Estátuas

Durante os primeiros tempos da pandemia, tivemos a ilusão de que a brutalidade e o caracter inesperado da ameaça, iria ter um impacto positivo na consciência individual e coletiva, motivando a reflexão sobre o sentido do ódio, do extremismo, da irracionalidade e da intolerância no mundo em que vivemos. 

Acredito que o tempo estranho que vivemos tenha tido impacto favorável na consciencialização da maior parte da população para os novos e diferentes desafios que temos que enfrentar. Só poderemos ter uma avaliação mais fina desse impacto à medida que a vida em sociedade for retomando o seu vigor. 

Para muitos, o desespero e a dimensão específica da ameaça na sua saúde ou na sua vida, despertaram antes de mais e legitimamente o instinto de sobrevivência. Merecem apoio solidário em tempos difíceis.

Não podemos, no entanto, menosprezar a parte residual, mas muito ativa, daqueles a quem os germes do populismo contaminaram para prosperarem na pandemia e continuarem a intoxicar a vida política global. Só tendo assim se pode interpretar a reação de Donald Trump ao chocante assassinado de George Floyd e estratégia incendiária que a partir daí pôs em marcha. 

O brutal e inaceitável assassinato de Floyd teve o efeito de através da sua filmagem e difusão viral, catalisar a revolta contra os comportamentos e os sentimentos racistas que são muito fortes na sociedade americana, mas contaminam todo o mundo. Para além da reação imediata, é importante que tenha embebido as consciências, fazendo de cada um de nós um cidadão mais ativo contra as práticas racistas.

Temos, no entanto, que resistir ao rastilho populista de quem aposta em dividir para reinar e em extremar a sociedade para se impor através de discursos de ódio e medodisfarçados de lei e ordem. Todos temos uma identidade que é fruto das nossas aprendizagens e dos símbolos que a marcaram. Símbolos que nos ajudam a compreender o passado, não para o mimetizar, mas para termos um sentido de rumo no traçar do que queremos e do que não queremos para o futuro. 

Sempre me chocou a vandalização ou a destruição de estátuas. Acho fundamental que cada monumento seja contextualizado e que seja claro o que em cada época o justificou. Também aceito que não sendo o espaço público infinito, as estátuas não tenham que ter todas um lugar reservado. Mas aqueles que pensam que vandalizando estátuas estão a apagar o passado, pelo contrário, estão a afundar o presente na lama e desperdiçar o tempo precioso que temos para deixarmos também nós um forte legado simbólico, enquanto gerações de agora.  
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