Sentido de Urgência




No ser mais recente livro (Flashpoints – The emerging crisis in Europe)[1] –, George Friedman aborda de forma simples mas muito assertiva a ideia perigosamente generalizada de que os Europeus do Norte trabalham mais que os Europeus do Sul. O autor, ancorado em estatísticas fidedignas, demonstra que ao contrário da opinião generalizada, não existem diferenças significativas nas horas dedicadas ao trabalho pelos Europeus do Norte e pelos Europeus do Sul.

 

Em minucia, as estatísticas dizem-nos que os do Norte são mais produtivos e que os do Sul trabalham mais horas. Em consequência, os do Norte ganham mais e trabalham menos e os do Sul trabalham mais e ganham menos.

 

 No plano das perceções, que estão para além das estatísticas, os do Norte não entendem porque é que os do Sul não produzem mais e os do Sul não entendem porque é que os do Norte querem acumular tanta riqueza em vez de usarem parte do seu tempo para gastar dinheiro e gerar procura e oportunidades distribuídas. O que explica este diálogo de surdos é, segundo Friedman, um diferente sentido de urgência.

 

 Para os Europeus do Norte é o trabalho que dá sentido à vida, enquanto para os do Sul é a vida que dá sentido ao trabalho. Esta pequena diferença (aparentemente apenas semântica) tem um impacto brutal e é um dos germes da incompreensão que está a dividir e a enfraquecer a União Europeia.  

 

Recentemente integrei a delegação da União Europeia que participou na Assembleia Parlamentar Europa-América Latina que decorreu na cidade do Panamá. O sentido de urgência fraturou essa delegação composta por deputados de cerca de metade dos Países da EU.

 

De um lado, portugueses, espanhóis e italianos (e ao que me pareceu os franceses) sentiram-se em casa, como se fossem eles mesmos Membros do Parlatino (Parlamento Latino que integra representantes de todos os Países da América Latina). Do outro lado, alemães, austríacos, ingleses, holandeses, suecos e letões (que me recorde) eram peixes fora de água naquele ambiente cultural. Uns sabiam que tinham que envolver e seduzir para chegar a consenso. Outros queriam impor a sua visão e a sua forma de ver o mundo.

 

O sentido de urgência é mais importante do que parece. Se prevalecer uma ideia de sociedade em que as pessoas são meros instrumentos ao serviço da economia não haverá grande futuro para a sensibilidade latina, funda da na ideia de que é a vida que dá sentido ao trabalho.

 

Contudo, se cedermos á ideia de que é o trabalho que dá sentido à vida, numa sociedade em que cada vez mais o trabalho estruturado é um bem raro, dificilmente evitaremos uma crise brutal e uma fragmentação da Europa e do seu papel no mundo. Os latinos têm economias mais fracas mas em contrapartidas têm conceitos de vida mais fortes, se o objetivo for a harmonia e a tolerância global.

 

 Será que os nossos parceiros do norte se darão ao trabalho de compreender e valorizar esta diferença virtuosa de que a médio prazo todos beneficiarão?



[1] Tradução livre: Pontos de (Risco) de ignição – A crise emergente na Europa
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