A aceleração do tempo

Mudou o ano num tempo de mudança como foram todos os tempos. O tempo que agora vivemos é no entanto um pouco mais do que um tempo de mudança. A aceleração tecnológica quebrou barreiras de espaço e distância e redefiniu a percepção do tempo. Por isso,mais do que num tempo de mudança, vivemos numa era marcada pela mudança do que significa o tempo e de como ele influencia as nossas vidas.

Há muito tempo que sabemos que o tempo é feito de mudança e que a mudança é o estado normal nos tempos modernos. Mas agora o que está a mudar é a aprópria noção do tempo. Do tempo necessário para fazer uma viagem, responder a um desafio, decidir sobre uma questão, aceder a uma informação. Cada vez mais, corremos atrás do tempo em vez de o fruirmos como uma plataforma para a experiência maravilhosa da vida e dos seus ciclos.

Todas as próteses cognitivas (ou parafernália de recursos tecnológicos) que foram desenvolvidas para nos dar mais capacidade de resposta e portanto mais tempo, acabaram por exigir maiores volumes de resposta e proporcionalmente reduzir o tempo que temos disponível para nós, sem o jugo dos novos critérios de tempo para trabalhar e até para o lazer ou para a interação.

Nem todos fomos arrastados na vertigem do tempo, e mesmo aqueles que pelas suas responsabilidades e funções não lhe podem fugir, estão cada vez mais a procurar estratégias de escape pontual, numa luta difícil contra as poderosas forças de atração para o vórtice da aceleração.

Na última semana do ano muitos de nós, tomados pelo espírito festivo do Natal e da transição do ano, conseguimos desacelerar a correria (ou transferi-la para outras veredas como a visita aos amigos e familiares, a compra de prendas ou a troca de mensagens) e tomar consciência de como a aceleração do tempo está a mudar as nossas vidas, tornando-as mais diversas e eventualmente produtivas, mas nãonecessariamente mais gratificantes e felizes. 

Este texto é produto da minha desaceleração relativa no final do ano. Foi sol de pouca dura mas que inspirou reflexão que agora partilho. Vou acelerar de novopara mais um ano de extraordinários desafios, mas espero conseguir fazê-lo de forma diferente.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” escreveu Camões. Sinto uma enorme urgência em mudar a minha relação com o tempo. E vocêSe aceita um desafio de amigo, pense no tempo e na forma como o vive e se possível use-o em vez de se deixar usar por ele. Eu prometo que vou tentar.



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