Porque (ainda) ganha a Direita?

Uma das maiores contradições políticas dos tempos mais recentes tem sido aquilo a que em linguagem futebolística se designa por benefício do infractor praticado pela maioria dos eleitores, que embora saibam ser a direita economicamente liberal e desreguladora, a culpada da virulência da grande crise financeira global que estamos a viver, insistem, sobretudo na Europa, em lhe dar a maioria dos votos e dos mandatos.

Este paradoxo tem sido para mim objecto reflexão política e merece ser objecto da reflexão de toda a esquerda, em particular da esquerda moderna e cosmopolita que constitui a alternativa forte para a mudança das dinâmicas globais negativas.

A justificação que me tem ocorrido como mais óbvia para o paradoxo da predominância da direita, tem a ver com a diferente consistência dos modelos. O modelo neoliberal é frágil mas tem uma narrativa implícita fácil de comunicar.

Em contraponto, a alternativa social-democrata para a globalização, não está ainda consolidada como narrativa global, e é por isso mesmo menos comunicável de uma forma afirmativa. Vive demasiado da desconstrução do modelo Neoliberal e isso tem-lhe sido fatal num tempo de comunicação simplista e minimalista.

A leitura do excelente ensaio de Tony Judt, “Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, Edições 70, 2010, fez-me vislumbrar uma nova justificação, complementar à anterior.

No seu livro Judt argumenta que o desenvolvimento da escola económica neoliberal muito baseada nos trabalhos de economistas austríacos marcados pela experiência neofascista, teve um racional pragmático. Se a esquerda não tinha sido capaz de suster a ameaça fascista por ser mais teórica que prática, então só um racional de mercado poderia criar as barreiras necessárias para evitar as ameaças totalitárias em contexto de crise.

O próprio Judt mostra no seu livro como a realidade pós segunda guerra veio a demonstrar não ser esse o único caminho, consagrando modelos de sucesso baseados num forte Estado Social, cujo exemplo mais expressivo foram as sociais-democracias nórdicas. A sua análise deixa-nos no entanto pistas interessantes sobre os desafios que se colocam hoje à esquerda moderna, se quiser assumir a liderança ideológica e prática dum novo modelo sustentável e equitativo de globalização.

Tem que ganhar em primeiro lugar a batalha da acção. Enquanto as pessoas pensarem que a esquerda pensa melhor mas a direita age mais depressa, vão apostar em quem lhe proporciona respostas rápidas em tempo de aflição.

Tem que ganhar em segundo lugar a batalha da narrativa. Enquanto o discurso da direita for um agregado de certezas, mesmo que frágeis e o discurso da esquerda for um conjunto de incertezas, mesmo que robustas, os eleitores vão preferir o pedaço de certeza ainda aparentemente disponível.

Tem que ganhar finalmente a batalha dos votos, de forma consistente e com a dinâmica que permita uma nova maioria progressista no mundo em geral e na Europa em particular. Esta terceira batalha é a batalha final e nela a vitória não sendo fácil, é possível e necessária, sobretudo se as primeiras duas pelejas forem ultrapassadas com clareza e êxito.
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