Visto de Casa 01/04

Hoje é dia das mentiras. São memoráveis algumas das petas que foram propaladas com sucesso em anos anteriores, assinalando com bom humor este dia. Hoje acredito que ninguém arriscará pregar pequenas ou grandes patranhas. Se alguém escrever que a pandemia é mentira, não é. Antes fosse.

A propósito da pandemia muitos livros têm sido citados, por terem ficcionado contextos que lhe são similares. É o caso do “Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago. Não é, no entanto, desse livro, mas de outro do mesmo autor, em concreto de “As intermitências da morte” que me tenho lembrado estes dias. O relatório da Direção Geral de Saúde de ontem contabilizava 160 falecimentos em Portugal devidos ao COVID19. Tendo a primeira morte ocorrido em 16 de março, quer dizer que perdemos os 160 concidadãos na última quinzena. 

Os dados estatísticos dos últimos anos mostram que em média morrem diariamente em Portugal o dobro deste número de pessoas e no entanto, tirando o caso de uma ou outra figura pública ou de pessoas que conhecemos de proximidade, parece que ninguém mais morreu em Portugal desde que começou a pandemia. Infelizmente morreram muitas pessoas de todas as idades e pelas mais variadas causas. A morte tirou uma nova especialidade, mas não fez nenhuma intermitência nas outras. Safada.

Estes dados lembram-nos outra realidade. Quando merecidamente agradecemos aos profissionais de saúde, de segurança, de proteção civil e de socorro, o enorme trabalho que têvindo a fazer nesta crise, é bom lembrar que têm feito esse trabalho e todo o outro que sempre fizeram, exceto algum alívio resultante da menor circulação de pessoas fora dos domicílios. São ainda um pouco mais heróis do que parecem. Obrigado.

A vida e a morte fazem parte do ciclo da existência, da renovação e do desenvolvimento da humanidade. Usando médias grosseiras, já que não pretendo fazer aqui nenhum ensaio demográfico nem estatístico, desde que ocorreu a primeira morte por coronavírus em Portugal terão nascido cerca de 3500 bebés. No meio da tristeza, muita alegria anda também por aí confinada. 

Que a alegria esteja convosco, que como diz o povo, tristezas não pagam dívidas e se alguém disser que pagam é mentira de primeiro de abril. Até amanhã, com muita saúde para todos.  

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