Estamos Quites

Qualquer que seja a perspetiva sobre a qual olhemos a longa novela dos ”kits” de proteção civil e das suas já famosas golas protectoras anti-incêndio, o que vem sempre ao de cima é uma certa forma de fazer as coisas, baseada no desenrasca, no parece que é mas não é, no jeitinho, que por vezes nos leva enquanto povo ecomunidade a grandes feitos, espelhados na nossa história milenar e nos nossos sucessos contemporâneos, mas noutras vezes nos faz cair no ridículo e no impensável. 

O fazer fora da caixa e conseguir muito com pouco faz de nós um povo surpreendente ao mesmo tempo que por vezes nos atira, em pequena e grandes coisas paraterrenos que nos aproximam do deprimente.

Ao fim de um milénio de heróica afirmação e uma legislatura de impressionante recuperação, estamosquites nas vantagens e desvantagens da nossa forma de desenrascar soluções e seguir em frente. 

Vale no entanto a pena ir um pouco mais longe na análise do fogo e do fumo mediático que se gerou com o caso das golas anti-fumo e dos Kits de sensibilização e proteção do programa “aldeias seguras”.

Independentemente do que vierem a concluir os inquéritos em curso algumas coisas saltam desde já à vista. O triunfo do amadorismo sobre o profissionalismo. O efeito castrador de regras que em vez de avaliarem a conformidade operacional se detém apenas na conformidade orçamental e processual, ambas importantes mas que não justificam que se tome a nuvem por Juno. O espremer caricatural de cada evento por uma comunicação social ávida de casos para encher os tempos de emissão estivalO entusiasmo salivante de certos comentadores enrolados pelas trapalhadas da sua direita e desesperados por uma bóia de salvação para virar a agenda.

Estamos quites com o desenrasca mas não com a obrigação permanente de aprender com os erros e fazer melhor. Mais vale fazer menos mas fazer bem, com a humildade de aprender com as boas práticas e adaptá-las às circunstâncias e com a coragem de escolher em cada caso quem está mais capacitado para levar a nau a bom porto.

Tenho suficientes anos de serviço público para conhecer as muitas armadilhas que polvilham os processos de contratação pública e os riscos de se ser “preso por ter cão e preso por não o ter”, mas já que o teclar do pensamento me trouxe para o campo dos provérbios, recordo que “quem não quer ser lobo não lhe veste a pele” e quem a veste por descuido ou azar, a deve rapidamente tirar, sob pena de gerar no povoado uma reação desproporcionada e atiçada pelos arautos da desgraça, sempre prontos a criticar quem faz, respaldados na pacatez da sua inércia.
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