Visto de Casa 06/04

O que seria estranho era se cada um de nós, perante a avassaladora ameaça que enfrentamos, não se preocupasse primeiro com a sua família e os seus mais próximos, com os seus amigos e vizinhos, com o seu bairro, com a sua terra e com o seu País. Claro que nos preocupamos.

No entanto, a pandemia é bipolar. Não se vence sem o nosso esforço individual, porque somos nós os potenciais hospedeiros e replicadores do vírus, mas também não se pode vencer sem o esforço coletivo, porque o seu insidioso modelo de contaminação não conhece regras nem fronteiras.

Como cidadão do mundo, mas também porque, como ontem referi, tenho responsabilidades próprias como Presidente da Delegação do Parlamento Europeu para África, Caraíbas e Pacífico, tenho acompanhado eestou particularmente preocupado com o impacto da pandemia nos países em desenvolvimento e em particular nos países africanos.

Têm-nos chegado imagens e noticias preocupantes. O vírus já chegou praticamente a todo o Continente e os números contabilizados de infeções e mortes estão subavaliados, porque poucos países têm capacidade para fazer testes com regularidade

Em territórios com elites muito ricas e populações muito pobres e sem acesso às condições sanitárias básicas, as estratégias de higiene, confinamento e rastreio são muito difíceis de aplicar. Os sistemas de saúde embrionários e frágeis, tornarão também muito difícil o tratamento generalizado dos casos mais graves.

O Continente africano conta com uma população muito jovem e por isso, em média, menos exposta, mas com quebra brutal do valor de mercado das matérias primas que são a principal receita da maioria dos países, pode gerar uma enorme mortalidade entre os “mais velhos” e fazer da geração mais nova, ainda que sobrevivente, uma geração perdida para a subnutrição e para a qualificação. Os “mais velhos” são um esteio basilar da cultura africana.       

A nossa casa ainda arde, mas por razões humanitárias e de defesa coletiva, não podemos deixar de acudir à casa dos vizinhos, que são todos os povos do mundo, e em particular aos mais próximos e mais carenciados.As Nações Unidas fizeram um apelo à recolha de 2 mil milhões de dólares para ajudar a combater a fome e manter vivo o tecido social e económico. A Organização Mundial de Saúde pediu 600 milhões para o combate sanitário. É decisivo que tenham sucesso.

No apelo formal que subscrevi a semana passada, em conjunto com o Presidente da Comissão para o Desenvolvimento do Parlamento Europeu, solicitámos às instituições um aumento rápido da ajuda humanitária, a suspensão do pagamento das dívidas ao Banco Mundial e ao FMI pelos países mais pobres e uma contribuição imediata para os fundos antes referidos. 

A União Europeia e África estão a finalizar a negociação de novas parcerias estratégicas. Têm que ser parcerias entre iguais e robustas para ajudarem àuma recuperação articulada da UE e de África, após vencermos a pandemia. Por agora, há que salvar vidas. Há muitas por salvar, por todo o lado e em África também. Até amanhã, com muita saúde para todos.





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