Visto de Casa (28/04)

A política quando exercida com nobreza é uma arte bela e que serve os povos. A construção passo a passo da resposta europeia à pandemia, ainda longe de terminada, tem sido um do mais desafiantes e fascinantes processos de negociação política em que estive envolvido em toda a minha vida.  

As cimeiras e os plenários servem para definir grandes linhas condutoras, mas usando uma expressão de que não gosto porque me recorda invocações recentes na política portuguesa, “o diabo pode estar nos pormenores”, e por isso é preciso um trabalho muito atento para o descobrir e esconjurar. 

Num Parlamento com mais de 700 eleitos e num grupo com quase duas centenas de membros, nem todos são almas boas. Acredito aliás, que os melhores parlamentos em democracia representativa, são aqueles que refletem a sociedade de que emergem e não há sociedades perfeitas. Longe disso.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, é gratificante o trabalho de defesa daquilo em que acreditamos, de construção de alianças para conseguir avanços que são importantes para quem nos elegeu, de definição de limites ou linhas vermelhas inspiradas nos valores, nos princípios e nos compromissos que assumimos.

Até à apresentação, prevista para 6 de maio, do plano plurianual de financiamento da União Europeia 2021/2027, incluindo o plano solidário de recuperação a ser aplicado nos primeiros 3 anos, cada dia, cada hora e cada minuto vão ser vividos numa intensa teiade negociações, em que cada formiga conta e cada cigarra desconta.

É assim na discussão do pacote global, mas também na reinterpretação de políticas em fase de lançamento ou em revisão. Foi o caso, por exemplo, do debate ontem travado sobre a forma de incentivar a melhoria da performance energética dos edifícios. 

Quando concebido inicialmente, como parte do pacote mais vasto para a energia limpa e para a descarbonização, a importância que a renovação dos edifícios poderá ter na recuperação do setor daconstrução civil e da indústria a ela associada, mantendo empregos e criando riqueza, não foi tãovalorizada como é agora. Nem a sua valência para combater a pobreza energética e melhorar as condições de habitação dos mais desfavorecidos.    

E quanto à pandemia? Tudo indica que vamos começar a ser progressiva e cautelosamente desconfinados, mas também é claro que nãopassaremos diretamente do inferno ao céu. O vírus veio passar o Carnaval e gostou. Estagiaremos no limbo como mascarados. Até amanhã, com muita saúde para todos.
Comentários
Ver artigos anteriores...