Por uma UE Progressista (a propósito de uma conferência de Jeffrey Sachs)




Em Bruxelas, na conferência de abertura da Convenção “Juntos por uma nova direção progressista para a Europa”, que irá decorrer em 18 sessões por toda a União Europeia e servirá para preparar as linhas fortes da proposta dos Socialistas e Social-democratas para as eleições europeias de 2019, Frederica Mogherini, Alta Representante para as Relações Exteriores, testemunhou que a União Europeia (UE) é vista como uma referência de integração pacífica em todo um mundo, exceto no seu próprio seio. 

Também eu já senti desconforto e perplexidade em diálogos internacionais em que muitos representantes nos dizem simplesmente que têm a Europa como modelo, na democracia, no sentido humanista, na cooperação interna e externa e em muitos outros pontos da agenda. Sinto desconforto porque sei que eles têm razão objetiva, mas ao mesmo tempo estou consciente que nós temos a obrigação e a possibilidade de fazer bem mais e melhor do que fazemos. 

A perspetiva dos outros é muito útil para nos conhecermos melhor. Não para nos deslumbrarmos ou acomodarmos, mas para nos motivarmos a prosseguir. No mesmo dia da abertura da convenção que antes referi, pude escutar também no Parlamento Europeu uma estimulante conferência do Professor americano Jeffrey Sachs sobre a perspetiva do desenvolvimento sustentável.

Como é natural face ao local e ao contexto da conferência, grande parte das questões que lhe foram colocadas versaram a situação europeia. A resposta de Sachs foi muito assertiva, pragmática e positiva, própria de quem nos olha de fora, sem os problemas “existenciais” que nos toldam a visão, para usar uma expressão recente de antigo Presidente da República italiano Giorgio Napolitano.

E o que propôs o Jeffrey? Apostem no investimento, combinem as ações do Estado, da Sociedade Civil e do Mercado como vocês sabem fazer melhor do que ninguém, inovem, partilhem visões de futuro e não acrimónias sobre o passado, voltem a tentar definir uma Constituição que vos dê unidade na ação sem exigir a unanimidade em cada momento, resolvam rápido os pequenos problemas porque é nesses que se ganha balanço para enfrentar os maiores, ajudem os refugiados sobretudo a poderem voltar em paz á sua terra, lutem por uma regulação global das regras fiscais e financeiras.

Eis em síntese um programa possível para a UE. Um programa com algumas dimensões polémicas mas estimulante. Jeffrey Sachs propõe este programa porque acha que a UE é capaz de o cumprir, enquanto na UE poucos arriscariam propô-lo, porque visto de dentro ele parece um programa impossível.

Nas alturas de impasse devemos dar mais atenção aos que nos diz quem nos vê de fora. No caso da UE isso é fundamental para nos encontrarmos e voltarmos ao caminho humanista e progressista que durante mais de seis décadas nos trouxe a paz e a prosperidade relativa.
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