Tomates e Ferraris

Numa recente intervenção, Capoulas Santos, Ministro da Agricultura, usou uma imagem muito forte para explicitar o grau de inovação e mudança que tem transformado todos os setores produtivos, sem deixar para trás, como muitos por vezes distraidamente pensam, o setor agropecuário. Disse o Ministro alentejano que há mais tecnologia num tomate do que num Ferrari.

Lembrei-me deste impressivo exemplo quando li recentemente noticias sobre um debate na Assembleia da República versando os impactos da agricultura intensivaproporcionada pelos novos regadios no Alentejo que resultam do extraordinário investimento que tem vindo a ser feito no Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva.

debate, pelo que li, versou essencialmente a prática do olival intensivo, mas poderia ter sido ser alargado a outras culturas que juntando sol e água, fazem surgir numa região de sequeiro e cultura extensiva e cujo ecossistemapredominante tem que ser preservadoespaços para novas culturas com elevada produtividade e valor acrescentado.

Essas novas culturas, como sublinhou no referido debate o Deputado socialista eleito pelo círculo eleitoral de Beja Pedro do Carmo “fixam população jovem e qualificada no interior do território e dão um forte contributo às exportações”.Citando no mesmo debate o Deputado socialista eleito por Évora Norberto Patinhoessas culturas têm constituído uma das respostas mais sustentáveis na luta travada pela coesão territorial e pelo desenvolvimento do interior … assegurando uma nova vitalidade e uma prosperidade sustentável”.

A avaliação dimpacto das novas culturas na qualidade dos solos, na boa gestão da água, na criação de emprego e na qualidade de vida em geral é muito oportunoe deve merecer atenção permanente. Exige um debate sério travado com bom senso e equilíbrio. Pessoalmente respeito, mas não encontro espaço viável para o saudosismo da ideia de que antigamente é que era bomnem para o vanguardismo de quem quer explorar tudo de supetão e sem avaliação de efeitos colaterais.

Se há mais tecnologia num tomate do que num Ferrari então essa tecnologia tem que ser usada para melhorar a produtividade e a qualidade das culturas e ao mesmo tempo para garantir a sua sustentabilidade e minimizar o seu impacto na sustentabilidade dos recursos. É isso que tem que acontecer e acredito que é isso que na generalidade das explorações está a acontecer.
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Crónica de uma morte (mal) anunciada

Foram muitas as crónicas de autoria diversa que nos últimos anos anunciaram a morte da esquerda progressista na União Europeia (UE). Felizmente foi um anúncio prematuro e exagerado. Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, o grupo dos Socialistas e Democratas (S&D) em que se integra o Partido Socialista Português consolidou-se como a segunda força na UE. Mais do que essa consolidação, com resultados bem melhores que os ditados pelos augúriosverificam-se sinais de renascimento em países nevrálgicos que sustentam a esperança num novo ciclo político forte para a esquerda progressista europeia. 

A confirmação da aposta da maioria dos eleitores ibéricos nos Partidos Socialistas de ambos os países, conseguida após experiências governativas corajosas e inovadoras, foi um sinal profundo e altamente significativo. No outro extremo geográfico, na Escandinávia, os trêspaíses que integram a UE (Suécia, Finlândia e Dinamarca) têm ou preparam-se para ter a curto prazo governos liderados pela social democracia nórdica, grande inspiradora da esquerda progressista de todo o mundo.
É curiosa e motivadora esta retoma política que cavalga em simultâneo pelo sul e pelo norte eque embora ainda não tenha tocado alguns dos maiores países da UE (em França e na Alemanha, por exemplo, foi através da votação pró-europeia verde e não da votação nos partidos socialistas tradicionais que renasceu a esperança) já permitiu alguns resultadospositivos e surpreendentes, como a vitória da esquerda nas europeias na Holanda e o ressurgimento do Partido Democrático em Itáliaassumindo-se como a grande oposição ao governo populista e de extrema-direita comandado pela Liga Norte.

grupo S&D obteve nas eleições europeias de 2014 cerca de 190 mandatos. Muitos prognosticaram que cairia em 2019 para menos de metade. Não caiu. Elegeu mais de 150representantes, entre os quais 9 portugueses. A morte anunciada não se consumou. Aressurreição, contudo, ainda não é certa, e exige trabalho, compromisso e qualidade política.

Os resultados obtidos criaram uma nova responsabilidade à esquerda progressista europeia na resposta aos anseios e necessidades das pessoas. A agenda portuguesa de combate às alterações climáticas, recuperação demográfica equilibrada territorialmente, transição digital justa e redução das desigualdades, como motores de crescimento e emprego, pode ser uma boa inspiração para que a morte anunciada nunca seja consumada, a bem da pluralidade e da democracia na UE.
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Invisíveis (sobre a notoriedade dos Parlamentares Europeus)

Segundo o resultado de um inquérito divulgado pelo Jornal Expresso 69% dos portugueses, quando inquiridos sobre quem são os 21 Eurodeputados portugueses não lhe ocorre um único nome. Quem seja Eurodeputado sem ter exercido antes em Portugal funções públicas e notórias, dificilmente é reconhecidopelas funções exercidas no Parlamento Europeu e pela participação na feitura de mais de dois terços de todas as leis e normas que nos regem.   
O que sinto quando me desloco por todo o Portugal, nos transportes públicos e nas ruas de Lisboa, nas vilas, aldeias e cidades do meu Alentejo ou nos bairros da cidade em que vivo não é invisibilidade nem indiferença. Pelo contrário, encontro muitas pessoasque me reconhecem, falam comigo e colocam questões normalmente com um grau de simpatia elevado. 
Também noto que muitas vezes, pelo tipo de questões que me colocam, os cidadãos e as cidadãs que me abordam sabem que eu estou envolvido na causa cívica e política, mas não identificam essa causa com o desempenho de funções no Parlamento Europeu.
Os que me identificam como Eurodeputado são aqueles que ao longo do meu mandato pude “tocar” diretamente na participação ativa que sempre mantive em debates e diálogos no quadro das escolas e universidades, do mundo empresarial, da sociedade civil em geral e do mundo partidário em particular. 
Vou continuar esse trabalho, mas tenho a consciência mesmo continuando a melhorar o índice de reconhecimento ao mesmo tempo que cumpro o meu dever, algo diferente e sistémico tem que acontecer para que os Parlamentares Europeus possam ter outra visibilidade e outra avaliação social do seu trabalho, no contexto da sociedade portuguesa.
Em particular o espaço mediático das televisões generalistas tem sido um território vedado aos que desempenham as funções de parlamentares europeus. Mesmo aqueles, e eu sou um deles, que tiveram a oportunidade de ser chamados com regularidade a comentar nesses órgãos de comunicação, foram na maioria das vezes desafiados a comentar temas nacionais e não temas europeus, se é que se pode estabelecer esta barreira.  
Não tenho uma solução mágica para os factos que enuncio. Como escrevi aqui na crónica anterior é preciso mudar a perceção das pessoas sobre a União Europeia e sobre os seus órgãos e isso só se faz com trabalho árduo que desenvolva um sentido de pertença mais forte dos cidadãos em relação a tudo o que nela se passa.
Os factos mostram-nos que quem porfia por vezes consegue mudar o tabuleiro. Vale a pena continuar a trabalhar para fazer acontecer. 

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Paixão (contra a abstenção)

As eleições europeias voltaram a ter uma elevada taxa de abstenção quer em Portugal quer na generalidade da União Europeia. Interferindo as Instituições Europeias em geral e o Parlamento Europeu em particular em mais de 75% das leis, regras e normas que enquadram a vida quotidiana dos europeus, é lamentável que eleição após eleição os níveis de participação se mantenham tão reduzidos.
Ao longo da última campanha eleitoral fui muitas vezes questionado sobre como motivar os cidadãos a votar, interessá-los pelos temas em debate, fazê-los desejar ser protagonistas do mais extraordinário projeto comum de desenvolvimento que existe no globo. 
Há muita coisa que pode ser feita no plano da técnica, da lei, do método ou do discurso para reduzir os níveis de abstenção. Convenço-me, no entanto, cada vez mais, que a chave está na perceção.  Quando falamos da nossa freguesia, concelho, cidade ou País sentimos-mos parte deles. Falamos de Portugal e temos a noção implícita ou explicita de que Portugal somos nós. Já quando falamos de União Europeia (UE) pensamos muitas vezes que a UE são eles, algo indefinido, os comissários, os funcionários, os técnicos, a máquina.
O Partido Socialista, pelo qual me voltei a candidatar ao Parlamento Europeu e que venceu estas eleições, adotou como slogan base a ideia de que Somos Europa. E somos. Por isso a Europa somos nós. Temos que gostar da Europa como gostamos de nós. Temos que sentir que o seu sucesso ou o seu insucesso é o nosso sucesso ou o nosso insucesso. Temos que ser capazes de nos apaixonar pela parceria europeia como nos apaixonamos pela terra pátria ou pela nossa terra.     
Agradeço profundamente aos portugueses e às portuguesas que confiaram em mim para mais um mandato de representação democrática. Sei que em parte a abstenção em Portugal é fruto duma ausência de fraturas que são um pilar positivo da nossa maturidade democrática. Mas sei também que outra parte é fruto da falta de paixão pelo mais extraordinário projeto de paz, liberdade e desenvolvimento sustentável do mundo em que vivemos.
Nas minhas viagens oficiais ou particulares encontro muita gente apaixonada pela UE sem que possa cumprir o sonho de um dia aqui viver.   Usei parte do mandato que agora cessa a tentar espalhar a paixão pela UE. Seguirei essa linha no próximo. A paixão é o melhor remédio contra a abstenção.  
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Simples, fácil, moderno e seguro (Sobre o piloto do voto eletrónico )

Simples, fácil, moderno e seguro
O Distrito de Évora será nas próximas eleições europeias um distrito piloto no teste de um sistema de voto eletrónico presencial. Esta medida complementa outras medidas aprovadas para facilitar o exercício do voto e que são de âmbito nacional, como o alargamento da  possibilidade de voto eletrónico no sétimo dia antes do ato eleitoral numa mesa de voto específica escolhida eleitor em qualquer sede de distrito (independentemente do local em que o eleitor está recenseado), a disponibilização de boletins de voto em braille para facilitar o exercício do voto a cidadãos portadores de deficiência visual ou o recenseamento automático para eleitores residentes no estrangeiro.    
Os meus leitores sabem como tenho feito nos meus textos um apelo forte à participação eleitoral. À expressão livre da vontade e da opinião de cada um. À celebração da festa da democracia. 
As medidas antes enunciadas e sobretudo a generalização do voto eletrónico presencial pode vir a ser no futuro um precioso auxiliar para que se torne mais fácil exercer o direito e voto em todo o País. 
É por isso uma responsabilidade ao mesmo tempo um relevante serviço à democracia aquele que o Distrito de Évora e os seus eleitores vão prestar no dia 26 de maio, ao constituir-se como um laboratório vivo para testar o sistema.
Tenho notado, no entanto, nos meus contactos com muitos eleitores, sobretudo nos mais idosos, algum receio com a novidade. Computadores na mesa de voto, perguntam, não tornarão mais complicado votarA resposta é categoricamente um não.  
Em primeiro lugar, nesta fase piloto, o voto eletrónico não vai funcionar em vez do modelo tradicional, mas em seu complemento. As mesas de voto eletrónico, em número de 50 e distribuídas por 23 freguesias dos 14 Concelhos do Distrito irão funcionar independentemente das mesas de voto tradicional que funcionarão sem qualquer alteração.
Por isso caro eleitor de Évora, se estiver numa circunstância normal e não tiver nenhuma vantagem em votar num concelho do Distrito diferente daquele em que está recenseado dirija-se normalmente ao local de voto estabelecido pela sua freguesia e vote, contribuindo para a escolha democrática e também para o aperfeiçoamento do sistema de voto, tornando-o mais amigo e adaptado às necessidades de mobilidade da vida quotidiana nos nossos dias.
Caso seja mais fácil para si votar noutra freguesia que tenha mesa eletrónica aproveite. O voto será contado na sua mesa de origem e com total segurança. Estou certo que o seu contributo para o fortalecimento da democracia alegrará a sua consciência por ter cumprido um direito e um dever de cidadania.
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A propagação do ódio

Em plena Páscoa, em várias cidades do Sri Lanka,ocorreu mais uma carnificina resultante da intolerância religiosa e cultural. Foram centenas demortos e milhares de feridos num ataque coordenado a igrejas e hotéis, numa manifestação brutal de raiva contra cidadãos indefesos. Os sinais de violência e não aceitação do outro, das suas escolhas, valores e crenças, são perigosos sintomas de degeneração no mundo em que vivemos, em que o horror se tornou banal e banalizado.
Por cada ato terrorista que ocorre muitas centenas deles são anulados ou desativados pela cooperação policial e pelas redes de segurança em todo o mundo. Como cidadãos não podemos sucumbir ao medo. Temos, no entanto, que ser capazes de retirar os terroristas do palco, de resistir ao espetáculo mediático que se propaga depois de cada evento, de não sermos cúmplices inconscientes do veneno com que nos querem entorpecer.
Não sei se os meus leitores resistiram. Eu procurei não ver nem transmitir através das redes sociais a que tenho acesso imagens desta tragédia. Já o tinha feito com outras situações similares, resultantes de ataques terroristas ou catástrofes climáticas. O direito à informação é inalienável e a ignorância nada resolve, mas uma vez conhecidos os factos, cabe a cada um de nós decidir se faz deles um foguetório mediático ou um recolhido luto.   
Os dirigentes políticos de todo o mundo e em particular dos países mais diretamente afetados pelos ataques terroristas têm apelado às empresas que gerem as redes sociais que impeçam a propagação de imagens favoráveis ao discurso e à prática do ódio e da intolerância. 
Ficou tristemente célebre a difusão online do ataque que matou 50 pessoas em duas mesquitas de Christchurch na Nova Zelândia em 15 de março e da qual resultou um vídeo de 17 minutos que foi depois amplamente divulgado online. Foi um episódio lamentável e que demonstra como estas práticas devemser reguladas e evitadas. A Internet livre é a Internet com valores e não a Internet sem regras.
Contudo, nada será verdadeiramente eficaz neste domínio se cada um de nós não for um aliado da luta contra a valorização global dos episódios terroristas ou de uma comunicação construtiva das catástrofes.
A dimensão da vitória do designado estado islâmico, que reivindicou o ataque no Sri Lanka, não se mede pelas vidas perdidas, que foram centenas, mas pelos milhões de horas em que foram notícia em todo o mundo. Triste notícia.   Temos que quebrar as cadeias de reprodução do ódio, mesmo que para isso, como neste texto, tenhamos que falar e refletir sobre elas delas.


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