a maior permissividade na exploração da Amazónia são exemplos que Bolsonaro está disposto a surpreender pela negativa os que pugnam por sociedades livres, modernas e tolerantes.

A aplicação hiperbólica do seu programa não reduziuaté agora os seus índices de popularidade. Eleito com cerca de 60% dos votos expressosa sua aceitação atingiu recentemente picos de 75%. Temos que ser cautelosos e humildes e perceber as razões do que está a acontecer para não quebrar os laços que nos permitirão ajudar a salvar a democracia brasileira quando for necessário e desejado pela maioria do seu povo.

O sistema politico brasileiro é muito peculiar. Na câmara dos representantes estão representados 30 partidos e no senado 21. O maior partido brasileiro (O Partido dos Trabalhadores – PT) tem pouco mais de 10% dos deputados e o partido do Presidente (Partido Social Liberal – PSL) ainda tem menos. Construir maiorias para algo de novo, para um presidente cuja ideologia populista se baseava na ideia de ser contra Lula e o que ele representou, vai ser muito difícil. Acola que une a maioria presidencial é o ódio difuso ao passado e as únicas medidas consensuais na coligação de momento são as que foram apresentadas na campanha.

Sendo assim, como se justifica a popularidade inicial de Bolsonaro? As suas fraquezas nesta fase são pontos fortes eleitorais. Está a fazer o que propôs na campanha e a cavalgar a rejeição do passado recente, por algumas razões objectivas e muitas outras construídas através da manipulação massiva da comunicação e das redes sociais.

Este estado de graça não durará muito tempo. Quando o descontentamento emergir, Bolsonaro e os seus aliados terão a tentação de limitar a democracia e a liberdade de expressão do povo brasileiro. É nessa altura que a ajuda e a pressão da comunidade internacional será decisiva. É por isso que não podemos cortar os laços. Fez bem Marcelo Rebelo de Sousa em participar na posse de um Presidente que não é nosso irmão nos valores, mas foi eleito por um povo que queremos que continue a ser.
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O Apelo de Marcelo

No mesmo dia em que por razões de Estado assistiu à posse de Jair Bolsonaro, novo Presidente do Brasil, que no seu discurso decepou a democracia brasileira ao declarar combate ao socialismo e ao politicamente correto, Marcelo Rebelo de Sousa divulgou a sua mensagem de Ano Novo com um apelo forte à participação política, ao voto, ao empenho e compromisso dos eleitos e à maior credibilidade e transparência das Instituições.

Tenho de há muitos anos uma sincera admiração pela inteligência, vivacidade e gosto genuíno pela política do professor, advogado, jornalista e militante Marcelo Rebelo de Sousa. Muitas vezes discordei dele, mas sempre apreciei a criatividade sibilina da sua análise e da sua ação e o seu humanismo.

Não me esqueço que da negociação constitucional em que foi protagonista, nasceu o caminho tortuoso que impediu a concretização da regionalização administrativa. Ele não foi o único implicado, mas como líder da oposição na altura, teve um papel fundamental num processo de revisão que teve esse como dos principais impactos. Poucos têm lembrado isso quando agora se fala da falta de densidade em gentes, equipamentos e competências institucionais no interior.

Recordo-me do também do seu combate democráticopela Câmara de Lisboa, com Jorge Sampaio, e em lutei e comemorei a vitória daquele que viria a ser um excelente Presidente da República, antes do hiato da magistratura cinzenta de Cavaco Silva e da eleição de Marcelo para a presidência. Não votei em Marcelo naseleições presidenciais de 24 de janeiro de 2016.

Faço, no entanto, uma apreciação muito positiva da forma aberta, mobilizadora, humana e disponível como tem exercido o seu mandato. A Marcelo pode e deve também ser creditada uma responsabilidade significativa na capacidade que Portugal e o seu povo têm tido para enfrentar a adversidade do empobrecimento imposto e recuperar a confiança no futuro e o desenvolvimento sustentável no presente.

O ano de 2019 será um ano determinante para a magistratura presidencial. O seu apelo de Ano Novo à participação, quer de eleitores quer de potenciais candidatos, foi muito oportuno e adequado. Marcelo disse aos portugueses para não se demitirem de um direito de escolha cuja conquista foi dura e tem que ser preservada, comprometendo-se em simultâneo com o seu dever de isenção.

Sigamos o apelo de Marceloantes sublinhado também por António Costa na sua mensagem. Participar plenamente nos processos de escolha é uma das mais potentes ferramentas de defesa da democracia e nosdias que correm defender a democracia nunca é tempo perdido.
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Esquerda versus Direita - Hoje

Mesmo para quem não perfilha uma visão dialética da história, os tempos são sempre marcados por dilemas e dicotomias sobre os quais os povos exercem a sua escolha e determinam o seu futuro.

Essas escolhas têm sido também a base dos quadros de valores éticos e dos programas de ação política que definem as tipologias políticas, designadamente a fronteira vasta entre a esquerda e a direita.
Durante décadas após o início da transformação industrial a grande escolha foi definida no plano social e na detenção dos meios de produção. Foram tempos em que a direita pugnava por uma liberdade baseada no destino e nas capacidades e recursos herdados ou adquiridos e esquerda se focava na igualdade e na equiparação ideal de cada ser humano no acesso às condições de realização e de vida decente. 
Em ambos os casos, a moderação prevaleceu muitas vezes temperada pelo respeito pela vontade dos povos manifesta de forma democrática e noutras vezes foi deturpada por extremismos radicais e cerceadores dessa expressão democrática.
Com a evolução do modelo económico, a base da dicotomia foi passando progressivamente da posse dos meios de produção para a visão cultural sobre a aceitação da diferença, opondo os valores conservadores e supremacistas predominantes à direita aos valores transformadores e respeitadores das escolhas de cada grupo à esquerda. 
Mais uma vez esta dicotomia, ainda bem presente, foi por vezes democrática e respeitadora da vontade das partes e outras vezes enquistada e praticada de forma unilateral e autoritária.
Nos dias de hoje, com os efeitos da globalização e da transformação digital a penetrarem cada vez mais na sociedade, estamos a assistir à formação de uma nova dicotomiaA direita, em particular a direita populista,aposta na culpa para captar votos e capitalizar descontentamentosÉ a culpa do comércio global, das migrações, das partilhas de soberania, da tolerância e da aceitação da diferença.
Enquanto o ressentimento fermenta à direita, aesquerda democrática hesita em assumir com naturalidade a missão de ser geradora de novas soluções, que respeitando a dignidade, a identidade e expetativa de realização de cada pessoa e de cada comunidade, seja capaz de gerar uma dimensão agregadora e viável de bem-estar comum, capaz de recuperar a esperança e a confiança.
A direita tem uma narrativa mobilizadora contra a modernidade. Falta à esquerda ocupar o seu espaço natural desenvolvendo e aplicando uma narrativa mobilizadora a favor dela, para que a história siga o seu caminho com os dois motores ligados. 
   
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Feliz 2019

Aproxima-se mais uma transição de ano com todo o sentido mágico e simbólico associado aos rituais de renovação. Nos últimos dias temos desejado uns aos outros um feliz 2019. Para além de fatores imponderáveis associados à sorte e ao azar ou à saúde e à doença, o ano de 2019 será tanto mais feliz quanto a realidade se ajustar às nossas expetativas.

Por isso, neste texto de fim de ano, desejo a todos sorte e saúde. Desejo também discernimento e compromisso,para que cada um consiga definir objetivos pessoais e relacionais motivadores e para que no ano vindouro os consigam atingir, dando sentido positivo a mais um ciclo da roda da vida. 

Existe abundante literatura relacionando o pensamento positivo com a capacidade de atingir resultados mais recompensadores. A evidência científica desta relação não é tão grande como a evidência empírica relatada. A minha já longeva experiência leva-me a acreditar mais no contraponto. O pensamento positivo só por si não resolve nada, mas o pensamento negativo pode destruir tudo.

Existem previsões para 2019 para todos os gostos, para todos os quadrantes astrológicos e para todos os ângulos de análise. No final, no entanto, o ano será a soma de muitas pequenas e grandes histórias e escolhas sobre as quais cada um de nós terá uma palavra a dizer. 

Uma palavra que pode parecer insignificante, mas que é, à escala de cada um de nós, o centro de todo o significado e a chave para o ano valer a pena ou ser apenas mais um na espiral do tempo. O referencial que nos permitirá sentir realizados ou frustrados,independentemente daquilo que inapelavelmente acontecerá apesar de nós.

Eu sei que este texto seria mais simpático se me limitasse a desejar que tudo aquilo com que cada um dos que lê este texto sonha que aconteça em 2019 viesse a acontecer como por magia ou arte do destino. Alguns, poucos, terão essa sorte. Os restantes terão que lutar por aquilo que desejam com todas as forças e convicções.   

Por isso, ao desejar a todos os que me acompanham nestes textos semanais, partilhados há décadas, um feliz 2019, estou também a apelar à ação para que lutem por aquilo em que acreditam e dessa forma ajudem, construindo para si e para os seus um mundo melhor, a tornar o mundo melhor para todos. Da minha parte estou pronto para mais um ano de luta pelos valores que me movem e pelos sonhos que me povoam o pensamento.  


    

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Era um mercado de Natal (Estrasburgo)

O mercado de natal de Estrasburgo é um dos mais conhecidos e acolhedores de Françae da Europa. Dia 11 de dezembro ao fim da tarde estava um frio próprio do inverno, e já não restava sequer um fio de luz natural, quando no meio da música da quadra se ouviram ecoar vários tiros. Não estava lá. A essa hora no meu grupo político no Parlamento Europeu discutiam-se acaloradamente as políticas comerciais e os riscos e vantagens da globalização a propósito do acordo União Europeia-Japão que seria votado no dia seguinte e aprovado por larga maioria.

Poucos minutos depois os tiros já tinham “chegado” ao Parlamento. Tinham chegado a todo o mundo. Até ao Japão através das agências noticiosas. E era um mercado de natal.

A globalização hoje já não depende da vontade de qualquer órgão soberano porque ela é primeiro que tudo uma globalização da informação. O jovem Chérif Chekkat, até aí conhecido das polícias europeias por 27 condenações em 3 países europeus, tornou-se de repente um vilão ou um herói global conforme a perspetiva dos que avaliaram o seu ato tresloucado. 

Ao mesmo tempo muitas crianças encantadas ainda com os sonhos do Natal e do renascimento da esperança que ele simboliza, viram esse tempo mágico associado a morte e a sangue, a ódio e a medo. Certamente muitos deles no seu espírito sentiram vontade de pedir aos adultos como presente um mundo com mais paz e tranquilidade. 

Por cada atentado que ocorre na Europa há centenas deles que são abortados pela cooperação das forças policiais. No entanto, mesmo um atentado abortado é um sinal de mais uma pessoa ou rede radicalizados e dispostos a morrer e a matar em nome do desespero ou da manipulação.

Depois de Jesus nascer, chegaram os Reis magos guiados por uma estrela e carregados de ouro incenso e mirra. No mercado de natal de Estrasburgo ficaram os destroços de um mundo doente.

Era um mercado de natal. Para que o mundo possa voltar a celebrar sem medo os ritos do amor fraterno, temos todos que ser “magos” na nossa própria vida e ter a coragem de a encher de tolerância, aceitação do outro e defesa intransigente dos valores da liberdade com responsabilidade.

De praticar a liberdade que termina onde começa a liberdade do nosso semelhante. Em que a música se escuta sem tiros que a perturbem.
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A cultura do “deixa andar”

Há bem mais de um ano, quando foi anunciada a calendarização das cidades europeias da cultura para a próxima década e se soube que a Portugal caberia uma dessas distinções a atribuir a uma das suas cidades em 2027, lancei neste espaço o repto para que a Câmara Municipal de Évora (CME) dinamizasse juntamente com as outras instituições da cidade, do concelho e da região, uma plataforma com a sociedade civil para preparar de forma participada uma candidatura forte, inclusiva e ganhadora.

Fui então informado que já havia sido assinado um protocolo entre a CM, a Universidade de Évora e a Fundação Eugénio de Almeida com esse objetivo, o que relevei como um sinal muito positivo.  

Contudo, ao ver o tempo passar, as cidades concorrentes anunciarem patronos de relevo e planos ambiciosos voltei à carga. Algum tempo depois tive notícia da apresentação pública da intenção de candidatura no salão internacional do património cultural em Paris e mais tarde que me tenha apercebido, a assinatura de um protocolo de assistência técnica com a Entidade Regional de Turismo e a promoção no evento no quadro de festivais de curtas metragens documentais.

Braga é a cidade europeia do desporto 2018. Lisboa será a cidade verde europeia 2020. A propósito deste galardão apresentei recentemente várias emendas a uma resolução do Parlamento Europeu que propõe que 2020 seja o ano europeu das cidades verdes, potenciando assim o reconhecimento atribuído à nossa capital.

E Évora?  Como gostaria de poder usar o meu mandato para apoiar o projeto duma terra que me viu crescer e de muito me orgulho, mas a informação que me chega é sempre indireta e escassa. Recentemente a vereadora do PS Elsa Teigão deu conta nas redes sociais do resultado de perguntas feitas à câmara municipal sobre o sistemático adiamento de iniciativas previstas. Segundo aquilo que reportou publicamente, a Câmara terá dito que haverá datas mais oportunas para essas iniciativas.

Não sei quais os critérios de oportunidade na CME. O que sei é que as outras cidades concorrentes demonstram muito mais pro-atividade e dinâmica. Espero que tudo acabe bem, mas se acabar mal que não se venha a CME justificar com a Administração Central ou qualquer outra circunstância. Até agora Évora, pela atitude revelada pelo seu Município, parece mais candidata a capital da cultura do “deixa andar” do que uma candidata convicta a ser capital europeia da cultura 2027.



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