Visto de Casa (29/04j

Passados mais de quarenta dias de confinamento começa a ser difícil orientar-me no espaço e no tempo. Todas as manhãs, depois do expresso que me ajuda a despertar, agarro numa folha A4 e numa caneta de feltro e escrevo em números bem visíveis que dia é, e depois alinho a agenda fixada para esse dia. O dia acaba por nunca ser exatamente como previsto, mas assim reduzo os falsos imprevistos. 

Depois de me localizar no tempo, preciso de me localizar no espaço. Sair de casa, ligando o computador, verificando as redes, ajustando o papel da impressora. Quem de vocês não se zangou já com um computador lento de mais num momento crítico ou se agradou com uma impressora depois de uma reprodução bem conseguida? Eu também.

Hoje há reunião do grupo dos socialistas e democratas. Preparámos um longo documento negocial com aquilo que queremos ver concretizado na proposta da Comissão Europeia para o programa plurianual de financiamento, que irá até 2027, e incluirá o plano de recuperação a aplicar nos primeiros 3 anos.   

Connosco, para nos escutar e responder estará o Vice-Presidente Frans Timmermans. Timmermans é um trabalhista holandês que foi candidato do grupo à Presidência da Comissão Europeia. A sua intransigência corajosa com os atentados ao estado de direito na Hungria e na Polónia valeu-lhe um veto político dos conservadores, que jogaram nesse veto também a sorte do seu candidato Manfred Weber, o tal que queria sanções para Portugal em resultado de uma pequena desconformidade do déficit na crise anterior. Do braço de ferro emergiu Úrsula Von der Leyen, a alemã que até agora não se tem saído nada mal no seu desempenho. Que assim continue.

Quando tiver a palavra vou dizer a Timmermans coisas que já aqui partilhei convosco e que são acervo da delegação socialista do PS no Parlamento Europeu, à qual presido. Não queremos lições de moral e muito menos condicionalidades baseadas em julgamentos morais. Não aceitamos cortes nas políticas de proximidade. Queremos dinheiro fresco nas novas políticas. É preciso equilibrar a sustentação da oferta com a recuperação da procura. O pacto ecológico europeu não passou de moda, só que agora tem que juntar aos indicadores ambientais, também os indicadores económicos e sociais. E não são necessariamente contraditórios.  

Em articulação com o Governo e os parceiros sociais, o Presidente da República anunciou que o Estado de Emergência não será renovado. Entrámos num novo contexto, em que cada um de nós tem a obrigação de assegurar a sua proteção individual e ser um agente da proteção coletiva. 

É um cenário perfeito se não houver desobediência reiterada, e complexo se houver. Além de continuarmos muito atentos ao COVID19, temos agora que ter um olho nos potenciais agitadores. Até amanhã, com muita saúde para todos.          
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