Visto de Casa (23/04)

Vamos começar lentamente a regressar à rua, sem poder abraçar aqueles que para nos proteger nunca de lá saíram. Terá que ser um regresso com cuidado e rigorMas precisamos de caminhar. 

Arrepia-me pensar na situação limite de um médico que tem que escolher quem sobrevive, por carência de recursos para tratar todos os que necessitam. A pandemia multiplicou essas situações, algumas delas em países desenvolvidos e bem próximos de nós.

O enorme sacrifício coletivo do confinamento ajudou a que isso não tivesse acontecido em Portugal. A nossa primeira prioridade tem de continuar sempre evitar que isso aconteça. Somos humanos e humanistas.

Noutra dimensão, também não é confortável a situação de outros profissionais e decisores, quando colocados perante a questão de quem vai perder o emprego, de quem vai ver os seus rendimentos reduzidos, de quem vai perder a pequena loja, restaurante ou serviço em que depositou os seus sonhos. 

A doença e a pobreza são dois monstros que em milénios de existência, ainda não conseguimos erradicar.

Hoje vai decorrer um Conselho Europeu. Acredito que mesmo que a decisão não fique ainda totalmente formatada, um potente plano de recuperação económica será posto em prática à escala da União Europeia, com as salvaguardas necessárias para que não seja um remédio de curto prazo, que no afogue mais à frente com juros incomportáveis ou dívidas insustentáveis. Trabalhámos muito para que não possa voltar a ser como foi na crise financeira anterior. 

A economia vive no trapézio do equilíbrio entre a oferta e a procura. Oxalá sejamos bem-sucedidos em manter grande parte da nossa capacidade de oferta, dos nossos empregos, dos nosso bens e serviços. No entanto, se essa capacidade de produzir e oferecer não tiver uma procura correspondente, podemos viver situações tão impensáveis como a que aconteceu no mercado do petróleo, que atingiu nos últimos dias picos de preços negativos, ou seja, viveu momentos em que os operadores que o possuíam, sem terem onde a quem o vender, estiveram dispostos a pagar a quem os libertasse do ónus do armazenamento.  

Esta história limite do que aconteceu com o petróleo, pode acontecer com qualquer outra matéria-prima, mas também com as fábricas, os restaurantes, os barbeiros e cabeleireiras, as livrarias, os espetáculos culturais ou desportivos. Com todo o sistema de oferta económica e social. 

Em Portugal, temos nesta crise uma liderança que não é ideologicamente favorável à austeridade. É uma bênção. O pior que nos podia acontecer era um encolhimento político dos rendimentos e da procura. Já basta o que basta.   

Termino como comecei. Temos que voltar a caminhar. Agradeço a forma como me têm acompanhado neste diário de confinamento. As vossas visualizações e apreciações, têm sido uma motivação acrescida. Ainda não me posso despedir, mas em nome de todos, anseio por isso. Ansiamos todos. Até amanhã, com muita saúde.



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