30+30+30+30 = 31 (o novo desafio dos incêndios florestais)

Todos os que algum dia tiveram que lidar com fogos florestais no contexto mediterrânico sabem que a conjugação de 3 fatores meteorológicos chave, com a temperatura acima de 30 graus Centígrados, o vento acima de 30 Km por hora e a humidade relativa abaixo de 30 por cento, constitui uma conjuntura altamente favorável à deflagração e à propagação e incêndios, sejam eles devidos a ignições naturais ou a ignições provocadas por pessoas, devido a comportamentos negligentes ou criminosos.    

Nessa conjuntura, a prontidão e a concentração operacional dos meios de combate são essenciais para eliminar em fase precoce um número elevado de ignições e não permitir a criação de um quadro de combate com elevados períodos com incêndios fora de controlo.

Os Bombeiros portugueses e todos os que com eles trabalham sabem isso e ao longo dos anos com maiores ou menores dificuldades foram combatendo o flagelo, ainda que o despovoamento e a descaracterização da floresta se tivessem vindo a tornar adversários cada vez mais temíveis.    

Este ano, os factos ocorridos até ao momento em que escrevo este texto, parecem anunciar a chegada de um novo 30 (gerando um 31 para usar uma linguagem popular). As condições antes referidas, que todos os anos se verificavam pontualmente, uns dias aqui e outros dias ali, passaram a ser quase uma normalidade meteorológica, tendo-se verificado certamente em mais de 30 dias em muitos locais.

A conclusão parece evidente. As alterações climáticas mudaram o quadro em que tem que se combater os incêndios florestais. Só Super-homens podem resistir à pressão e à exaustão de dias e dias consecutivos de combate em condições altamente desfavoráveis e os nossos Bombeiros foram-no muitas vezes. 

O governo, os autarcas, os bombeiros e as populações têm feito tudo o que podem, incluindo a declaração de uma calamidade preventiva que facilita procedimentos sem eximir responsabilidade de seguradoras e outros agentes.

Mas este novo dado climático exige já para o próximo ciclo dois movimentos complementares. Uma adaptação do dispositivo de combate e um reforço profundo da prevenção estrutural, incluindo a reforma do ordenamento florestal. Esse processo já foi iniciado e nenhum abrandamento de pressão o deverá fazer parar, pois para o ano teremos muito provavelmente um novo 4x30 e temos de evitar que essas condições  voltem  a dar origem a um 31 para as nossas gentes e para o nosso território. 


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