Tragédias (e as suas lições)

Portugal viveu na região centro uma enorme tragédia humana e social. Uma tragédia que me fez lembrar outra, em que por ser na altura o membro do Governo responsável pela proteção e socorro, estive profundamente envolvido  – a queda da ponte Hintze Ribeiro  em  Entre –os – Rios.

O incêndio de Pedrogão e a queda da ponte de  Entre –os –Rios foram provocados por elementos tão diferentes como o fogo e a água, mas tiveram muitas similitudes.Em ambos havia condições no terreno que amplificaram o risco, em ambos houve um fenómeno climático extremo que provocou a projeção das chamas ou a queda da estrutura, em ambos estiveram equipas de bombeiros e da proteção civil que deram tudo o que podiam para evitar a catástrofe e em ambos ficou um rasto de desolação e tristeza que implica um acompanhamento das populações em múltiplas vertentes nos próximos tempos, muito para além do dia em que os holofotes da comunicação social se apagarem.

A resposta económica e social integrada que  foi dada em Castelo de Paiva em 2001 pode servir de inspiração ao que agora deve ser feito para ajudar as populações do pinhal interior a recuperar o seu modo de vida e a vencer a angústia e a tristeza, sem nunca apagar a sua memória.

A queda da Ponte de Entre –os –Rios conduziu também à alteração de um conjunto de práticas, por exemplo na fiscalização das infraestruturas e na extração de areias, que tornaram mais seguras todas as pontes do País. Também neste caso muitas lições serão extraídas e o processo de re-ordenamento florestal será acelerado, agora talvez com mais fácil adesão das populações.  

Escrevi até agora sobre as semelhanças  entre as duas tragédias. Sublinho agora duas diferenças. Todos ouvimos referências a dificuldades de coordenação e conhecimento do terreno no combate ao incêndio. Na minha experiência na Proteção e Socorro, os Governadores Civis desempenharam um papel determinante nesse trabalho de coordenação de proximidade. Se não existissem outras, só estas funções de coordenação  justificavam a existência dos governos civis. Como sempre defendi e cada vez mais se comprova, a  extinção dos governos civis foi um enorme erro.

A segunda diferença, tem  a ver com o comportamento de alguma comunicação social. Em Entre –os –Rios verifiquei um esforço conjugado para informar sem alarmar. Desta vez, vendo tudo do outro lado, senti-me triste por ver que alguns  ansiavam por ter ainda mais coisas tristes para contar. Sinais dos tempos.

As gentes de Castelo de Paiva e dos Concelhos vizinhos ficaram para sempre gravavas no meu coração e no meu pensamento. Tenho agora bem presente o sofrimento das gentes de Pedrogão e dos outros Concelhos afetados pelo grande incêndio. Partilho com eles a minha solidariedade.  Temos que fazer tudo para que tragédias como estas não voltem a acontecer.

Comentários

Crise Humanitária - Uma questão global

Entre hoje e 21 de Junho estou a participar em Malta na 33ª Assembleia Paritária ACP – UE (Africa, Caraíbas e Pacífico  União Europeia). Um dos pontos em apreciação é a eminência do continente africano viver a maior fome e crise humanitária dos últimos setenta anos. Segundo a ONU(Organização das Nações Unidas) vinte milhões de pessoas estão a morrer à fome, se considerarmos apenas o Sudão do Sul, a Somália e a Nigéria.


A sociedade global e e sociedade europeia em particular, têm vivido com grande sofrimento e sentido solidário o recrudescer do terrorismo no seu território. Centenas de cidadãos perderam a sua vida nos últimos anos pela ação concertada e cobarde dos que querem destruir o nosso modelo aberto e tolerante de vida em sociedade.


O terrorismo na Europa e no Ocidente mais desenvolvido deve mobilizar -nos a todos para uma resposta forte, mas não nos pode fazer esquecer a tragédia humanitária que está a acontecer noutras zonas do Globo. Trata-se em certa medida de um processo de “terrorismo em massa” a que é preciso pôr cobro?


Muitas são as causas que conduziram ao que está a suceder em África e noutros pontos de globo. As alterações climáticas, as guerras, a exploração desenfreada dos recursos e a corrupção das elites são algumas delas. 


Estas causas não apagam nem anulam no entanto outros dados chocantes. A ONU diz necessitar de 5 mil milhões de dólares para fazer face imediata à catástrofe. Contudo não dispõe dessa verba, que é metade daquilo que Donald Trump anunciou cortar na contribuição dos Estados Unidos da América para as políticas de cooperação. É também apenas 10% do que se diz ser o património de Bill Gates e 1% da riqueza acumulada pelas 8 pessoas mais ricas do mundo (que conforme foi divulgado há alguns meses em Davos, acumulam mais riqueza que a metade mais pobre da população mundial).


É cada vez mais evidente que é preciso inverter o processo de crescimento brutal das desigualdades. O aumento das desigualdades entre as pessoas, as comunidades ou os territórios é o “cancro” da sociedade do século XXI. Multiplica-se de forma exponencial e se não for travado criará uma crise humanitária não apenas em África mas em todo o globo.  Temos que o tratar a tempo. Apoiar de imediato quem precisa e reduzir as desigualdades para evitar recidivas. Não podemos continuar a hesitar nesta agenda de sobrevivência para o mundo em que vivemos. 


Comentários

Turismo - Um Outro Olhar

O Turismo, nas suas múltiplas formas e variantes, é um sector que se tem vindo a desenvolver muito à escala global, nacional, regional e local, apoiado na maior facilidade de transportes e no aumento exponencial das pessoas no planeta com vontade e recurso de conhecerem novas paragens, novos costumes e viverem novas experiências. 

Em Portugal, e no Alentejo em particular, a procura turística tem vindo a subir de forma sustentada, dando um contributo cada vez mais relevante para a dinâmica da economia e o equilíbrio das contas públicas.  

Como em tudo, o desenvolvimento turístico ganhará em ser feito com conta, peso e medida, sem ganância e sem arriscar matar aqui ou ali a “galinha dos ovos de ouro”. Um turismo sustentável é aquele que se integra na vida quotidiana das comunidades e não aquele que as expulsa ou descaracteriza. 

O turismo já tem e poderá ter ainda mais relevo como uma atividade amiga da paz e da concórdia entre os povos, criada através do conhecimento e do respeito pela diversidade cultural e da afirmação das identidades que são a maior mais valia do produto turístico diferenciado.

Permitam-me uma analogia para tornar mais clara a minha ideia. Os estudos de opinião mostram que entre os jovens europeus que fizeram o programa Erasmus (parte da sua formação numa universidade de outro outro país europeu que não o seu país de origem) existe uma maior propensão para defender o projeto europeu e para valorizar a sua diversidade e contributo para a paz e compreensão entre os povos da Europa.

Isto também se aplica aos muitos milhões de cidadãos que em cada ano viajam para outro País ou continente em atividade de lazer, nas suas múltiplas dimensões. Ficam a conhecer melhor os territórios, o património mas também os povos que os acolhem

Quem acolhe também acrescenta à sua vida uma experiência rica de diversidade de práticas, culturas e formas de estar na vida.  

Numa globalização tornada irreversível pelas novas tecnologias de comunicação e de transporte de dados, capitais, mercadorias e pessoas, importa puxar pelos fatores que a podem tornar mais pacífica, gerando uma consciência global menos favorável aos conflitos e mais aberta à aceitação e à compreensão da diferença

Neste sentido, o turismo, pelo conhecimento cruzado que promove e pelos meios de vigilância que mobiliza,não é apenas uma condição para dinamizar a economia, criar emprego e promover as culturas e os costumes. É também um contributo para a paz no mundo.
Comentários

Alqueva - As lições do grande lago

A construção do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva foi uma das causas mais marcantes da minha vida política e cívica. Desde que me recordo de estar ativo na política defendi o projeto. Entre 1997 e 1999 presidi ao PROALENTEJO – Programa de Desenvolvimento Integrado do Alqueva que englobava o Programa Específico de Desenvolvimento Integrado da Zona do Alqueva (PEDIZA), motor financeiro com mais de 1000 milhões de Euros que permitiu construir a Barragem e tornar irreversível o empreendimento

Hoje, mais de vinte anos passados sobre a corajosa decisão de construir o maior lago artificial da Europa, e de quinze anos sobre o fecho das comportas, começa a gerar-se um consenso benigno sobre a oportunidade da decisão e o seu impacto positivo.

Na altura, contudo, o empreendimento tinha acérrimos detractores. Todos foram escutados, mas a decisão foi tomada. Ainda bem para a nossa região e para o nosso País. Fazer política é ter a coragem de avançar em nome das convicções e contra os medos ou os interesses instalados.

Foi assim com António Guterres, João Cravinho e muitos outros (alentejanos que os alentejanos bem conhecem) no caso do Alqueva. Pena foi que outras obras estruturantes, como o novo aeroporto ou a ligação ferroviária Sines – Europa não tenham avançado na altura como Alqueva avançou. São infraestruturas que nos fazem cada vez mais falta e que se já estivessem construídas, ajudariam ainda mais a recuperação económica a que estamos a assistir.  

Uma reportagem publicada recentemente pelo Jornal Semanário Expresso, e intitulada “Afinal, o Alquevavaleu a pena”, o autor constata que “a água de Alqueva mudou a paisagem, a forma de trabalhar a terra e a prática de gestão”, concluindo que “ o Alentejo nunca esteve tão internacional”. A suportar esta afirmação estava a demonstração de que os mais de 120 000 hectares já regados pelo sistema de Alqueva mudaram a atividade agrícola, geraram oportunidades de oferta de lazer e turismo e proporcionaram a atração de fornecedores de serviços que vão pouco a pouco enchendo os parques industriais da região e criando emprego e riqueza.  

Hoje o Alqueva já mobilizou mais de 2400 milhões de euros de investimento, produz energia, fornece água para consumo humano e rega o desenvolvimento sustentável do Alentejo, combinando agricultura, pecuária, turismo e bem-estar. Ainda bem que alguns tiveram a coragem de decidir e arriscar. O grande lago ensina-nos que dos que não arriscam escolher, não rezará a história nem aproveitará o futuro.  







Comentários

Sítios de Paz



Vivi em plena cimeira Eurolat (Europa/América Latina) que decorreu em Florença, na mesma altura da visita a Roma e a Bruxelas de Donald Trumpo impacto brutal do atentado ocorrido em Manchester, a seguir a um concerto para um público jovem. A incredulidade, a raiva e o medo percorreram a espinha dorsal da nossa sociedade. Em boa verdade, embora sem qualquer guerra declarada, não me senti naqueles dias como vivendo num território de paz.

Quis a coincidência da agenda que ao voltar a Portugal, tivesse na agenda a participação no Paço dos Henriques, nas Alcáçovas, um encontro da Rede Europeia de Sítios de Paz (ENPP - European Network of Places of Peace), de que aquela linda vila alentejana e também a vila alentejana de Évora Monte fazem parte.

Nas Alcáçovas e em Évora Monte, em momentos diferentes da nossa história o entendimento sobrepôs-se à discórdia e abriram-se caminhos mais ou menos duradouros para a convivência pacífica entre os povos. Assim foi também nos outros sítios europeus que integram a Rota da Paz em certificação pela UNESCO.

Ao dirigir-me aos participantes no encontro acentuei a minha convicção que para além dos discursos e dos apelos institucionais à paz e da necessidade de manter dispositivos dissuasores dos atos de guerra convencional ou de nova geração, é hoje cada vez mais importante embeber todas as políticas concretas dos valores que conduzem à mobilização dos indivíduos para serem os primeiros garantes da convivência saudável e da segurança entre os povos e as comunidades. 

As reações extremas de pânico, abstração ou reação “olho por olho” não promovem nenhuma solução. Precisamos reforças as identidades múltiplas com que se constrói o dia-a-dia da nossa sociedade, no plano individual, familiar, local, regional, nacional ou supranacional. Em cada medida e em cada ação têm que estar presentes os valores essenciais.

Por exemplo, que sentido faz impulsionar a nova sociedade digital europeia se nela não incluirmos as condições para o acesso inclusivo, para a proteção da privacidade, para a criação de oportunidades de criação de valor, para o reforço do orgulho de ser europeu e viver num territórios livre e potencialmente próspero?

No magnífico Paço dos Henriques, oportunamente recuperado pela ação de Bengalinha Pinto e da sua equipa, a rede liderada pelo alentejano Eduardo Basso proporcionou que um encontro de sítios de paz se projetasse daquilo que foi para aquilo que terá que ser. É um movimento que nos deve inspirar a todos. O mundo precisa de nós para continuar a ser, num perímetro o maior possível, um sítio decente para se viver.








Comentários

O Sentimento Europeu




A Comissão Europeia através da sua Direção Geral de Comunicação realizou mais um estudo aprofundado sobre o sentimento dos europeus em relação à União Europeia (UE), o seu funcionamento e as suas prioridades. O retrato foi divulgado dois anos antes da realização das próximas eleições para o Parlamento Europeu e constitui uma ferramenta essencial para compreender o que pensam os europeus e o que eles esperam de quem os representa e governa nesse plano supranacional.

 

O Estudo baseou-se numa sondagem robusta, composta por 27 901 entrevistas pessoais a cidadãos europeus com mais de 15 anos e respeitando todos os critérios de representatividade (país, género, idade, perfil socio-económico etc...) realizada em simultâneo nos 28 Países da UE entre 18 de março e 27 de Março deste ano.

 

Não é possível neste espaço sintetizar a riqueza e a diversidade dos dados obtidos. Selecionarei apenas alguns para proporcionar aos meus leitores (e a mim mesmo) uma ideia do que é hoje o sentimento europeu e das prioridades que coloca e exige aos que exercem mandatos democráticos em seu nome.

 

Para a maioria dos Europeus a instabilidade no designado mundo muçulmano é a maior ameaça para a União Europeia. Seguem-se o aumento de poder da Russia e da China, a eleição de Trump e a saída do Reino Unido da União (Brexit). Os resultados para Portugal seguem o padrão geral, apenas sendo relevante o menor peso relativo atribuído à potencial ameaça chinesa.

 

Quando a pertença do seu país à UE, 57% dos europeus consideram uma coisa boa, 26% acham que não é boa nem má, 14% são contra e os restantes não sabem. Os números de Portugal seguem a média europeia (54% consideram bom pertencer) com a nota de que havendo uma melhoria generalizada no numero dos consideram bom pertencer à UE, a subida em Portugal foi de 7%, contra 4% na média europeia.  Arrisco considerar que esta subida algo surpreendente da popularidade da UE se fica a dever ao efeito Trump, acrescido no caso português pela forma como o governo tem conseguido mitigar alguns dos impactos menos favoráveis da governação europeia. 

 

Face a estes números, o desafio que a UE tem que enfrentar e vencer para mobilizar os europeus para o seu projeto é enorme. As cinco prioridades dos Europeus são o combate ao terrorismo (80% querem que a UE faça mais do que faz) o combate ao desemprego (78%) a proteção do ambiente (75%) o combate à evasão fiscal (74%) e a integração dos migrantes (73%). Não é preciso inventar. Ou a UE faz mais nestes domínios ou perde a confiança da maioria.

 

Concluo este breve retrato, com um dado muito marcante. Em média, 84% dos europeus consideram as desigualdades uma questão importante a resolver no seu País (87% dos portugueses). Numa UE tão dividida a primeira divisão a combater é a visão entre os incluídos e os excluídos. É esse o sentimento maioritário dos europeus e como tal deve ser democraticamente respeitado

 

   

 

 

 

 
Comentários
Ver artigos anteriores...