Visto de Casa 26/03


Preso por ter cão e preso por não ter. Quem não conhece este velho provérbio popular que cai que nem uma luva quando é preciso decidir em tempos de incerteza e bifurcação. Um bom exemplo tem sido aacesa discussão sobre o modelo de funcionamento do Parlamento Europeu enquanto durar a pandemia.

Com a grande maioria dos seus membros confinados nos seus países e com a Bélgica com as fronteiras controladas, as reuniões de trabalho têm decorrido com normalidade possível tendo por suporte ferramentas virtuais de teletrabalho e de teleconferência. Hoje está a decorrer uma sessãoplenária e as opiniões dividiram-se sobre a forma como esse plenário deveria decorrer

De um lado estão os que consideram que o Parlamento tem que dar o exemplo e por isso trabalhar à distância, sem prejuízo da sua capacidade de iniciativa e decisão democráticaDo outro lado estão os que afirmam que nestas alturas um órgão com a responsabilidade de representar todos os europeus não se pode esconder, refugiar e faltar à chamada e por isso deve funcionar como sempre funcionou, com algumas cautelas e desinfeções acrescidas.

Penso que a primeira posição é mais razoável, tendo em conta que não é apenas a proteção dos Eurodeputados que está em causa, mas também a de todos os que com eles trabalham, do staff do Parlamento (infelizmente já com muitos infetados e um falecidoe da população da cidade.

A solução encontrada e que está a ser aplicada, constitui um compromisso entre as duas visões. Todos os deputados que o desejarem poderão registar-se eassistir à reunião, alguns presencialmente e a grande maioria à distância e foi montado um sistema seguro de voto universal. Uns irão presos por ter cão e outros por não o ter, mas espero que o bom senso se imponha. 

Já todos percebemos que o combate contra o surto de coronavírus não será fácil e exigirá muita persistência e grande resiliência. Persistência e resiliência é aatitude que os Primeiros Ministros de Portugal, Bélgica, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Eslovénia e Espanha terão que ter para que a carta que ontem enviaram ao Presidente do Conselho EuropeuCharles Michel não caia em saco roto. Não pode cair.

Nessa carta, os líderes destes nove países reclamam a implementação de um instrumento comum de emissão de dívida para enfrentar a crise provocada pelo COVID19. Propuseram, na véspera do Conselho Europeu que se realiza hoje por videoconferência, que a União avance para a criação de um instrumento comum de dívida, emitida por uma instituição europeia, para angariar fundos no mercado na mesma base e em benefício de todos os Estados membros. 

Alguns países europeus, sobretudo os economicamente mais robustos, pensam que sozinhos irão mais depressa. No passado, quando o fizeram chegaram rápido ao abismo. É preciso que a história não se repita, para fugirmos de um ciclo ainda mais sombrio do que as sombras que o coronavírus projetou sobre o nosso futuro e que tentamos afastar todos os dias com força e determinação. Até amanhã, com muita saúde para todos. 

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