Democracia e Pluralidade de Opinião




 

Tem vindo a travar-se por estes dias em França um interessante debate sobre a paisagem mediática, designadamente no que diz respeito ao comentário político, económico e social e à garantia da pluralidade na forma como ele é praticado e difundido.

 

O debate parte duma constatação que poderá ser extrapolada para fora da realidade francesa. Os “média” de massas, partindo da caracterização dos seus públicos, privilegiam a opinião sensacionalista e provocadora à opinião mais fundamentada e elaborada.

 

Em consequência, segundo estudos feitos em França, esse movimento tem levado a uma predominância de comentadores da direita nacionalista e populista no espaço mediático, em detrimento dos comentadores com uma visão progressista e cosmopolita da realidade política.

 

No calor do debate surgiram mesmo mesmo acusações de reposicionamento político de alguns dos mais mediáticos comentadores (filósofos, sociólogos, politólogos e outros membros das elites académicas). Há quem acuse alguns desses protagonistas de adaptarem o seu discurso àquilo que melhor vende na televisão e nos grandes jornais de referência, em papel ou na rede, para se manterem à tona da notoriedade e das audiências e preservarem a sua capacidade de recrutamento de seguidores para as suas Escolas e projetos.

 

Obviamente este tema levanta problemas de análise de comportamentos e de dinâmicas sociais, com grande complexidade e com validade muito para além da realidade francesa.

A mudança de ideias e de perspetiva é um direito inalienável de cada ser humano. Afirmar que alguém muda as suas ideias, não por alteração de convicção, mas porque as novas ideias vendem mais e melhor, é um exercício que carece de demonstração caso a caso, e que não pode e não deve ser generalizado.

 

Mas a questão merece ser vista de outros ângulos. Em França, como em Portugal e na grande maioria dos países europeus, a linha editorial dos principais órgãos de informação segue as pulsões das massas para garantir audiências, publicidade ou contextos favoráveis aos seus acionistas. Pulsões em que o nacionalismo populista vem ganhando espaço às visões cosmopolitas, abertas e globais, como bem ilustra a questão dos refugiados e migrantes.  

 

Nos Países (não é ainda a prática em Portugal) em que o Estatuto Editorial define o posicionamento no espectro político de cada órgão de comunicação social, é notória uma prevalência dos títulos e órgãos de comunicação que se posicionam num registo conservador ou neoliberal, sobre aqueles que se posicionam numa linha liberal e progressista. Estas tendências distorcem o “mercado” das ideias. Os que pensam numa linha progressista tem menos janelas para expressar o seu pensamento e o risco de espiral causa efeito é evidente.

 

No debate em França, que inspirou esta crónica, há protagonistas que afirmam mesmo que se tiveram que “render” aos temas nacionalistas e populistas, para os poder comentar numa linha progressista e com visão aberta.

 

Este debate deve fazer-nos refletir também em Portugal. A transparência e a pluralidade de opinião nunca são demais em democracia. 

 

  

 

 
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