Era um mercado de Natal (Estrasburgo)

O mercado de natal de Estrasburgo é um dos mais conhecidos e acolhedores de Françae da Europa. Dia 11 de dezembro ao fim da tarde estava um frio próprio do inverno, e já não restava sequer um fio de luz natural, quando no meio da música da quadra se ouviram ecoar vários tiros. Não estava lá. A essa hora no meu grupo político no Parlamento Europeu discutiam-se acaloradamente as políticas comerciais e os riscos e vantagens da globalização a propósito do acordo União Europeia-Japão que seria votado no dia seguinte e aprovado por larga maioria.

Poucos minutos depois os tiros já tinham “chegado” ao Parlamento. Tinham chegado a todo o mundo. Até ao Japão através das agências noticiosas. E era um mercado de natal.

A globalização hoje já não depende da vontade de qualquer órgão soberano porque ela é primeiro que tudo uma globalização da informação. O jovem Chérif Chekkat, até aí conhecido das polícias europeias por 27 condenações em 3 países europeus, tornou-se de repente um vilão ou um herói global conforme a perspetiva dos que avaliaram o seu ato tresloucado. 

Ao mesmo tempo muitas crianças encantadas ainda com os sonhos do Natal e do renascimento da esperança que ele simboliza, viram esse tempo mágico associado a morte e a sangue, a ódio e a medo. Certamente muitos deles no seu espírito sentiram vontade de pedir aos adultos como presente um mundo com mais paz e tranquilidade. 

Por cada atentado que ocorre na Europa há centenas deles que são abortados pela cooperação das forças policiais. No entanto, mesmo um atentado abortado é um sinal de mais uma pessoa ou rede radicalizados e dispostos a morrer e a matar em nome do desespero ou da manipulação.

Depois de Jesus nascer, chegaram os Reis magos guiados por uma estrela e carregados de ouro incenso e mirra. No mercado de natal de Estrasburgo ficaram os destroços de um mundo doente.

Era um mercado de natal. Para que o mundo possa voltar a celebrar sem medo os ritos do amor fraterno, temos todos que ser “magos” na nossa própria vida e ter a coragem de a encher de tolerância, aceitação do outro e defesa intransigente dos valores da liberdade com responsabilidade.

De praticar a liberdade que termina onde começa a liberdade do nosso semelhante. Em que a música se escuta sem tiros que a perturbem.
Comentários (1)
Ver artigos anteriores...