Ambiciosos ou mortos (sobre a transição energética)



Tendo sido nomeado pelo grupo dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu co-responsável pela negociação do regulamento proposto pela Comissão Europeia que vai enquadrar a elaboração pelos Estados - Membros da União Europeia de Planos Nacionais de Energia e Clima para o período 2021/2030 (e depois para as décadas seguintes, tendo por horizonte o Acordo de Paris e as suas metas para 2050), tenho nas últimas semanas contactado com múltiplos representantes da sociedade civil, da indústria, da academia e do setor da energia de toda a Europa.

O tema que decidi abordar nesta crónica é muito técnico e tem uma enorme complexidade, mas não deixa por esse facto de ter um impacto direto com a vida de todos e de cada um de nós. Perdoem-me por isso os especialistas se considerarem a abordagem muito simplista, e os leigos na matéria, se a considerarem um pouco complicada. Farei um esforço de síntese e equilíbrio.

O regulamento implicará a definição de metas em temas como a percentagem de energia renovável produzida e consumida, os ganhos em eficiência no uso da energia em todos os sectores e em particular nos edifícios, na indústria e nos transportes e a capacidade de interconexão das redes, para otimizar o mercado e facilitar a transição energética.

Defendo que as metas a estabelecer devem ser aquelas que permitirão fazer a redução do aquecimento climático acordado em Paris, contendo o crescimento brutal dos fenómenos climáticos extremos, designadamente os tufões, as tempestades bruscas, as secas, o alagamento de terrenos e a submersão de ilhas e outros territórios, as conjunções climáticas favoráveis à propagação dos incêndios ou das pragas e outras calamidades que por vezes nos fazem recordar as dez pragas do Egipto enunciadas no livro bíblico do Êxodo.

Os números estão calculados e constam das propostasdo S&D, numa perspetiva flexível e sempre aberta a incorporar resultados de novas investigações e de novos conhecimentos adquiridos. Não vou sobrecarregar os leitores com esses números, disponíveis para os mais interessados na informação que vou partilhando nas redes sociais e nas páginas electrónicas do Parlamento Europeu e do Grupo S&D. A mensagem que pretendo partilhar convosco é uma mensagem política simples e direta.

Alguns atores económicos e sociais dominantes tendem a considerar as metas propostas muito ambiciosas. Ora essas metas são as que permitem mitigar as mudanças climáticas brutais, de cujas consequências vamos tendo infelizmente nota diariamente pela comunicação social ou pela experiência de vida, como é o caso da seca extrema que assola garante parte do nosso território ou os brutais incêndios florestais deste verão.

É cada vez mais evidente a insuficiência das visões intermédias, dos que querem mudar para ficar tudo na mesma, dos que defendem alterações cosméticas ou compromissos para ficar a meio da ponte.

Todos nós, pela nossa natureza humana, mais cedo ou mais tarde estaremos mortos como indivíduos. Mas a questão coloca-se cada vez mais no plano da humanidade e da civilização que construímos. Ou somos ambiciosos na mudança ou tudo destruiremos. Eis na sua crueza maior, a questão chave que temos que decidir já e sem tempo para meias – tintas, mal ou bem-intencionadas.







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