A Dança dos Comissários - dez dias que abalaram a EU (texto publcado no Expresso de 11/10 - pg39




 

O Parlamento Europeu conseguiu no início do actual mandato duas vitórias históricas. A primeira vitória consistiu em ter "imposto" como Presidente da Comissão Europeia Jean Claude Juncker, o candidato a presidente apoiado pelo grupo político que obteve mais votos no escrutínio popular realizado nas eleições europeias. A segunda vitória foi ter obtido um compromisso com um ambicioso programa para o mandato de Juncker, que prefigura o início de um novo ciclo de recuperação e mobilização na Europa dos 28.  

 

O Conselho Europeu e a Comissão cessante poderiam e deveriam ter aproveitado este novo fôlego para dar um impulso de esperança e acção conjunta à UE. Infelizmente não o fizeram. Valorizaram mais a sua "derrota" institucional que a vitória duma nova forma de olhar o futuro, mais próximo dos cidadãos e das suas necessidades.

 

A fraca qualidade média dos Comissários indigitados e as dúvidas de caracter ético ou de conflito de interesses que sobre muitos impendem constituem, na minha perspectiva, uma tentativa de travagem das prioridades expressas pelo Parlamento Europeu e pelo Presidente da Comissão.

 

Durante dez dias o mundo (diria antes, o pequeno mundo que ainda segue estas questões determinantes para o nosso futuro comum) assistiu ao desfilar de audições de Comissários, muitas das quais verdadeiramente surrealistas, ou porque os inquiridos não tinham a preparação e a experiência mínima exigível para se ser um bom Comissário Europeu, ou porque tendo essa preparação foram colocados em pastas cujo conteúdo não dominavam ou dominavam excessivamente (possível conflito de interesses).

 

No meio da volatilidade, duas questões chave permanecem como referências para compreendermos o que podemos esperar das instituições europeias nos próximos anos.

 

Em primeiro lugar, resistirá a ambição de liderar o crescimento verde e azul expressa por Juncker a um contexto de predominância de comissários que acreditam que o equilíbrio das contas públicas se consegue com cortes e ajustes nominais e não com a promoção de economias saudáveis? Resistirá ainda ao contravapor da Comissão cessante que, para usar um exemplo marcante, não se coíbe de analisar o apoio em fim de mandato à construção de novas centrais nucleares quando Juncker propõe uma União que seja líder global nas energias renováveis?

 

Em segundo lugar resistirá a prioridade dada por Juncker ao crescimento e ao emprego, aos falcões da austeridade que, tudo leva a crer, assumirão a coordenação transversal da política monetária na nova Comissão?

 

O que ficará depois do "tsunami" com que o Conselho quis arrasar o acordo alargado para o novo ciclo que se traduziu na eleição de Juncker?

 Saberemos em breve. Os comissários não "dançam com lobos" nem bailam entre si. Dançam connosco, com as nossas vidas em concreto, com a nossa qualidade de vida, com o futuro dos nossos filhos e com o futuro da Europa e do mundo. Podem ser frouxos mas não são irrelevantes. Ficarmos atentos ao uso que será dado às escolhas que fizemos é um dever.

 

 




Comentários
Ver artigos anteriores...