Quanto Custa ser Feliz ?




 

Um dos livros que me sugeriram para leitura este verão foi “Um guia breve para clássicos filosóficos” de James M. Russell editado este ano em Portugal pela Temas e Debates. O guia é mesmo breve no tratamento que faz de cada clássico e de cada autor. Tem no entanto a vantagem de colocar em paralelo e com o mesmo nível de síntese diferentes mundovisões, muitas delas incompatíveis entre si.

 

A filosofia é tão necessária à vida consciente como os recursos materiais básicos que nos permitem sobreviver. Não me refiro apenas à filosofia como saber estruturado, mas também à filosofia como conjunto de ideias e de projetos que dão identidade às escolhas de vida que cada pessoa faz.

 

Escolha benévola ou reprovável à luz dos valores prevalecentes na sociedade, essa escolha é obrigatória, dando sentido à frase popular que de facto, no sentido estrito em todos temos um quadro de perceção do mundo em que vivemos, todos somos filósofos.

 

Quis o acaso das leituras soltas, que acabado de percorrer o guia antes referido, me tenha deparado com um interessante texto de Frei Betto intitulado “Quanto custa ser feliz? inserido num breve livro coletivo editado no Brasil pela Vozes sob o título “Felicidade, foi-se embora?” onde se inclui o texto do frade dominicano e textos do teólogo Leonardo Boff e do professor de Teologia Mario Cortella.

 

E quanto custa ser feliz? Na minha interpretação cruzada das leituras que aqui refiro, reforcei uma ideia que já aqui tenho partilhado. O preço de entrada para se poder ser feliz é ter uma filosofia, ou seja, um projeto e um sentido de vida, naturalmente flexíveis, mas estruturalmente coerentes. 

 

Esta abordagem é muito interessante e conflui com a ideia da felicidade como ausência de medo, que costumo usar nos meus escritos sobre o tema. Se a felicidade é a diferença entre o sentido que definimos para a nossa vida e aquilo que de facto conseguimos, então quem não tiver uma filosofia de vida não é candidato a ser (se sentir) feliz.

 

Note-se que nesta abordagem não entra a dimensão ética. Por isso se pode ser feliz a fazer o bem e a fazer o mal. Para a qualidade da sociedade em que vivemos para além da filosofia também a ética é determinante.

 

Outra questão importante é que a felicidade não implica necessariamente o prazer ou a alegria. É claro que felicidade, alegria e prazer são complementares e geram boas sinergias, mas vivem uns sem os outros, sobretudo por provêm de fontes diferentes e percorrem diferentes linhas do tempo, que se vão cruzando e descruzando ao longo da vida e dos seus fragmentos.

 

Diz o povo que de “filósofos e de tolos todos temos um pouco”. Todos não. Alguns deixaram secar o seu sentido de vida no deslumbramento do consumismo ou no sofrimento do quotidiano e outros levam-se a si mesmos demasiado a sério. Assim mais dificilmente se sentirão felizes.   

 

 

 

 

 
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