Ética Financeira

Poucas coisas mudaram tão vertiginosa e descontroladamente nas últimas décadas como os mercados financeiros. Exemplo disso, é que muitos sorriram quando Bob Hope proferiu a célebre afirmação de que um banco é uma “instituição que empresta dinheiro a quem dele não precisa.”

Foi uma definição tão assertiva que entrou no léxico comum e se tornou emblema duma prática criativa e fervilhante, de que o exemplo mais evidente foi a inversão da lógica no mercado hipotecário americano, onde se começaram a vender casas a quem delas não precisava, como suporte para emprestar dinheiro para gasto imediato ancorado em potenciais ganhos futuros.

A crise actual tem uma explicação simples. Algumas pessoas começaram a precisar mesmo de dinheiro e alguns bancos começaram a precisar de liquidez para solver os seus compromissos. Ora o sistema não está desenhado para emprestar a quem precisa, mas sim para capitalizar quem não precisa. Face a este contra ciclo, o efeito dominó fez-se sentir e o medo tomou conta dos mercados.

Se estamos em contra ciclo precisamos de políticas inovadoras. Nenhuma solução milagrosa será no entanto viável sem uma mudança radical na ética financeira.

Temos que voltar a discutir os fundamentos do sistema financeiro e em particular o que é e para que serve um banco. A prática bancária foi durante muitos séculos considerada usurária e pecaminosa. De repente, com a abertura comercial e o progresso industrial, o sistema financeiro passou a ser o motor impulsionador das novas ideias e dos novos projectos, rigorosamente analisadas e tendo em conta níveis comportáveis de risco.

A euforia financeira esbateu o rigor, tornou opaca a análise de risco e blindou as posições dos gestores financeiros, através duma cortina de fumo de remuneração dos capitais que não permite conhecer a fundo a textura do modelo que a gera.

A recuperação económica é possível, necessária e urgente. Sem ética financeira, no entanto, será frágil e volátil.
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