Visto de Casa 21/03

Em Portugal esta é a primeira guerra para a minha geração. Mesmo os que foram à tropa, como eu fui, não fizeram a guerra colonial nem nenhuma das anteriores em que o nosso país esteve direta ou indiretamente envolvido. É uma guerra diferente, com um inimigo insidioso e camuflado. 

Para os maiores estrategas da guerra, a melhor batalha é aquela que não temos que travar. Sun Tzu ensinou-nos que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”.  Infelizmente este ensinamento do grande general e filósofo chinês do seculo VI AC já não é opção no combate em que estamos. Teremos mesmo que lutar, mas com inteligência e estratégia.

Para vencer as batalhas que não se podem evitar, Sun Tzu postulou que “se conhecermos o inimigo e nos conhecermos a nós mesmos não precisamos temer o resultado”. O mestre ensinou ainda que “se nos conhecermos a nós mesmos, mas não o inimigo por cada vitória conseguida sofreremos também uma derrota”. Finalmente, disse que “se não nos conhecermos a nós mesmos nem ao inimigo perderemos todas as batalhas”.

Por enquanto estamos a conseguir vitórias e a sofrer derrotas em resultado do conhecimento de nós mesmos da nossa capacidade como comunidade, do esforço hercúleo dos nossos profissionais de saúde e de todos os que tornam a sua ação possível, e do compromisso de cada um de nós com as normas que devemos cumprir para nos protegermos a nós mesmos e protegermos os outros.

Mas ainda desconhecemos o inimigo. A contabilidade da propagação em Portugal sofreu ontem um pequeno solavanco, depois da desaceleração promissora do dia anterior, em larga medida devido ao aumento dos testes. Mais testes significam mais deteções e mais deteções permitem menor contaminação. Ninguém gosta de saber que os números de infetados subiu, mas o que é mais preocupante e torna este combate tão complexo são os infetados não detetados. Quanto menos forem melhor.  

À escala global, a comunidade científica está a dar tudo para conhecer o inimigo de forma a poder preparar as armas que o vão derrotar. É fundamental que este combate marque também os primeiros passos de um tempo novo, solidário, em que todos possam ter acesso aos tratamentos que forem surgindo. Nesta guerra acredito que isso acontecerá porque mesmo os mais egoístas sabem que o egoísmo pode fazer, como já fez, boomerang e derrotar quem o pratica. 

O Governo começou com serenidade e sentido de urgência a implementar medidas excecionais para manter a economia à tona e a sociedade a funcionar. Falar verdade, não prometer o que não pode ser feito e fazer tudo o que for possível em função da evolução da crise é um desafio brutal. Temos razões para confiar na capacidade das nossas instituições democráticas para o vencer.  

A decisão da Comissão Europeia de suspender as regras de limitação orçamental na Zona Euro  é uma boa proposta feita por más razões, mas que para ser verdadeiramente solidária e eficaz terá que ser acompanhada por mecanismos de mutualização da dívida e dinamização do investimento. Lutarei por isso no Parlamento Europeu cuja agenda na próxima semana, com participação à distância, é muito preenchida. Até amanhã e muita saúde.
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