Soares é Fixe (Uma Homenagem)

Nota Prévia: Este texto será publicado na minha coluna semanal do Diário do Sul de segunda -feira e foi escrito dia 4 de janeiro. A morte de Mário Soares não lhe retira atualidade. Divulgo-o aqui como uma sentida homenagem.


Escrevo este texto num momento em que Soares ainda está entre nós, em coma profundo, mas com todas as funções vitais, segundo o boletim clinico oficial. Está entre nós fisicamente, mas já não em consciência, como referiu de forma emocional o seu sobrinho Eduardo Barroso.

O homem poderá regressar à consciência ou partir, mas aquilo que significou e significa Mário Soares para Portugal e para o mundo jamais se apagará do coração de muitas portuguesas e de muitos portugueses e dos registos mais brilhantes da História de Portugal, da Europa e do Mundo.

Irreverente, lutador, determinado e com valores e princípios sólidos, Soares afirmou-se como o grande líder político da segunda República. O 25 de Abril foi obra de muita gente, mas Soares deu-lhe um contributo impar, ao denunciar com coragem a ditadura, ao percorrer o mundo em busca de apoio para o novo regime e ao defendê-lo das tentações totalitárias que o ameaçaram.     

Nem sempre concordei com as posições de Mário Soares, mas mereceram-me sempre um enorme respeito. Não estivemos do mesmo lado no combate presidencial Eanes / Soares Carneiro em dezembro de 1980, nem no referendo sobre a regionalização em novembro de 1988, mas em tudo o mais no seu percurso político, partilhei a mesma visão e o mesmo sonho de Soares, com momentos de maior ou menor proximidade tática e operacional, como é próprio da convivência num grande partido democrático como é o Partido Socialista (PS).

Jamais esquecerei o dia 25 de Abril de 1975, em que o povo como uma alegria imensa consolidou nas urnas um modelo de democracia pluralista e atribuiu a primeira grande vitória democrática após 48 anos de ditadura, ao PS e a Mário Soares.

Recordo ainda com comoção a vitória de Mário Soares na segunda volta das Presidenciais, em que defrontou e venceu Freitas do Amaral no dia 16 de fevereiro de 1986, como um dos momentos mais felizes e entusiasmantes da minha participação cívica e política. Durante toda a campanha e nessa noite em particular gritei como muitos milhares de outros amigos que Soares era fixe.

Nenhum homem é perfeito, mas enquanto agente cívico e político Soares sempre foi fixe e sempre será fixe na memória de quem com ele travou as duras batalhas pela liberdade, pela igualdade e pela solidariedade em Portugal, na Europa e no Mundo.

No momento em que finalizo este texto Soares luta entre a vida e a morte. A sua vida, contudo, aconteça o que acontecer, já está gravada a letras de ouro na nossa história e na nossa memória. Soares é fixe.
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