Visto de Casa (26/04)

Voltou a ser Domingo! As rotinas quando preenchidas aceleram o tempo. Sempre foi assim e assim é agora de novo. No início do confinamento o tempo parecia ter parado, os dias eram longos e a respiração era lenta. Depois deu-se a invasão virtual. Já lá vão mais de quarenta dias e parece que foi ontem.

Ontem celebrámos a liberdade, com menos proximidade e maior afetividade. A ausência exacerba o sentimento. Nunca tinha cantado da minha varanda. Ontem cantei, acompanhado por uma gravação do Zeca para que os vizinhos ficassem protegidos da minha voz pouco dotada para a função.

Ao longo do dia não pude ficar alheio ao debate vivo que se gerou sobre a oportunidade e a forma como se realizou a sessão comemorativa na Assembleia da República. 

A minha opinião, que partilhei com a comunicação social que me questionou é simples. Se a Assembleia estivesse fechada não fazia sentido reabri-la apenas pelo simbolismo. Estando aberta, e ainda há 3 dias lá decorreu um debate quinzenal com a presença do Governo, fechá-la no 25 de abril teria o simbolismo contrário. Não fazia sentido.

Concordo que haviam formas mais minimalistas de a abrir. Para a história ficará que abriu.  Desejo que não venhamos nunca a ter saudades dos tempos em que,mesmo em circunstâncias difíceis, podíamos celebrar simbolicamente a liberdade na casa da democracia, e em que era normal e salutar debater livremente as diferentes perspetivas sobre o tema.

A identidade de um povo é carregada de símbolos. Quando a coberto de uma perspetiva mesquinha e contabilística quiseram suspender, entre outros, o feriado do dia da independência, eu que sou globalista, europeísta, orgulhosamente português e defensor do reforço do poder regional e local, indignei-me. Não pelo feriado, mas por aquilo que a sua suspensão significava. 

Como referiu o Presidente da República no seu assertivo discurso, datas como o 25 de abril, o 10 de junho, o 5 de outubro ou o 1 de dezembro não podem deixar de ser oficialmente celebradas. São traves mestras que definem as nossas escolhas enquanto nação e enquanto povo. Afirmam que por vontade própria e esforço coletivo, somos democráticos, somos abertos ao mundo e disseminados nele, somosrepublicanos e somos independentes.

No meio da incerteza, através da divergência, convergimos numa reflexão fundamental sobre donde vimos, o que somos e para onde queremos ir. Saímos da rotina. Vivemos um sábado maior. Até amanhã, com muita saúde para todos.        
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