Visto de Casa (14/04)

Depois dos epidemiologistas, dos infeciologistas, dos economistas, dos sociólogos e de muitos outros especialistas, chegou agora o tempo dos filósofos também se chegarem à frente com a sua a sua visão sobre o que nos está acontecer e de com a partilha dos seus contributos para nos prepararmos o dia seguinte.


No “Le Monde” de sábado, o famoso filósofo alemão Jurgen Habermas recordou que a proteção da vida se impõe não apenas no plano moral, mas também no plano jurídico e pode estar em conflito com lógicas de cálculo utilitaristas. Para Habermas os direitos fundamentais interditam às instituições do Estado a tomada de decisões que se resignem, em relação àperda evitável de vidas. 

Habermas afirmou estes princípios para criticar algumas posições menos solidárias de alguns governos, incluindo do seu, e fundamentar a ideia de que só um núcleo duro capaz de apresentar soluções concretas para resolver os problemas das pessoas pode salvar o projeto europeu e combater ao mesmo tempo os populismos e os autoritarismos emergentes.  Concordo com ele.

Ontem no Público, o filósofo português José Gil derramou um balde de água gelada sobre as visões idílicas acerca dos impactos transformadores da pandemia. Para ele, a pandemia é a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há mais de dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas e estamos a viver uma crise de transição entre o capitalismo industrial-financeiro e o capitalismo numérico (digital diria eu). 

Em síntese, a mensagem de Gil é que não nos estamos a transformar com a tomada de consciência da crise, mas sim a adaptar-nos para outra forma de vida em sociedade, mas com os mesmos vícios e desigualdades que nos conduziram até aqui.
Não sou determinista. O futuro somos nós que o fazemos acontecer. Pensemos um pouco sobre as palavras dos filósofos, para definirmos uma filosofia de vida que nos realize e faça felizes.

Embora nada seja mais atual e concreto que a boa filosofia, tem vindo a ganhar relevo o debate na sociedade portuguesa em relação ao prazo até quando se deve manter o Estado de Emergência. É um debate normal e saudável.
Para ele contribuo com umas notas breves. O Estado de Emergência sem suspensão democrática, como é o nosso, serve sobretudo para que todos assumam agravidade do momento. Em cada renovação podem ser acrescentadas ou aliviadas restrições. A discussão que importa é mais prática do que jurídica. O Problema não é o Estado de Emergência. É a emergência. Se ela se esvair também as restrições se esvairão. Até amanhã a todos, com muita saúde.    
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