Assim Falou Francisco






Quem fala quando o Papa fala? Para os crentes será o Senhor do Universo (cujo nome não quero invocar em vão) quem através dele se pronuncia. Para um ateu ou um agnóstico é apenas um homem distinto que fala. A verdade é que o discurso que Francisco pronunciou em Estrasburgo perante os Deputados Europeus no dia 25 de Novembro foi um momento de grande inspiração e lucidez.

 

Em primeiro lugar Francisco não escamoteou o essencial. O sentido da vida em sociedade é proporcionar a dignidade da pessoa humana. O homem não é dono do Planeta nem das coisas materiais. Recebeu o dom da vida e deve preservar esse dom quer no plano material quer no plano espiritual. Por isso Francisco defendeu as energias limpas e a capacidade de manter o ecossistema saudável.

 

E sempre com as pessoas no centro apelou ao combate à solidão. Mais uma vez um combate espiritual para quem fizer essa escolha, mas também um combate político, traduzido no apoio à família, no respeito pelos mais idosos e no acesso ao trabalho por parte dos mais jovens.

 

Num tom jovial Francisco não usou a culpa mas o desafio para mobilizar os Europeus para a mudança. Os culpados desculpam-se. Os empenhados fazem acontecer. A Europa não pode continuar a ser uma “Avó pouco fecunda” e entristecida por se ter esquecido de criar condições para os seus filhos crescerem saudáveis e felizes e por isso mesmo se sentirem confiantes para gerarem os netos portadores da linha da vida.

 

Com a mesma bonomia sapiente, Francisco apelou à convivência dos povos e à integração dos imigrantes. Rebelou-se contra o dogma da economia e apelou a uma sociedade de comunhão, partilha e respeito pelo semelhante.

 

Nesta breve síntese da Fala de Francisco falta anda um ponto crucial. O apelo a que a Europa recupere a sua identidade e a sua força iluminadora no quadro da globalização. Sem centrismos mas com valores. Com humanismo e dignidade. Com orgulho e sentido das prioridades.

 

No dia seguinte no Parlamento Europeu Juncker apresentou o seu Plano de Investimento. Inspiração papal só se for na robustez aparente da multiplicação do pouco dinheiro fresco colocado na economia. É caso para dizer que está tudo trocado. É Francisco que acredita no poder dos homens e são os homens que parecem acreditar no poder dos “milagres”.  
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