Ausência (Na morte de Eduardo Lourenço)

 Este texto não é um esboço de obituário. É certo que todos os obituários dedicados a Eduardo Lourenço não serão demais, dada a enorme dimensão do pensador, filósofo, e poeta da palavra e da vida que ele foi. Mas tendo ele próprio definido a morte como uma ausência, é exatamente essa ausência que temos que contrariar, mostrando que ele continua bem vivo no nosso pensamento, na nossa memória e no nosso coração.

 

Não sendo próximo de Eduardo Lourenço, tive o raro privilégio de conviver muitas vezes com ele, de me fascinar com a sua rara intuição, sabedoria, humildade ecapacidade de ser ao mesmo tempo um homem do mundo, um europeísta convicto, um símbolo da portugalidade, um aldeão cultor das suas origens e ele mesmo.

 

O seu mais conhecido ensaio sobre o sentido de ser português, o “Labirinto da Saudade” publicado em 1978, após o frémito revolucionário de abril de 1974, e múltiplas vezes reeditado, é uma das mais profundas reflexões que conheço sobre a natureza humana e em particular sobre a natureza de ser português.  

 

Glosando a nossa natureza de cidadãos das sete partidas do mundo, os editores entenderam destacar como chave de leitura desse livro a ideia de que “Somos, enfim, quem sempre quisemos ser. E, todavia, não estando já na África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhámos, emigrámos todos para Timor.  É lá que brilha, segundo a nova ideologia do nacional (...) o último raio do império que durante séculos nos deu a ilusão de estarmos no centro do mundo.

 

O mito do império, mais ou menos explícito, é algo comum a todos os grandes espíritos que ao logo dos últimos séculos nos foram moldando a partir do barro deste retângulo meridional onde nos construímos como nação livre e independente e onde gerámos a ilusão de sermos centro do mundo e a partir dela abraçar os cinco continentes.

 

Se a morte é uma ausência, a vida pode ser uma ilusão de permanência. O império português ausentou-se porque tinha que se ausentar, para dar liberdade aos povos e romper as grilhetas da ditadura. Mas a ausência de império não nos cerceou a natureza de viajantes. 

 

Não consigo imaginar Portugal e os portugueses a serem o que são, sem estarem no centro do mundo. Sem serem fazedores de pontes e de redes de cooperação e de tolerância.  Sem serem navegadores. Sem se perderem e encontrarem, em cada dia, no labirinto da saudade. Obrigado Eduardo.

 

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