Cidadãos do Mundo (artigo publicado na revista Frontline de Fevereiro)

Os portugueses são por natureza cidadãos do mundo. Temos espírito de aventura e de descoberta. Gostamos de viajar, de conhecer outros territórios e outros povos e de fazer de cada sítio a nossa terra e o nosso espaço.

Ao longo da nossa história a diáspora portuguesa sempre foi forte e pujante. Um pequeno País do extremo oeste do continente europeu espalhou a sua marca e a sua cultura por todo o globo. Fernando Pessoa traduziu com particular mestria esta nossa dimensão global e esta nossa diferente forma de ser e de pensar, dizendo que a “nossa pátria é a língua portuguesa”.

Desde os primórdios até aos nossos dias existiram sempre razões económicas a impulsionar o nosso espírito aventureiro, além de razões de fé ou de identidade.
Portugal sempre foi e ainda é um território pequeno para a ambição e os sonhos do seu povo. Portugal foi assim acontecendo ao longo da história nas sete partidas do mundo. Mais recentemente muitos dos nossos jovens, apoiados em programas nacionais ou internacionais de intercâmbio viveram experiências de trabalho lá fora. Alguns voltaram mais confiantes e cosmopolitas. Outros tornaram-se mais um pedaço de Portugal fora do retângulo físico da Nação portuguesa.

Esta visão idílica do povo viajante tem também o outro lado da moeda. Nalguns períodos da nossa história governos sem estratégia nem projecto para o País usaram a capacidade cosmopolita e a abertura à diferença dos portugueses para suprir as suas insuficiências e as suas incapacidades de governação.

Exemplo mais recente, no século XX o Estado Novo não só incentivou a emigração em massa como sobreviveu em grande parte devido às remessas dos emigrantes. Ao mesmo tempo, exportando as nossas gentes para a indústria e os serviços lá fora, pode manter o atavio interno e asfixiar a sociedade portuguesa num fechamento ideológico e económico cuja factura ainda estamos hoje a pagar.

O actual governo parece querer seguir na mesma peugada. Desistir duma agenda de crescimento e emprego interna e aconselhar os portugueses a emigrar. É um erro político, económico e social colossal.

Os portugueses são cidadãos do mundo mas não são carne para canhão. É um Portugal forte que dá força a visão aberta e cosmopolita da nossa presença no mundo. Doutra forma seremos vagabundos do desnorte político.
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