Almaraz



 

Portugal optou e bem por não investir na construção de centrais nucleares, ao contrário de Espanha que construiu a partir de 1969 dez centrais (duas delas já desligadas) e planeou outras tantas, entre as quais uma central nuclear em Almaraz, outra em Badajoz (Valdecaballeros) e outra ainda em Moral de Sayago (Zamora), em localizações com impacto direto no território português.



A Central Nuclear de Almaraz, situada a 100 quilómetros da fronteira portuguesa e refrigerada pelo rio Tejo, começou a ser construída em 1972 e entrou em funcionamento em 1981 (primeiro reator) e 1983 (segundo reator). A centrais de Badajoz e Sayago estavam em plena construção quando uma decisão do governo espanhol liderado pelo PSOE, conhecida por moratória nuclear, parou essa e outras construções e iniciou a era da aposta nas Energias Renováveis, sendo Espanha hoje, tal como Portugal, um dos países com maior incorporação e evolução tecnológica nessas energias de futuro.



Primeiro como cidadão e depois como decisor, quando exerci funções executivas na área da energia em Portugal, fui ganhando a convicção que nos diferentes estados de evolução tecnológica porque foi passando, a aposta nuclear foi sempre uma aposta de elevado risco e só justificável em circunstâncias muito especiais.



Em simultâneo, a corrida tecnológica entre as renováveis, as fosseis e o nuclear tem sido nas últimas décadas claramente favorável às renováveis (água, vento, sol, biomassa) sobretudo se entramos em linha de conta com fatores de segurança, emprego, flexibilidade, sustentabilidade do investimento e proteção do ambiente.



Devemos manter o espírito aberto e avaliar todas as soluções sem preconceitos e com uma apreciação multicritério. A minha preocupação com Almaraz (e com as outras 65 centrais em situação similar em toda a União Europeia) só tem a ver com o futuro na medida em que é preciso garantir que um investimento já claramente remunerado e em final de vida útil, não nos venha expor a riscos desnecessários de segurança.



Como Eurodeputado formulei à Comissão Europeia quatro questões escritas sobre Almaraz. Primeiro sobre os incidentes de segurança verificados e que o Conselho Nuclear Espanhol considerou unilateralmente de baixo risco. Depois sobre a eventual distribuição preventiva de Iodo às populações, tal como está a ser feito em relação a centrais belgas em situações similares. E finalmente, em setembro e agora sobre o processo de autorização unilateral da construção de um armazém de resíduos nucleares no perímetro da exploração.



Do diálogo formal e informal com a Comissão Europeia concluí que a sua ação está limitada pela diretiva em vigor (uma nova diretiva EURATOM aprovada em julho de 2014 terá em breve de ser transposta pelo governo Espanhol), que não obriga ao reporte de incidentes e investimentos. Mas a lei geral europeia obriga a que sejam estudados e mitigados os impactos transfronteiriços e os nossos direitos de cidadania obrigam a uma transparência que não tem sido garantida.  



Fez bem o governo português em exigir explicações e apresentar queixa do comportamento do Governo Espanhol. Os cidadãos portugueses e espanhóis que vivem na zona de impacto de Almaraz podem contar com a minha permanente vigilância. É o meu dever e é uma questão verdadeiramente chave para a nossa terra.            

 
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