Visto de Casa 29/03

Um bom amigo, azado nas coisas dos astros, das cartas e da leitura dos sinais do cosmos, avisou-me no final do ano passado que pelos sinais que recebia, o mundo viveria uma crise bíblica no primeiro trimestre deste ano. Achava ele que a nossa vida em sociedade iriamudar profundamente e que só a partir de 30 de março é que tudo se voltaria a ajustar, embora num novo equilíbrio global.  

Baseio a minha mundividência na ciência e no métodocientífico, sou crente e respeito as várias dimensões da espiritualidade, mas confesso que na altura não o levei muito a sério. A verdade, no entanto, é que porconexão fantástica ou trama do acaso o meu amigo teve uma premonição certa. O que mais desejo agora é queseja certa até ao fim, ou seja, que a partir de amanhã a conjunção astral nos comece a favorecer. Oxalá.

Começa a ser difícil manter uma prosa escorreita e não repetitiva acerca do que se passa no olho do furação da pandemia. Sabíamos que ia ser assim e que assim será mais algumas semanas. Sabemos também que o achatamento da curva de infetados é a única forma de não perdermos o controlo e não vivermos dramas da dimensão dos que estão a assolar agora países vizinhos como e Itália e Espanha. Cada dia que passa é mais difícil e exige de nós mais capacidade de resistênciaSomos fortes. 

Só ontem, em Espanha, perderam-se mais vidas do que no ataque terrorista às torres gémeas e outros alvos americanos no aziago ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Não quero comparar catástrofes nem ser relativista. São fenómenos com origens e contextos completamente diferentes. Mas pensar no 11 de setembro avivou-me algumas memórias.

Por altura do 11 de Setembro de 2001 era eu Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Internasendo Ministro então o meu colega e amigo Nuno Severiano Teixeira, com a tutela delegada, entre outras, da Proteção Civil e do Socorro. A seguir aos atentados multiplicaram-se os alarmes por eventual presença de gases e materiais letais como o antrax e ogás sarin, em vários locais de todo o território, em terra, no ar e mar, incluindo escolas, quarteis, aviões,navios, comboios, residências, lares de idosos e até redações de jornais. 

Contando na altura apenas com 2 viaturas adaptadas ao combate em cenário de contaminação biológica, lá fomos gerindo ansiedades e verificando que felizmente, um após outro, os alarmes eram falsos. Uma manhã recebemos um telefonema anónimo dizendo que o sistema de abastecimento de água a Lisboa estava envenenado e a água imprópria para qualquer uso. Ter feito alerta público e mandado cortar o abastecimentode imediato teria criado um alarme brutal e impedido as próprias instituições de saúde de agir, caso fosse necessário. Respirámos fundo. Fizemos análises de urgência. Era mais um alarme falso. 

Decidir em contextos de incerteza e em tempo real é um exercício de enorme responsabilidade e dificuldade. O evento que partilho hoje convosco é uma forma de prestar uma grande homenagem a todos os que nesta crise, no dia a dia, têm que tomar decisões em cenários de forte incerteza.

 Decisões que não podem esperar e que exigem ponderação e coragem, mesmo sabendo que há sempre um risco latente de estarem erradas. Não decidir raramente é solução. Boas escolhas e até amanhã, com muita saúde. 



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