Volatilidade

 Uma expressão que todos conhecemos e não de agora, ensina-nos que em muitas coisas da vida, o que é verdade hoje pode já não ser verdade amanhã. O sonho comanda a vida, mas a mudança é parte intrínseca da forma esse sonho desagua na realidade. Uma mudança permanente e acelerada que abala certezas, perspetivas e avaliações do que acontece, do que aconteceu ou do que acreditamos que está para acontecer.

 

Não quero nesta crónica ceder ao facilitismo relativista. Este tema da mudança cada vez mais inopinada e da volatilidade dos contextos assaltou-me quando, devido às minhas funções parlamentares, comecei a preparar uma intervenção sobre a trágica situação de intolerância ética e risco de guerra civil na Etiópia. 

 

Recordei-me então que há pouco mais de um ano recebi com enorme alegria a notícia da atribuição do Prémio Novel da Paz ao Primeiro-Ministro Etíope Abiy Ahmed Ali pelos seus esforços para promover a paz e a cooperação e em particular pelo seu papel determinante para resolver um velho conflito transfronteiriço entre o seu País e a Eritreia. 

 

Agora, os holofotes focam o Nobel de 2019 envolvido num conflito interno sangrento, fundado em intolerâncias étnicas entre regiões e origens tribais dominantes em cadauma das regiões que constituem a Etiópia. Quem não se recorda também do caso de Aung San Suu Kyi, a lutadora birmanesa pela paz que foi Nobel em 1991, e que quando chegou ao poder foi acusada pela comunidade internacional de cooperar no genocídio dos “rohingya” muçulmanos no seu País.

 

Não conheço com detalhe suficiente nenhum dos dois laureados que citei para os julgar. Podem ser boas ou más pessoas. Têm certamente muito valor, coragem e determinação e em contextos diferentes colocaram essas capacidades ao serviço de causas boas e também de causas más, ou que pelo menos assim são julgadas pela maioria dos observadores.

 

A volatilidade é a marca do nosso tempo. Sentimo-la na pele. Nos exemplos que dei, mas também naquilo que nos marca o quotidiano.

 

Nunca como nestes meses de pandemia, a ciência e o conhecimento à disposição da humanidade progrediram tanto. Também nunca como agora foram essas ferramentas do saber tão usadas e abusadas para desinformar consciente ou inconscientemente, para exacerbar egos e vaidades e para alimentar querelas pessoais, profissionais, empresariais, políticas ou geopolíticas.

 

No meio da volatilidade precisamos de ter os pés bem assentes no chão. Quando tudo muda, a âncora que nos resta são os valores e os princípios que nos iluminam o caminho.    

 

 

 

     

 

 

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