O Eurostat e a “Estatística Política”

A Política enquanto arte e ciência de gestão da Polis, recorre para melhorcompreender, explicar e agir, a todas as outras matrizes conceptuais de leitura científica ou empírica da realidade social e económica. É neste registo que se têm desenvolvido, sem procurar ser exaustivo, campos do saber tão interessantes como a economia política, a sociologia politica, a psicologia politica ou a filosofia politica, todas elas afluentes da mais integradora ciência política.

Coisa diferente são as ferramentas que se aplicam na análise qualitativa ou quantitativa da realidade, que englobam as técnicas de análise de conteúdo ou medição de tendências cujo objetivo deve ser informar a tomada de decisão política de forma objetiva.

Que esta separação ideal de campos é muitas vezes quebrada já todos sabemos há muito tempo. A brutal manipulação política engendrada pela Cambridge Analytica (CA) a partir de perfis de utilizadores do Facebook é a mais recente prova de como as ferramentas, mais do que instrumentais à decisão se tornam por vezes nos seus motores e condicionantes.

Neste texto abordo esta problemática do uso político das ferramentas técnicas com um exemplo bem mais simples do que o emaranhado complexo da distorção eleitoral provocada pela empresa antes referida em decisões tão importantes como o Brexit ou a eleição do Presidente dos Estados Unidos da América. Refiro-me à decisão do Eurostat (Gabinete de Estatísticas da União Europeia) de considerar para o déficit de 2017 a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), transformando o déficit real mais baixo da Democracia portuguesa (0,9% do PIB) num indicador nominal a roçar os limites impostos pelo tratado orçamental (3.0%).

O impacto efetivo da decisão é pequeno. Os investidores sabem que o que mede a saúde estrutural da nossa economia são os 0,9% e não os 3%. A decisão do Eurostat configurou uma ação de “Estatística Política” dando corpo a uma mensagem ideológica que decorre do facto da maioria política nas instituições Europeias ainda ser neoliberal e não privilegiar a propriedade pública da banca.

A recapitalização da CGD é um exemplo lapidar de uma ação conjuntural que não deveria ser considerada numa estatística estrutural. Mais estruturais serão algumas das consequências da salvaguarda da solvabilidade de alguma banca privada em Portugal, como os recentes prejuízos anunciados pelo Novo Banco bem comprovam.

Portugal, crescendo com rigor, conseguiu uma folga que torna a “punição” do Eurostat pouco mais do que simbólica, mas ainda assimincorreta e dispensável.
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