Merkel Vacinada?






 

A grande crise financeira que assolou o mundo no final da primeira década deste século começou nos Estados Unidos (EUA). Com mercados globais e fortemente interligados o efeito de contágio era quase inevitável e a União Europeia (UE) foi das primeiras a sofrer as consequências.

 

Hoje, alguns anos depois, os EUA estão em plena recuperação enquanto a UE se continua a debater com uma forte estagnação. Em larga medida, isto ficou-se a dever à decisão da Alemanha de aproveitar a crise para “vacinar” os Países do Sul e em particular a Grécia contra aquilo que na voz do seu mais fiel ajudante Pedro Passos Coelho se designa por “viverem acima das possibilidades”. 

 

A vacina de Merkel foi uma terapia ineficiente e inadequada e se é verdade que gerou um profundo processo de empobrecimento e punição em diversos países do Sul da Europa, não resolveu a crise económica e financeira Europeia e felizmente não atemorizou nem enfraqueceu a Democracia.

 

Pelo contrário, a revolta acumulada deu origem a uma profunda recusa nas urnas do modelo de punição. Foi esse o sentido democrático da vitória do Syriza na Grécia e essa expressão de vontade do povo grego conduziu a uma celebração que transcendeu em muito as fronteiras da Grécia ou e da matriz ideológica do Partido vencedor.   

 

Falhada a vacina punitiva, a questão que se coloca é saber se a Chanceler vai cair na tentação vingativa de tentar aumentar a dose, caso em que fará implodir o EURO ou se pelo contrário ficou ela própria vacinada e se alinhará com um modelo inteligente de recuperação da confiança e do crescimento sustentável na Europa.

 

Em Portugal, ao recusar apoiar uma conferência europeia sobre as dívidas Europeias o governo colocou-se mais uma vez do lado da banca e contra as pessoas.

 

O novo modelo de crescimento europeu não poderá ser a cedência a derivas radicais de sinal contrário, mas antes uma solução negociada e robusta de reforço do papel do Banco Central Europeu na gestão das dívidas soberanas, de aposta no investimento gerador de crescimento sustentável e na harmonização e na transparência fiscal. Em síntese, na confiança e na mobilização em linha com aquilo que Obama tem vindo a conseguir nos EUA.

 

A vitória do Syriza deu um impulso a uma luta de muitos europeus contra a insanidade do modelo da austeridade regeneradora. Mereceu por isso ser celebrada. Mas o futuro da UE não passa pelo modelo populista que o Syriza representa. Os povos europeus decidirão (os ibéricos já este ano). A sua vontade será soberana, mas a UE precisa de ver reforçada a linha de defesa dos seus valores fundadores. Uma linha que faz da esquerda moderna, cosmopolita e pró-europeia a alternativa ao inverno liberal que se vai dissipando.     

 

 

 

 

 

 

 
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