Atlântico Sul

Após mais de 20 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) foi assinado no dia 28 de junho. Trata-se de um primeiro passo. A sua concretização exigirá um árduo trabalho de harmonização regulatória setorial e o seu impacto pleno só se fará sentir daqui a alguns anos.
A importância económica, social e política do acordo é enorme. Os dois blocos representam 25% da criação de riqueza no mundo usando o Produto Interno Bruto e constituem um mercado de 780 milhões de pessoas.  92% das exportações do bloco sul-americano para a UE e 91% das exportações da UE para aquele bloco serão isentas de tarifas.
Como em qualquer negociação, o equilíbrio final implicou ganhos e perdas parciais de cada um dos lados em áreas económicas específicas. Não é de estranhar por isso que por toda a UE e também em todos os países do Mercosul se tenham escutado vozes de júbilo e também manifestações de preocupação. 
Em Portugal a celebração do acordo teve destaque reduzido. Os estudos disponíveis demonstram que teremos vantagem económica líquida. Tudo depende da capacidade que os diversos setores económicos tiverem para se adaptarem e tirarem vantagens e mitigarem os riscos na nova zona de comércio livre.
No mundo de hoje, em que o multilateralismo e a regulação do comércio mundial são fortemente ameaçados pela tentação hegemónica ativa ou reativa dos Estados Unidos e da China, para além da dimensão económica e comercial, o acordo UE/Mercosul tem um enorme simbolismo geopolítico, recolocando o Atlântico Sul no mapa dos grandes blocos, ombreando e ganhando capacidade de interlocução estratégica com outros blocos como o Atlântico Norte ou o Ásia /Pacífico. 
Este reequilíbrio é fundamental para reduzir tensões, promover o diálogo construtivo e reforçar na cena mundial valores que de há muitos séculos, com distorções pontuais dos dois lados, são partilhados pelos povos da Europa e da América do Sul.
O acordo foi celebrado poucos dias antes de terminar o meu mandato 2014/2019 no Parlamento Europeu e de se iniciar o novo mandato 2019/2024. Durante o mandato cessante integrei a Delegação Interparlamentar para as relações entre a União Europeia e os Países do Mercosul (presidida pelo meu colega Francisco Assis) e fui Vice-Presidente da Delegação Interparlamentar entre a União Europeia e o Brasil. Nas diferentes vertentes parlamenteares a concretização do acordo comercial UE / Mercosulfoi uma das minhas prioridades de ação. Desejo que ele se concretize em benefício dos povos e por um mundo melhor.
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