Apelo à Sra. Lagarde



Conheci a Sra. Christine Lagarde, atual Directora Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) durante a Presidência Francesa da União Europeia no Segundo Semestre de 2008. Lagarde era Ministra das Finanças, Industria e Emprego do Governo Francês e assumiu por isso a Coordenação da Estratégia de Lisboa em França e na Presidência do Conselho Europeu.

Nesse tempo eu era no Governo Português o coordenador, por delegação de José Sócrates, da Estratégia de Lisboa em Portugal, na qual se incluíam entre outras a Agenda do Plano Tecnológico. Tenho uma impressão positiva desses tempos de trabalho directo com Lagarde. Era uma mulher elegante, cheia de charme e com grande capacidade negocial.

Discutia-se então que estratégia sucederia à Estratégia de Lisboa, cujo prazo de vigência era 2000/2010. Muitos Países falavam da Estratégia de Crescimento e Emprego depois da Estratégia de Lisboa e eu defendia com alternativa o conceito duma Estratégia de Lisboa para o Crescimento e Emprego pós-2010. Parece hoje uma discussão semântica mas não era e não é.

Na altura a Sra. Lagarde “deu-me” a vitória, mas mais tarde a realidade da ditadura financeira impôs-se. A Europa ficou sem a Estratégia de Lisboa (alguns alegavam que Estratégia de Lisboa e Tratado de Lisboa era Lisboa a mais), mas sobretudo ficou sem uma Estratégia de Crescimento e Emprego.

A Estratégia Europa 2020 é hoje uma inexistência política. Em Portugal está guardada numa gaveta do Palácio de S. Bento (as chaves estão num cofre das finanças) e na Europa é mais narrativa sem dinheiro, como já tinha sido em certa medida a Estratégia de Lisboa.

A Sra. Lagarde, uma economista de inegável matriz neoliberal, pareceu-me uma mulher inteligente e razoável. No governo francês e mesmo agora como Directora Geral do FMI já proferiu intervenções de grande lucidez. Uma coisa no entanto é evidente. A Sra. Lagarde não conhece Portugal e quem a rodeia está interessado em contar-lhe uma história falsificada.

O Estudo do FMI sobre Portugal é degradante para uma instituição com o prestígio do Fundo Monetário Internacional. O FMI precisa de conhecer Portugal. Deixo por isso um apelo à Sra. Lagarde. Escolha alguns bons investigadores económicos e sociais portugueses ou que conheçam a fundo esta terra e encomende-lhe um estudo sobre Portugal, para que o FMI passe a saber do que fala quando voltar a falar deste País centenário que deu ao mundo a globalização de que ela é agora um dos mais significativos rostos.

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