Brasil - A Dupla Face

Ao longo das últimas décadas tive várias vezes a oportunidade de visitar o Brasil, em trabalho académico, em missões políticas de diferentes origens e pontualmente em lazer. A minha admiração por este grande País de dimensões continentais é enorme. Embora o Brasil viva hoje momentos muito conturbados, acredito que a profecia de Stefan Zweigquando em 1941 publicou o seu livro Brasil - País do futuro, acabará por se concretizar.

Entre 29 de Outubro e 2 de Novembro voltei a visitar o Brasil, mais concretamente a sua capital Brasília e o Rio de Janeiro, integrado numa delegação do Parlamento Europeu particularmente focada em avaliar e apoiar a conclusão rápida do acordo de associação entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Esse acordo, em negociação desde 1999, se for agora finalizado criará a mais potente parceria global para o livre comércio, a cooperação e o desenvolvimento sustentável do globo, envolvendo 32 países e 750 milhões de cidadãos.    

O Mercosul, criado em 1991, engloba o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai (a Venezuela tem a participação suspensa). Nele, o Brasil representa um papel similar ao que a Alemanha desempenha na UE. Pela sua dimensão e peso económico e demográfico é o navio almirante. Um navio que navega em águas tumultuosas e que pode correr riscos que lembram o tristemente célebre naufrágio do Titanic.

A crise mundial nos mercados das matérias – primaslevou para as ruas uma parte significativa do povobrasileiro e revelou uma ponta assustadora de um enorme iceberg de corrupção no sistema político brasileiro, com ligação a todas as outras áreas estruturais da sociedade. Em reação a esse movimento popular as elites económicas brasileiras assumiram o controlo político do País e a concentração de riqueza voltou a aumentar. Se nada mudar, mais cedo ou mais tarde o povo voltará às ruas, sufocado pelas desigualdades, pela pobreza da maioria e pela insegurança de todos.

O Brasil precisa de concretizar reformas urgentes no seu sistema económico e social e também no seu sistema político. O acordo de associação do Mercosul com a União Europeia pode ajudar a revelar a face boa desse processo, porque permitirá conjugar a necessidade de melhorar a competitividade, com o respeito pelas cláusulas de direitos humanos e de desenvolvimento sustentável, que são a marca da UE e de todas as parcerias que ela integra.

O Brasil é hoje um país de dupla face. O mundo precisa que nele triunfe a face boa. Que seja o País do carnaval, do samba e também da educação, da criatividade e da participação digna de todos no trabalho por um futuro melhor. O País do Futuro acontecerá mais facilmente se a parceria do Mercosulcom a UE se tornar finalmente realidade. Acredito nisso e por isso nisso me tenho empenhado totalmentecomo Parlamentar Europeu, vice-presidente da delegação UE/Brasil e membro da delegação UE/Mercosul.

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