A "Carne é Fraca" - O escândalo da carne brasileira e o Mercosul




“Carne Fraca” foi a designação atribuída pelas autoridades judiciais brasileiras a uma operação que identificou fraudes diversas nalguns lotes de carne de vaca e de frango exportados pelo Brasil para a Europa e outras regiões do globo. O que sucedeu é lamentável. De positivo apenas a aparente eficácia da operação que detetou a fraude e a rápida reação das autoridades que suspenderam empresas, lançaram auditorias e processaram os funcionários do Estado envolvidos.

 

Como Vice-Presidente da Delegação para as relações entre a União Europeia e o Brasil envolvi-me na análise da situação, falei com responsáveis brasileiros e europeus e recolhi informação sobre a situação.

 

Uma vez efetuada e divulgada pelas autoridades brasileiras, a investigação judicial é uma peça chave do processo, e sem me querer imiscuir na soberania de um País terceiro, é fundamental que possa ser credível e transparente para minimizar os danos causados à fileira no Brasil e em toda a América-Latina.  

 

Uma outra dimensão do escândalo é a impacto que poderá ter na segurança alimentar no Brasil ou fora dele. Os dados preliminares conhecidos mostram que os aditivos e as práticas ilegais foram expedientes para aumentar margens e capacidade concorrencial de forma fraudulenta, mas ainda não foram demonstrados os potenciais efeitos cancerígenos desses aditivos nem se conhecem casos graves de perturbação do estado de saúde de quem consumiu a carne adulterada. 

 

Quando um País ou uma região produtora de carne ou de qualquer outro produto com elevado peso no comércio mundial têm um problema de certificação ou de sanidade, é normal que os concorrentes procurem tirar disso partido, ganhando mercados de difícil acesso. Não é estranho por isso ver em muita imprensa referências à oportunidade que o escândalo traz para um aumento, mais ou menos circunstancial, do aumento da exportação da carne portuguesa ou da carne europeia para mercados pontualmente fechados à carne brasileira e dos países vizinhos. Nada que os latino-americanos não fariam também se a situação fosse ao contrário.

 

O que é preocupante é a tentativa de alguns usarem este caso como arma de arremesso para pôr em causa o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul (Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai e Venezuela, esta última atualmente suspensa), o qual depois de duas décadas de aturadas negociações começa a ter condições de ser assinado até ao final do corrente ano.

 

Eu sei que a “carne é fraca” e um acordo com a envergadura daquele que está a ser ultimado entre a UE e o Mercosul tem vencedores e perdedores. Mas na atual ordem económica e política mundial deixar escapar uma aproximação estratégica entre a Europa e uma parte importante da América Latina por calculismos setoriais e expedientes de curto prazo, seria, a acontecer também um grande escândalo. Uma visão fraca sobre o que está em causa com a “carne fraca”. 

 
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