A Agenda do Concreto

Por todo o mundo, com algumas honrosas exceções os Partidos tradicionais e designados como de regime, têm vindo a ser fortemente confrontados pela emergência de partidos populistas que capturam o sentimento popular para conquistar um poder que depois usam em agendas que raramente têm a ver com os interesses daqueles quemobilizam para se fazerem eleger.  

A emergência do populismo tem múltiplas razões e justificações. Sobre ela têm sido publicados múltiplos artigos, livros e estudos e realizados não menos seminários e conferências. Neste texto abordo uma razão, que embora lateral, emerge dos muitos contactos que faço com os eleitores, como relevante para facilitar a vida aos populistas.

Existe uma não sintonia de agenda entre os partidos que assumem os temas da modernidade e aquilo que preocupa no dia-a-dia o cidadão comum. Os temas e os problemas estão profundamente interligados mas a perceção dessa relação é frágil por parte de um número muito significativo de eleitores.

Os partidos democráticos modernos assumem cada vez mais agendas civilizacionais que são determinantes, ligadas às questões climáticas, às questões da igualdade de género ou às questões colocadas pela digitalização da economia e da sociedade, entre muitas outras.

São temas decisivos, mas que para muita gente não ganharam ainda a relevância merecida, porque legitimamente sentem que não têainda as respostas desejadas para as agendas tradicionais, como o emprego, a educação, a saúde, a justiça ou a segurança. 

As novas agendas permitem novos olhares sobre os velhos problemas, e são uma componente substantiva da sua possível solução, mas se não forem bem comunicadas geram nos eleitores uma ideia de abandono e desinteresse sobre os seus problemas concretos.

Neste ponto, interessa refletir sobre os excelentes resultados do Partido Socialista no atual ciclo político.Porque tem o PS conseguido ser uma das exceções à regra no plano nacional e internacional? Terá abandonado a agenda da modernidade? Bem antes pelo contrário. Os grandes avanços nos domínios dos temas de civilização em Portugal têm sido liderados pelo Partido Socialista.

O que o Partido Socialista tem conseguido é juntar a essa agenda, outra bem mais direta e focada no dia a dia dos cidadãos como a reposição de direitos e rendimentos, a criação de oportunidades de emprego e a melhoria dos serviços de proximidade. A agenda do concreto tem feito a diferença, não apenas para a aceitação da agenda direta, mas para a confiança na globalidade do projeto político proposto.

O povo sabe o que lhe interessa. Os partidos têm que saber mostrar que para responder aos anseios dos seus eleitoresexistem hoje caminhos novos, que sendo diferentes, são também mais eficazes para resolver os problemas que eles sentem como prioritários.    


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