Sem Pavor





A praça do Giraldo em Évora é muitas vezes vista como um símbolo do centralismo regional. No entanto, contrariando esse simbolismo, na tarde de 26 de Janeiro ela juntou uma imponente manifestação de vontade de descentralização e respeito pelas políticas de proximidade, com delegações das centenas de freguesias do Distrito que a sanha centralizadora do Governo decidiu fundir ou extinguir unilateralmente.



Foi uma manifestação pujante, em que a força da cidadania derrotou as evidentes tentativas de controlo político por parte da CDU, que sendo já minoritária nas autarquias do Distrito, consegue ainda por mérito da sua boa organização jogar forte no terreno.



Mas tudo visto e ponderado, a manifestação teve uma força que derrubou todos os controlos e deu voz a uma profunda indignação dos “fregueses” com a medida governamental. Uma medida que poupa tostões (se poupar) e custará milhões em deslocações, despovoamento e abandono das populações rurais da terra alentejana.



Como “freguês” da Freguesia do Bacêlo (agora coligada com a Senhora da Saúde) e como Deputado eleito pelo Distrito de Évora andei pela manifestação, falei com muita gente, senti o pulsar da revolta e a razão evidente dos que defendiam ali a última réstia de esperança duma vida condigna nas suas vilas e aldeias.



O Governo parece esquecer nas suas decisões alguns factos básicos. Portugal já não tem uma rede secundária de transportes públicos. As redes de acessos são normalmente em estrela ligando a sede do Município às freguesias. Muitos territórios contíguos não têm acessos directos tendo que a deslocação entre eles passar por uma ida à sede de Concelho.



Os professores, os médicos e até mesmo os padres já dificilmente se fixam nas freguesias. Só o Presidente e a Junta sinalizam a presença da administração, dão identidade aos territórios e intermediação de resposta aos cidadãos. Foi isto que Relvas implodiu a partir do Terreiro do Paço com uma enorme falta de sensibilidade política e social.



“Giraldo” (Geraldo Geraldes) era um nobre vilão e salteador que a mando de Afonso Henriques tomou Évora aos Mouros e a entregou ao seu Rei em 1165. O seu Castelo continua demarcado na Freguesia de Nossa Senhora da Tourega (Valverde) a pouco mais de 10 quilómetros de Évora.



Hoje Évora não foi assaltada. O assalto ocorreu antes. Foi o assalto dos que matam sem consciência (ou pior ainda, com consciência) a identidade do nosso território e a esperança das suas gentes.



Giraldo, que pela sua bravura ficou conhecido como o sem pavor, não lhes perdoaria. Perdoamos nós? Eu não.

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