Jesus Comendador

Amanhã ao fim da tarde em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e Grão-Mestre da Ordem do Infante D. Henrique, irá condecorar com a referida ordem, Treinador de Futebol Jorge Jesus “pelo prestígio que o seu trabalho como treinador lhe granjeou, bem como a Portugal”. 
É uma decisão acertada. Sempre tive simpatia por Jorge Jesus enquanto cidadão e profissional. Ainda jovem, cruzei-me com ele quando jogou no Juventude de Évora e eu espraiava o meu pouco talento e muita vontade no vizinho Campo Estrela, campo do rival Lusitano Ginásio Clube.
Segui depois a sua carreira, que para meu desgosto teve um fracasso relativo na passagem pelo meu clube do coração, o grandioso Sporting Clube de Portugal. A sua ingratidão à maioria dos adeptos sportinguistas que sempre estiveram ao seu lado, mesmo nos momentos complexos de Alcochete, foi para mim, que nas coisas da bola não reivindico nenhuma racionalidade na minha análise, o ponto mais baixo da sua extraordinária carreira.
Nos dias seguintes ao anúncio de Marcelo confrontei-me com várias pessoas que questionavam a atribuição da comenda, normalmente devido às dúvidas levantadas pelo meio através do qual Jesus granjeou prestígio próprio e para o seu País. 
São pessoas que consideram o Futebol Profissional uma atividade menor, corrompida, destituída de arte e cultura, enxertada na sociedade como um “ópio” dos tempos modernos. É um pouco isso e também o seu contrário, como quase tudo o que mexe com interesses financeiros brutais e globais.
Temos a perceção de que a atribuição de condecorações de Estado se banalizou excessivamente. Quando por vezes me assalta essa sensação,  sobretudo por altura do 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tenho por hábito ler as notas biográficas dos distinguidos e na grande generalidade tenho encontrado bons motivos de distinção e mérito, com focos e visibilidades distintas e perfis que naturalmente devem constituir uma amostra e apenas isso, do povo que nos orgulhamos de ser.
Recentemente debateu-se a hipótese de retirar comendas a personalidades que por atos posteriores demonstraram não estar à altura da distinção recebida. Esse deve ser o procedimento se se descobrirem factos não conhecidos à data atribuição e que a invalidariam se conhecidos. Já quanto a factos posteriores, talvez baste a anotação de que o ilustre dignatário não foi digno do reconhecimento.   
Mas quanto ao novel comendador Jorge Jesus, a propagação do prestígio da arte e da técnica de dirigir uma equipa de futebol, com tudo aquilo que isso envolve, associada a uma afirmação plena da cidadania e da honra de ser português e fazer parte da sua“escola” futebolística, justifica bem a distinção, mesmo que a sua estrela não volte a subir tão alto como este ano subiu. E oxalá suba.  
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