As Cores do Vírus

 Uma parceria de vinte e sete Estados soberanos e democráticos não é por natureza fácil de articular. A arte política da negociação e do compromisso atingiu na União Europeiao seu expoente. A interdependência gerada tem sido um fator crucial de paz e cooperação para o desenvolvimento, mas os desafios de boa governação são cada dia mais complexos e exigentes.

 

A pandemia virulenta que irrompeu pelo mundo em 2020 colocou à prova os mecanismos de decisão e cooperação solidária da União. A parceria viu-se confrontada com a necessidade de fazer uma prova de vida, desenhando e colocando no terreno uma resposta de emergência, rápida, eficaz e respeitadora dos modelos democráticos de decisão.  

 

Embora alguns processos ainda estejam em conclusão negocial, a resposta sanitária, económica e social revelou-se mais potente do que muitos auguravam. A complexidade de implementação dos acordos conseguidos ou em finalização é enorme, mas a perceção da maioria dos cidadãos europeus de que juntos somos mais fortes, aliada à persistência do risco e da incerteza, permitirá, com mais ou menos ondulação, levar a ação comum a bom porto.  

 

No domínio da estatística e da comunicação de dados essa articulação tem revelado inusitadas fragilidades, com grave prejuízo na transparência do sistema de livre circulação de pessoas entre os Estados membros e em particular no espaço Schengen. É evidente que a situação de exceção em que vivemos obriga a restrições e a uma gestão fina dos movimentos, mas exatamente por isso as metodologias deviam ser transparentes e concertadas.

 

Não é isso que temos verificado. Cada cabeça sua sentença. Pouco a pouco os sistemas gráficos foram-se impondo para sinalizar níveis de risco dentro dos territórios ou entre eles, mas é fácil constatar que os critérios que conduzem à definição de zonas vermelhas, laranja, amarelas ou verdes não são os mesmos, gerando confusão e até insinuações de manipulação por interesses económicos ou políticos

 

O que acabei de escrever para a União Europeia aplica-se com redobrada acuidade a muitos outros espaços do globo. Nós temos, no entanto, como parceria de cidadania e valores a obrigação de dar o exemplo. O vírus, que eu saiba, não tem cor. Quando o colorimos para comunicar, não podemos aceitar que o tom seja à vontade do freguês. 

 

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