Visto de Casa 09/04

Num dia repleto de reuniões virtuais no âmbito das minhas várias áreas de trabalho no Parlamento Europeu, e atordoado com o murro no estômago que constituiu, qualquer que venha a ser o desfecho, o braço de ferro e o impasse no Eurogrupo, tenho cada vez mais a convicção que uma União Europeia de meias tintas não está à altura das circunstânciasexcecionais que vivemos.

A União Europeia foi constituída como parceria de paz e liberdade na sequência da catástrofe que constituiu a segunda guerra mundial. Depois disso, com altos e baixos, permitiu que os seus membros fundadores disfrutassem de sessenta anos de desenvolvimento e progresso, traçando um caminho a que muitos se foram juntando, respeitando culturas e diferenças, mas não esquecendo os seus valores nos momentos determinantes.

Tem-se dito que em todas as dimensões da nossa vida em sociedade, o impacto brutal desta pandemia terá um efeito clarificador. Que o tenha também em relação à União Europeia. É preciso escolher. Se quisermos ser dignos dos nossos valores fundadores temos que encontrar uma solução para mutualizar o risco, e recuperarmos em conjunto, sem condicionalidades punitivas dos mais vulneráveis. Para sermos um casino não vale a pena.

Os países que se opõem a uma solução solidária para o financiamento do combate à pandemia e aos seus impactos económicos e sociais, com a Holanda à cabeça, precisam tanto ou mais que os outros, do mercado único europeu e das trocas de bens e serviços que são a parte mais significativa da sua criação de riqueza. Por isso não se opõem nem se oporão a que haja muito dinheiro para todos. O que querem, é que como aconteceu na crise financeira do início da década anterior, amarrar os países mais frágeis, para depois lhe imporem a sua ética, a sua moral e os seus interesses particulares. Neste momento de verdade, ounão passa a sua visão egoísta, ou não passa a União Europeia tal como a imagino e defendo.

Voltando ao Corona, pai improvável e indesejado deste diário de confinamento, com a nossa curva de crescimento do número de infetados aplanada e com um reconhecimento interno e externo do grande trabalho coletivo que estamos a conseguir fazer, começa a ser possível vislumbrar uma luz ao fundo do túnel.

Outros países com contextos similares e até piores que o nosso começam a anunciar a primavera. Gosto da esperança, mas ela ganha-se dia a dia com resiliência e rigor. Boa Páscoa, porque é Páscoa sem quase se notar que o é. Bom tema para reflexão num dos próximos diários. Até amanhã, com muita saúde.      
      
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