Visto de Casa (19/04)

Falo com muitos amigos que se lamentam de não terem feito antes, coisas que agora devido às regras e ao contexto, não podem fazer. Quem não se queixa do mesmo. Temos, no entanto, a esperança de um dia voltarmos a fazer que agora não é permitido, se possível a dobrar para nos vingarmos. 

Dei comigo a pensar que no plano metafórico este confinamento é uma morte coletiva. Uma morte em que cada um de nós também participa na esperança de renascer. Quando a morte real surge, e ela pode surgir a qualquer momento e pelas razões mais inesperadas, não há tempo de vingança. Pensemos nisto.

Ontem participei numa conferência virtual integrada no ciclo “Ossonoba Digital Live” animada por cidadãos do Algarve, com uma sala cheia vinda de vários pontos do País e não sei se alguém vindo de fora dele. Hoje participo num debate transfronteiriço promovido pelas Juventudes Socialistas de Portalegre e da Extremadura. Estando em casa estou em todo o lado, ou pelo menos tenho essa ilusão.

No debate de ontem foram muitas as questões que me foram colocadas e que retratam aquilo que preocupa mais diretamente as pessoas. Não me surpreenderam.
Vai a União Europeia ser eficaz e solidária no combate à pandemia e no plano para recuperarmos a economia e a sociedade depois dela? Continuaremos a ser uma democracia? Como podemos ser eficazes a combater o vírus sem devassar-nos a privacidade das pessoas como fazem as sociedades autoritárias? Os serviços públicos que estão a responder com eficácia a partir de casa devem voltar às repartições? Como salvaguardamos a saúde mental das pessoas em confinamento forçado, sobretudo dos idosos para os quais essa restrição é mais forte e será eventualmente mais prolongada? Como preparamos os professores para os novos desafios da educação, que mesmo voltando a ser presencial nunca mais deixará de estar ligada às máquinas? Regiões mais fortes poderiam ter ajudado a responder melhor à ameaça? E se houver mais transferência de soberania para uma cooperação reforçada na saúde, não se esvaziarão de vez as competências territoriais? 

No parágrafo mais longo desde que escrevo este diário, sintetizei as perguntas que me vieram agora à cabeça. Foram muitas mais, mas este apanhado chega para mostrar a consciência que as pessoas têm da complexidade dos desafios com que estamos confrontados.

Respondi a todas as questões, mais ou menos detalhadamente em função da sua proximidade com a minha área de formação e de intervenção. De tudo o que disse, replico aqui algo que eu sei que não é popular, mas é fundamental.

Todas as questões críticas exigem respostas políticas. Nenhuma resposta política se poderá concretizar sem conhecimento forte e capacidade técnica, mas de nada servirão a capacidade técnica e o conhecimento se a abordagem política for errada. 

Em democracia as escolhas políticas são o resultado da nossa participação e cidadania. Se todos exercermos com nobreza a política, as escolhas serão melhores e a nossa vida também. Até amanhã, com muita saúde para todos.
  

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