O Voo para Bucareste




No dia anterior ao último Conselho Europeu realizou-se em Bucareste, cidade capital da Roménia, um encontro preparatório da Cimeira dos Líderes Europeus, promovido pelo Partido Popular Europeu (PPE).


CDS/PP e PPD/PSD são ambos partidos membros do PPE. Em nenhum voo faria tanto sentido que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas viajassem juntos como no voo para Bucareste. Mas tal não aconteceu. Passos foi a Bucareste e Paulo ficou entre o Caldas e as Necessidades.


Pedro Passos Coelho foi a Bucareste dizer, como pudemos ouvir, que tudo estava bem com o processo de ajustamento e com a macroeconomia portuguesa. Enquanto proclamava esta visão extraordinariamente distorcida da realidade, ouviu outros colegas da sua família política, como Samaras e Rajoy, Primeiros-ministros da Grécia e da Espanha, dizerem exactamente o contrário sobre a receita de austeridade que as instituições internacionais teimam em impor aos seus Países e sobre os seus impactos nefastos.

Ao mesmo tempo em Portugal, Portas, também ele convencido de que a receita é um desastre procurava, convencer os seus colegas de Partido a aguentar a afronta dum orçamento sustentado num “enorme” aumento de impostos em nome do risco de ser atribuído ao seu partido o ónus da criação duma crise política com reflexos institucionais.


No voo para Bucareste havia um lugar ostensivamente vazio. Se Portas o ocupasse e tivesse usado da palavra no encontro de Bucareste ou teríamos tido uma enorme mistificação ou a desavença entre parceiros teria ganho uma nova dimensão internacional.

Não consigo imaginar Passos a dizer que a austeridade em Portugal é a adequada com Portas a seu lado num sorriso diplomático, nem Portas a dizer que não é com asfixia fiscal que se fortalecem as economias, tendo Passos a sorrir na fronteira entre o vazio e o gozo.

O voo para Bucareste é a imagem perfeita da coligação que nos governa. Dum casamento de conveniência em que já só se discute a quem atribuir as culpas do falhanço e a salvaguarda do património restante.


A Coligação entre o PPD/PSD e o CDS/PP só já funciona por demarcação de espaço. Nem o Tango dançam a dois. Dançam quanto muito capoeira, competindo pela capacidade de elaborar cambalhotas, piruetas, parafusos e outros números de circo para distrair os portugueses. Mas a continuarem assim outro Galo cantará.







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