Paz e Cooperação (0 Poder da Interdependência)

O Parlamento Europeu discutiu recentemente com a minha participação ativa a nova diretiva europeia do mercado do gás. Implícito a todo esse debate estava obviamente a forte dependência da União Europeia (UE) do gás russo e os vários modelos para o tentar suprir ou controlar.

Lembrei-me a propósito de um episódio recente.  Por solicitação de um grupo de jovens holandeses que estavam a fazer um trabalho académico sobre a política de energia em Portugal, gravei para eles uma pequena entrevista. Uma das perguntas que me colocaram foi sobre a importância que a aposta de Portugal nas energias renováveis tem para garantir a independência energética da União Europeia em relação à Rússia e ás outras grandes potências que ao contrário da União tem um “superavit” de capacidade de produção e distribuição.   

Respondi-lhe que o contributo decorrente da nossa aposta em recursos endógenos não é suficiente, mas ajuda a que a União Europeia seja mais independente em termos doaprovisionamento da energia de que necessitamos, mais competitiva nos mercados e também mais sustentável e amiga do ambiente na forma como produzimos e consumidos os recursos energéticos. No entanto, acrescentei que a independência, sendo fundamental para a autonomia estratégica, não deve ser usada para que os países ou os blocos se fechem, mas antes para que cooperem entre si e que troquem aquilo que produzem melhor, gerando interdependências que são a malha sobre a qual se constrói a paz. 

O exemplo da União Europeia ilustra bem este princípio. Depois de séculos de conflito e duas brutais guerras mundiais travadas em grande parte no seu território, foi a criação de laços de cada vez maior interdependência económica, social e política que garantiram à UE seis décadas de paz. Ao contrário do que muitos querem fazer querer a abertura e a cooperação entre os povos semeiam a paz, enquanto o isolamento promove a incompreensão o ódio e o conflito.

A UE continua a ser dos maiores contribuintes líquidos para as políticas globais de cooperação visando atingir os objetivos do milénio. Poderia ter usado esses programas e também as dimensões de sustentabilidade dos múltiplos acordos comerciais que a UE desenvolve no mundo para argumentar que a cooperação é o melhor caminho para a paz. 

Considero, no entanto, o exemplo do mercado do gás com que iniciei esta reflexão mais potente, porque mostra que também na nossa relação com os que têm menos recursos, devemos aplicar o princípio que quanto mais depressa os ajudarmos a ter autonomia e independência estratégica, mais depressa podemos desenvolver interdependências benévolas e favoráveis para todos. Ninguém de bom senso destrói o quintal do vizinho se souber que dele também depende o seu sustento.
Comentários
Ver artigos anteriores...