Confiança e desconfiança

Num dos seus mais conhecidos livros (Confiança - Valores sociais e criação da prosperidade), editado em Portugal em 1996 pela Gradiva, Francis Fukuyama, umpolitólogo americano com vasta e muito interessante bibliografia, mas que ficou sobretudo conhecido pelo célebre livro “O fim da história”, concluiu que a grande diferença entre as sociedades que progrediam e aquelas que não o conseguiam fazer, erao nível de confiança dos seus agentes políticos, económicos e sociais em si mesmos e nas relações que estabeleciam entre eles e com os cidadãos em geral.  

A análise de Fukuyama é muito interessante e era coerente com a realidade do mundo da transição do milénio em que baseou a sua teoria. Contudo, a globalização, a aceleração de processos e a erosão das fronteiras físicas e virtuais parecem ter quebrado a dicotomia proposta e corremos agora o risco de ver as nossas sociedades contaminadas transversalmente pela desconfiança, gerando um nivelamento por baixo das condições de desenvolvimento e progresso.

Um pouco por todo o lado a boa política é contaminada pela má política, a boa informação é contaminada pela má informação e a boa competição é contaminada pela má competição, para citar apenas três exemplos dos vários domínios da vida pública em que é cada vez mais difícil destrinçar entre o que é saudável e o que já foi contaminado.

Não tenho dados nem espaço nesta crónica para avaliar cada um múltiplos casos que estão a minar a sociedade global, numa dinâmica à qual Portugal também não tem escapado, com casos de potencial ou provada ação contra a ética ou contra a lei,protagonizados por personalidades com grandes responsabilidades e que deveriam ser mobilizadores de confiança e não geradores de desconfiança.

No meio da enorme turbulência que varre os dias de hoje resta-nos confiar no bom senso, na capacidade de destrinçar entre o bem e o mal e de não tomar a nuvem por Juno, sem que isso seja alibi para que não se atue determinadamente sobre as nuvens que ensombram o nosso futuro coletivo.

O desafio de Fukuyama é agora mais atual que nunca. A confiança continua a ser a chave do progresso e do desenvolvimento. Temos que promover com bases sólidas para conter a contaminação e a generalização que ameaça destruir os fundamentos da nossa sociedade. 
Passemos ao contra ataque. Contaminemos o mundo com confiança. Acantonemos quem a quebra. Esta terá que ser uma batalha de todos os dias, porque é a batalha que definirá a qualidade da sociedade em que vamos todos viver.  

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