Governabilidade


Os próximos anos serão difíceis e terão um elevado grau de imprevisibilidade política e económica em todo o mundo. Num ambiente de grande volatilidade, só os Estados parecem ter ainda fôlego para minorar os impactos e ajudar a superar a crise, dando uma bofetada de luva branca em todos os que quiseram destruir a regulação pública e hoje são os primeiros a tentar obter o seu socorro.

Da esquerda à direita e por todos os azimutes, verifica-se uma convergência na aceitação de que o papel do Estado é hoje cada vez mais determinante. Não necessariamente um Estado mais pesado, mas um Estado mais forte e eficaz. È neste quadro que a questão da governabilidade assume particular importância e merece reflexão, sobretudo quando em Portugal estamos na ante Câmara dum ciclo eleitoral alargado.
Há uma questão evidente. Portugal precisa que das eleições legislativas de 2009 resulte um governo forte e com suporte parlamentar maioritário. As alternativas disponíveis para que isso aconteça são menos do que parecem, já que recentemente algumas forças políticas se colocaram voluntariamente do lado do problema e não do lado da solução no que diz respeito ao desenho das opções governativas para o futuro.
As sondagens mais recentes evidenciam que mais de 60% dos portugueses estão disponíveis para votar numa solução política de esquerda. No actual contexto político no entanto, apenas uma percentagem desses votos será útil para a governabilidade, enquanto outra, que nalguns estudos de opinião se aproxima dos 20% será inócua para esse efeito.
Não faço esta constatação com alegria nem má fé. Limito-me a dar eco dos factos. No seu recente Congresso o PCP auto excluiu-se do arco da governabilidade ao afirmar que apenas exercerá o poder se a maioria dos portugueses lhe derem o seu voto, anulando qualquer hipótese de coligação no plano nacional. Por outro lado, o Bloco de Esquerda retirou a confiança ao seu Vereador em Lisboa exactamente porque ele entendeu consolidar uma solução de governo para aquela Autarquia.
Estes dois factos revelam uma realidade clara. Nas legislativas de 2009, os votos à esquerda que não forem no PS não serão contributos activos para uma solução de governabilidade. É absolutamente legítimo que os eleitores portugueses decidam usar o seu voto na escolha duma linha de oposição e não numa linha de governo.
Não pretendo nesta crónica distinguir bons e maus votos mas apenas evidenciar a diferente natureza de algumas opções. Uma diferente natureza particularmente relevante num tempo em que alguns se afadigam em diálogos à esquerda. São diálogos positivos e certamente estimulantes, mas de acordo com a estratégia política enunciada pelo PCP e pelo BE, politicamente inconsequentes em termos de governabilidade.
Inconsequentes ou talvez não! Em política os vasos são comunicantes e os erros de uns podem aproveitar a outros. As direitas não deixarão de estar legitimamente atentas à diletância de algumas esquerdas.
2009 é um ano eleitoral muito importante para o País. Nele se disputará o campeonato da governação e o campeonato das oposições. Nos tempos desafiantes que enfrentamos quem apenas se preocupa com o segundo não merece ser valorizado no primeiro.
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