O Vírus do Relativismo

O relativismo é uma doença crónica da nossa sociedade. Como todos os vírus, biológicos ou sociais, também este está sujeito a mutações. A forma de agir e contaminar do novo relativismo é fácil de descrever. Primeiro a mensagem estranha-se. Depois ouve-se tantas vezes que se começa a achar normal. Finalmente quando acontece, já comparamos os factos com o que foi sendo entranhado e não com a realidade e inconscientemente até achamos que podia ter sido pior. 
Esta é a técnica dos populistas radicais que pouco a pouco vão insidiosamente tomando conta do tecido social e económico em muitas partes do mundo. Foi assim, que entre outros, Trump e Bolsonaro foram construídos como soluções ganhadoras. 
Usando os novos e os velhos instrumentos de comunicação foram criando uma realidade fictícia e uma narrativa com eles no centro. Como era apenas uma realidade fictícia e discursiva, nada acontecia de fundamental em sua consequência, e por isso a indignação inicial foi-se transformando em aceitação passiva e nalguns casos ativa, quando as mensagens fabricadas por medida tocavam num problema concreto dos eleitores, acordando sentimentos ou emoções negativas como o medo, a inveja ou o desejo de vingança.
Pouco a pouco, enfrentando instituições democráticas fortes como as que existem nos Estados Unidos, Trumptem vindo a colocar em prática a sua agenda. Minou o multilateralismo comercial, reanimou o belicismo e a corrida global às armas, enfraqueceu o combate às alterações climáticas, pressionou a liberdade de imprensa, reacendeu ódios raciais e culturais, tornou a América, não uma nação grande de novo como proclamava o seu slogan, mas antes num parceiro crispado e perigoso na cena mundial.
Bolsonaro só toma posse a 1 de janeiro de 2019, mas o que vai anunciando faz temer o pior, tanto mais que as instituições democráticas brasileiras são bem mais frágeis que as americanas. É claro que no meio de cada medida e de cada ação de constrangimento democrático, o futuro ocupante do planalto diz algumas coisas apaziguadoras até porque tem que aglutinar uma maioria num senado e num congresso muito fragmentados. Nestes momentos muitos podem respirar de alívio. Um alívio que vem da comparação entre o que disse na campanha e o que eventualmente acabará por fazer. 
Mas essa não é a comparação relevante. Toda a entorse à democracia tem que ser denunciada, nem que seja ligeiramente menor do que a temida. É preciso combater o vírus do relativismo.
   
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