O País e as Pessoas

Os números e em particular aqueles que refletem tendências a partir da análise de grandes amostras têm sempre múltiplas leituras. Uma tendência favorável pode disfarçar muitos casos individuais menos positivos, mas é sempre melhor que uma tendência desfavorável, em que os casos negativos são naturalmente mais impressivos.

No período de governação da coligação PSD/PP a preocupação em seguir de forma hiperbólica os ditames da troica fez esquecer as pessoas e o seu bem-estar. É desse período a célebre afirmação do então líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, de que “O país estava melhor, mas os portugueses não”, ou seja, que as melhorias nas contas públicas tinham sido conseguidas à custa do bem-estar dos portugueses.

Segundo o índice de bem-estar divulgado recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística essa tendência inverteu-se. Hoje é legítimo dizer que Portugal está melhor nas contas públicas, no crescimento e no emprego e que isso se reflete também numa melhoria consolidada do bem-estar dos portugueses.

O índice de bem-estar do INE retrata a evolução do bem-estar da população recorrendo a dois índices sintéticos, as condições materiais de vida e a qualidade de vida. Foram sobretudo as condições materiais de vida que travaram o índice na primeira metade da década. Na segunda metade eles alinharam e têm vindo a melhorar em simultâneo.

É interessante analisar também as componentes dos índices que têm contribuído mais para a melhoria do índice e os que embora evoluindo favoravelmente, o fazem de forma mais lenta. 

A Educação, a participação cívica e a governação têm sido os indicadores com um comportamento mais acelerado, o que nos dá um bom conforto em relação às dimensões chave da melhoria do capital humano, da solidez da democracia e da qualidade das instituições. 

Em contrapartida e sem surpresa, o trabalho, os níveis de remuneração e a vulnerabilidade económica são os indicadores com recuperação mais lenta. A confiança vai-se construindo, mas depois dos amargos de boca do início da década demora algum tempo a consolidar. É nesse domínio que a aposta tem que ser mais forte, sem descurar nenhum dos outros.

É importante salientar também a melhoria da perceção da segurança pessoal, que inclui a dimensão direta da segurança no país, mas também das respostas sociais incluindo a saúde, e como contraponto menos positivo o declínio nos índices que refletem as condições de equilíbrio vida - trabalho, um dos maiores desafios dos tempos modernos.

Em síntese, é longo o caminho a percorrer e uma tendência não pode ser tomada como  uma circunstância igual para todos.  Mas é sempre bom que a estatística comprove o que sentimos no quotidiano. Estamos melhor. O país e as pessoas. 

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