"Vida Inacabada"

Por estas alturas de estio costumo partilhar com os leitores crónicas mais intimistas, nascidas duma análise menos epidérmica da realidade e fruto do reencontro com nós próprios que os períodos de férias tendem a proporcionar. É nesta “categoria” mais pessoal que este texto se enquadra.

O ano que agora termina (seguindo um calendário político e académico) não foi para mim um ano fácil, como aliás também não o foi para a generalidade dos portugueses. Revejo-o como se tivesse sido um pedaço mais escarpado da escalada da vida e sinto-me gratificado por saber que estou agora num patamar mais sólido do meu crescimento pessoal.

Mas ao fazer esta avaliação, absolutamente subjectiva, e ao perceber como as dificuldades nos ajudam a crescer e como os passos lentos são bem mais difíceis do que a corrida desenfreada, destapo a questão chave do sentido da vida, da necessidade de avançar, da caminhada que todos fazemos numa espiral imparável na procura da realização, da imortalidade dos pequenos gestos e dos grandes afectos e da assinatura mais ou menos ténue que ambicionamos deixar como prova de que vivemos.

Tempo de Verão é também tempo de leituras. O título desta crónica reproduz a versão portuguesa do título duma monumental biografia de John.F.Kennedy escrita por Robert Dallek em 2003 e publicada em Portugal pela Bertrand em 2004.

Oferecida por um amigo há já alguns anos, a biografia de Kennedy foi permanecendo imaculada na minha estante dos livros a ler, “defendendo-se” com o peso das suas 500 páginas em letra miudinha.

Mas este final de Julho a dita biografia não escapou à leitura e valeu a pena, não apenas pelo extraordinário acervo de informação histórica que contém, mas sobretudo por mostrar como o carácter, o risco, a capacidade de vencer a adversidade e as limitações próprias, fizeram de John F. Kennedy um mito e uma referência, deixando cobertos pelo pó do anonimato milhares de outros jovens americanos, tão promissores, preparados e afortunados como ele. Um mito muito reforçado pela forma trágica da sua morte e pela consciência plena da vida inacabada que viveu.

O que constato porém, ao ir aprendendo com o que observo e experimento, é que todas as vidas com projecto estão condenadas a ser vidas inacabadas. Há uns anos, prova de imaturidade, costumava dizer que a vida já me tinha dado muito mais do que eu esperava dela e que portanto as contas estavam saldadas entre nós.

Pura ilusão. A vida não é uma simples conta de somar nem tão pouco uma cómoda operação de diminuir. Quanto mais a vida nos dá mais de nós exige. É uma espiral permanente para ser saboreada e sofrida até à última gota, e embora por vezes seja pareça mais tentador parar do que enfrentar os esticões e as feridas da luta, são esses esticões e essas feridas que nos dão força e ânimo para fazer da existência uma caminho com sentido.

O exemplo de Kennedy é apenas a maior hipérbole desta intuição simples que escolhi para partilhar convosco numa crónica em registo estival, mas ainda assim não recomendável para consciências excessivamente adormecidas ou acomodadas. Mas essas consciências certamente não a leram até ao fim. Para eles esta é apenas uma crónica inacabada.
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