Bom Dia Sra. Merkel




Bom dia Sra. Merkel. Desculpe dirigir-me a si em Português, língua que não domina tal como eu não domino o alemão. A minha esperança é que os seus serviços entendam útil traduzir este texto e ele lhe desperte alguma curiosidade.

Seja bem-vinda a uma nação com história, identidade, ambição e orgulho. Alguns dos meus concidadãos fizeram um filme para lhe mostrar Portugal. Eu não posso fazer um filme. Sei que uma imagem vale por mil palavras e eu só tenho umas centenas de palavras para lhe transmitir uma imagem. Veremos se consigo.

Não podemos compreender um povo e as suas expectativas e angústias se não se conhecer a sua cultura. Por isso usarei algumas máximas populares neste texto. Ele vai embrulhado em Portugal para que possa sentir que nem todos os embrulhos são iguais.

A Sra. e o “seu” governo em Portugal costumam dizer que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. A verdade é que nos últimos dois anos empobrecemos muito e ainda ficámos mais longe dessas possibilidades. A dívida pública não parou de subir.

O nosso povo costuma dizer que em certas situações “quanto mais nos baixamos mais se nos vê o que não queremos mostrar”. Quanto mais pobres formos ficando menos hipóteses temos de lhe pagar o que lhe devemos. E nós queremos pagar. O que precisamos não é que nos atirem para baixo da linha de possibilidades que garantem o limiar duma vida digna para todos, mas que nos ajudem a superar essa linha decepcionante.

Os portugueses costumam dizer também que “quem come a carne deve roer os ossos”. Ora a Sra. sabe como as dificuldades de Portugal favorecem o seu País. A Alemanha tem hoje uma moeda subavaliada e financia-se a taxas negativas. Nós temos uma moeda sobreavaliada e a nossa economia tem crédito caro e minguado. Não lhe ficava mal partilhar carne com osso. Nós não queremos bife todos os dias, mas temos o legítimo direito a uma “alimentação” saudável para podermos trabalhar e progredir.

A crise internacional e o enfraquecimento das instituições europeias expuseram-nos à sua benevolência. Mas recordo-lhe uma derradeira máxima. Diz o povo que “quem tudo quer tudo perde”. A parceria de Portugal com a Alemanha foi durante décadas uma história de sucesso e de ganho mútuo. A nossa posição geoestratégica é uma mais-valia que não se mede pelos mesmos critérios das agências de rating que lhe “fazem a cabeça”.

Cara Sra. Merkel. Desejo-lhe uma boa estadia em Portugal. Estou certo que os portugueses a receberão indignados mas com civilidade. E só depende de si virar a página e trocar a indignação por cooperação.

Mesmo que o Primeiro-ministro lhe diga que está tudo bem não acredite. Não está. Há muita miséria e muita desesperança no meu País. Mas há também uma enorme força para vencer a crise, como tantas vezes o fizemos na nossa história, quando acreditaram em nós e nos abriram uma nesga de mar para navegar.



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